quinta-feira, 27 de novembro de 2008

ECONOMIA

O mundo não resiste a um sistema financeiro capenga
POR Bruno Victor Toranzo

A confiança é fundamental para manter a saúde do sistema econômico. Assim como nas relações amorosas, o ato de confiar garante dias tranqüilos. Por conseqüência, em tempos de prosperidade, o princípio passa praticamente despercebido. Não existem razões para duvidar da eficiência do capitalismo, já que sua prática está gerando recordes seguidos de faturamento.

Enquanto o rendimento dos investidores está no patamar mínimo de satisfação, os participantes simplesmente fecham os olhos e cruzam os braços para qualquer exagero que possa trazer prejuízos, com reflexos na economia real, no futuro. Aproveitam o presente. Deixam o amanhã para lá. Ou, como se observa nas últimas semanas, para o governo.

Quando a bolha estoura ou, em outras palavras, a instabilidade eclode, o desespero toma conta do mercado, como se os envolvidos não soubessem de nada. Sem a confiança do passado, os bancos ficam receosos, com “a pulga atrás da orelha”. Aliás, eles são os primeiros a responder, de forma negativa, aos sinais da crise. O termômetro para medir a incerteza dos banqueiros está no crédito, mecanismo fundamental para o funcionamento da economia.

Os próprios bancos necessitam de empréstimos diariamente. Eles negociam entre si para que todos honrem os compromissos financeiros. Esse montante de dinheiro, representado no ambiente virtual, inexistente materialmente (em papel), faz com que as instituições bancárias possam emprestar para o restante da economia. Além dos correntistas comuns, como eu e você, as empresas abrem linhas de crédito facilitadas com os bancos. Isso faz a economia girar. Os comerciantes vendem. As pessoas trabalham. Os consumidores compram. Os empresários ampliam seus negócios.

A classe consumidora moderna está acostumada em dividir em muitos e muitos meses suas dívidas. Compramos algo com a intenção de finalizar o pagamento desse mesmo algo só depois de algum tempo. Dessa maneira, podemos comprar diversos algos em um único mês, sem se preocupar se o salário vai cobrir todo o gasto. São os famosos financiamentos. Pagar à vista virou coisa do passado. É ultrapassado. Nossos avós agiam assim. Essa mesma geração também guardava dinheiro embaixo do colchão.

Para reordenar o sistema, os Estados Unidos, com a liderança do secretário do Tesouro, Henry Paulson, que desempenha a mesma função do ministro Guido Mantega, estão investindo maciçamente no setor privado. Já foram utilizados quase US$ 6 trilhões para dar um fim na bagunça financeira.

São três as frentes principais de combate: compra de títulos podres (os famosos “subprimes”, créditos hipotecários com alto risco de inadimplência), compra de ações preferenciais das instituições prejudicadas e concessão de empréstimos em dinheiro vivo. Ressalta-se que, em momentos de emergência, o crédito vem do Estado mesmo. O último pacote, de US$ 800 bilhões, destina cerca de US$ 600 bilhões para reativar o crédito no país.

Resta saber se os esforços, não só americanos, como japoneses, chineses e europeus, vão reverter o cenário originado pela irresponsabilidade dos agentes financeiros. Não há alternativa para as autoridades a não ser o socorro do sistema. Mesmo que os erros tenham sidos do próprio capitalismo, com grau de especulação desordenado, o mundo não consegue sobreviver com um sistema financeiro capenga. A economia precisa de instituições internacionais sólidas o bastante para garantir o eterno crescimento da geração de riquezas.