segunda-feira, 15 de março de 2010
NOVO SITE
VIAGEM EUROPA
A essência europeia aflora nos meses de frio
POR Bruno Toranzo
Na temporada de frio, ainda mais durante o inverno rigorosíssimo deste ano, muitos simplesmente não têm coragem de partir para a Europa. Optam por realizar a viagem quando os dias de calor intenso, como esses que vivemos, viram realidade no Velho Continente. Através das melhores fotos que separei para publicar por aqui, vocês perceberam que não penso desse jeito.
É evidente que sinto frio como todo ser humano. Confesso que algumas manhãs foram especialmente difíceis para levantar. No inverno, a cama fica extremamente atrativa. Adormeço rapidamente. O sono é mais profundo. Para se proteger do frio que bate à porta, fico encolhido na beirada da cama com uma montanha de cobertores sobre o corpo. Só deixo o nariz e os olhos descobertos.
Na verdade, não posso dizer que enfrentei as noites de temperaturas baixas com esse arsenal de tecido. As casas europeias, assim como grande parte das outras edificações, contam com sistema de calefação. Trata-se de uma série de aquecedores que esquentam a água com a utilização de gás. O problema está no choque térmico, a diferença de temperatura de dentro para fora e de fora para dentro, algo que sentimos constantemente, impossível de evitar.
Em incontáveis vezes, acordei logo cedo, abri a cortina, e lá estava a neve. O branco dominava a paisagem. Os capôs dos carros perdiam a cor original. As lixeiras da rua deixavam de ser pretas. O próprio asfalto não conseguia resistir ao hegemônico branco. Nem mesmo os finos fios de alta tensão, responsáveis por levar a energia que fazia com que o aquecedor esquentasse a casa onde estava, eram poupados.
Ao conversar com os ingleses, eles mesmos diziam que o frio, materializado na neve matinal, determina o mau humor diário. Uma boa maneira de testar até onde consegue manter seu senso de humor é acordar, ao longo de uma semana, com uma temperatura muito próxima do zero grau, com frequência em patamares negativos.
Para não congelar, tive de criar uma maneira de me vestir. Ao contrário do nosso querido Brasil, país de temperaturas mais ou menos constantes, cujo tempo para se vestir, com exceção das mulheres preocupadas com a aparência, não passa de poucos minutos, os europeus, nessa época do ano, levam, no mínimo, cinco vezes mais. Como não tinha habilidade nos primeiros dias, era preciso ser paciente para conseguir vestir aquela quantidade enorme de roupa. Além das blusas, não se pode esquecer do gorro, das luvas, do cachecol e, se estiver nevando, da camisa e da calça térmicas por baixo de tudo isso.
Mas o tempo ruim não traz somente dificuldades. Os dias nublados, sejam eles chuvosos, nevosos ou os dois juntos, possibilitam prazeres. Para o meu paladar, o principal deles é, sem dúvida, o chocolate quente. Em Cambridge, a cidade que vive para a universidade, há, assim como no restante da Inglaterra, dezenas de cafeterias. Ao lado das gigantescas redes, como Starbucks e Costa, existem as pequeninas opções, consideradas charmosas e muito acolhedoras. Todas elas, gigantes ou pequeninas, têm uma peculiaridade: preparam o café e o chocolate quente, sem falar nas outras bebidas, como se fossem uma deliciosa sobremesa.
São servidos de forma generosa. Em uma grande caneca, você pode aproveitar o sabor aos poucos. Para isso, a colher com uma superfície de contato maior, diferente de qualquer outra, evita que caia no erro de se apressar para bebê-lo. Para acompanhar, por que não um cookie? Esses biscoitos, tradicionais entre os ingleses, são recheados com muito chocolate. A característica crocante é percebida em cada mordida. Há cookies com diversas frutas no meio da massa, com destaque para uva passa.
Os britânicos são leitores ávidos de jornais. Eles adoram lê-los nos momentos que degustam a bebida-sobremesa. As publicações mais populares são os tablóides. De forma geral, os jornais nesse formato fazem parte daquela imprensa que chamamos de sensacionalista ou apeladora. Durante o tempo que estive por lá, a notícia mais importante e impactante foi a respeito do escândalo protagonizado pelo jogador de futebol John Terry, o zagueiro da seleção inglesa e do Chelsea, clube de Londres.
Diariamente, os jornais escancaravam em suas nobres primeiras páginas detalhes sórdidos sobre seu caso extraconjugal. Ao sair com a mulher, uma tal de Vanessa Perroncel, do companheiro de seleção, o lateral-direito Wayne Bridge, Terry, também casado, enterrou sua reputação de “bom moço”, imagem que gozava frente à nação. Por causa do escândalo, Terry perdeu a braçadeira de capitão do time inglês.
O envolvimento das pessoas no assunto foi enorme. A repercussão, gigantesca. O jornal Daily Mirror, tão especialista nesse tipo de assunto quanto o mundialmente conhecido The Sun, lançou camisas de apoio aos dois jogadores. Assim, os leitores puderam escolher para qual jogador prestariam solidariedade. Os dizeres “Team Terry” ou “Team Bridge” foram estampados nas camisas. Para comprá-las, bastava acessar o site do jornal e gastar quase 50 reais em cada uma.
Não só de fofocas vive a imprensa britânica. Alguns títulos possuem uma enorme credibilidade, já que realizam coberturas memoráveis. O principal deles, bem como o que mais me identifiquei, foi o The Guardian. Em formato tablóide, de fácil manuseio, a publicação investe em grandes reportagens. Uma delas, “In God’s name”, discute se os dez missionários americanos batistas agiram de boa fé ao tentar levar mais de trinta crianças haitianas para fora do país logo depois do terremoto. E, acima disso, perguntam se qualquer pessoa, mesmo que tenha boas intenções, tem o direito de retirar crianças dos braços da sua família para levá-las a um mundo completamente diferente.
O frio também faz com que os esplêndidos museus europeus, não somente ingleses, fiquem lotados. É indescritível a emoção de estar próximo, com o rosto quase colado, às obras dos grandes pintores da nossa história. Quando digo “nossa história”, refiro-me ao mundo inteiro, sem distinção de povos, sem divisão de fronteiras.
A National Gallery é um desses lugares que não possuem nacionalidade. Mesmo que esteja na região central de Londres, perto da movimentada estação de metrô Charing Cross, não se pode dizer que a galeria de arte seja britânica. A diversidade de artistas, de várias nacionalidades, impressiona. Todos os períodos históricos da pintura são retratados em suas espaçosas salas. Desde os quadros datados do fim da época medieval, passando pelo século XVI, com destaque para os italianos Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Raphael, pelo XVII, com o holandês Rembrandt, até o período que vai do século XVIII ao começo do XX, com o francês Monet, o também holandês Van Gogh e o espanhol Goya. O visitante esquece do presente e viaja no tempo sem hora para retornar.
Em Amsterdam, a capital da Holanda, cidade conhecida pelo românticos canais, o museu dedicado a Van Gogh concentra grande parte de sua produção cultural. O brilhante artista holandês, em um espaço de apenas dez anos, deu vida a 800 pinturas, além de ter feito mais de mil desenhos. Theo, o irmão de Van Gogh, era um empresário. Ele comprava os trabalhos daqueles artistas que se destacavam, inclusive os quadros do irmão. Muitas vezes, o próprio Van Gogh indicava a compra das pinturas de alguns desses artistas em ascensão.
E não posso me esquecer de falar sobre os templos, as catedrais, as igrejas, construções formidáveis que possuem centenas de anos. A Catedral de St. Paul se destaca na paisagem londrina. Em uma área de prédios relativamente modernos, voltados para o mercado financeiro, a igreja não perdeu seu brilho. Muito pelo contrário: ela continua se destacando, como se estivesse na Londres sem arranha-céus de muitos anos atrás.
Por dentro, a catedral também chama a atenção pelo tamanho. As imagens religiosas são altas. Impressionam pela altura. Ao se aproximar, os ricos detalhes levam facilmente à interjeição de espanto. Foram trabalhadas cuidadosamente. Estou certo de que, a exemplo de qualquer outra obra-prima, a paciência é fundamental para atingir esse resultado. Alguns grandes nomes estão enterrados na catedral como o almirante Nelson que comandou a esquadra inglesa contra os franceses e espanhóis na Batalha de Trafalgar em 1805.
Por fim, destaco o templo da Sagrada Família em Barcelona. Projetada pelo arquiteto Antoni Gaudí, o mesmo autor do desenho da casa “La Pedrera”, outra construção-símbolo da cidade, “La Sagrada Família”, como chamam os espanhóis, tem um arquitetura singular. Admirador da natureza, Gaudí utilizava suas diversas formas, como a dos galhos secos e a do caracol, em tudo que construía. Como não pôde finalizar sua obra, o governo espanhol se encarregou dessa tarefa. Tudo está sendo feito conforme Gaudí planejou. Até o fim do ano, os espanhóis poderão assistir aos cultos, já que a reforma da parte interna estará pronta. Só em 2030, as obras terminarão, com a construção de mais algumas torres.
A Europa é antiga. Aonde quer que você vá, seu pensamento está em algum momento do passado. Pode-se dizer que seja difícil viver o presente. A história faz parte da vida do europeu, especialmente do britânico. A valorização dos antepassados, das suas origens, está na preservação das evidências. Para os turistas que, infelizmente, não vivem essa realidade de exaltação do passado em suas nações, vale a pena visitar os países europeus, especialmente durante os meses de frio. As temperaturas baixas criam uma atmosfera ainda maior de apreciação dos feitos de outras vidas.
SOBRE O SEGUNDO SEMESTRE DO ANO PASSADO
quinta-feira, 23 de julho de 2009
UM OLHAR DIFERENTE SOBRE A REALIDADE
POR Bruno Toranzo
Enchi o copo. Deixei ao lado a garrafa de cerveja. Sentado no banquinho do balcão da padaria, encostei o queixo na palma da mão para observar as pessoas com mais cuidado. Procurei em volta um personagem curioso ou uma situação bizarra.
Dei de cara, logo em frente, com um senhor gordinho. Ele se deliciava com sua mussarela. Optou pelo sabor clássico. Boa pedida. Ao meu lado, uma família completa, com homem e mulher ainda casados, algo raro nos dias que se passam, pedia um pedaço atrás do outro. Com tantos filhos, três ao todo, duas garotas, que comiam feito garotos, e um moleque, que comia feito orangotango, o garçom comemorava, através de um largo sorriso, cada vez que retirava a caneta de cima da orelha para anotar outro pedaço na comanda.
De repente, uma surpresa. Gosto de surpresas. Elas quebram a mesmice. Só não esperava que estivesse no meio. Uma senhora, do outro lado do balcão, na região próxima às mesas, lança um olhar fixo em minha direção. Seus olhos negros procuram os meus verdes. Retribuo. Encaro aquela mulher, dos seus sessenta e muitos, para tentar decifrar o que está pensando.
Aposto que seu nome é Fátima. Desde os tempos de pirralho, teimo que velhas se chamam Fátima ou Aparecida, e velhos se chamam Osvaldo ou José. Quando era pequeno, não conseguia entender o porquê de algum senhor ter como nome Caio, Horácio ou, até mesmo, Ricardo, vocativos que levam a jovialidade na sua essência. Na verdade, ainda hoje não compreendo.
Seja lá como for, a tal Fátima, ao mesmo tempo em que olhava, começou a soltar algumas palavras. Percebi que seus lábios se mexiam. Uma expressão de pena se formou no rosto. Era difícil entender o que dizia. Aos poucos, as frases ficaram claras. A velhinha interpretou a situação de forma errada. Ela pensou que fosse um jovem no "mau caminho". Por eu ter escolhido a cerveja como única companheira naquela noite, a coitada dizia palavras religiosas, uma espécie de oração para dar um jeito na minha alma.
Depois de alguns minutos, a Dona Fátima sossegou. Voltou para sua mesa com dois pedaços de pizza. Curioso para ter outras informações sobre a senhora, virei o pescoço bruscamente. A senhora se juntou à outra para saborear a especialidade da padaria.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
LITERATURA
POR Bruno Toranzo
Com uma capacidade de encontrar respostas no passado para os desafios do presente, o historiador Eric Hobsbawm possui uma habilidade de análise das relações entre os países, sejam elas políticas, econômicas ou culturais, somente vista nos escritores considerados fora de série.
Em “Globalização, Democracia e Terrorismo”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, o autor egípcio mostra ao leitor as características dos novos tempos trazidos pelo fenômeno da globalização. De maneira prática, privilegiando a objetividade, Hobsbawm deixa de lado os detalhes históricos para mergulhar no tortuoso contexto em que estamos inseridos.
Leia alguns trechos do livro a seguir:
"Deixando de lado a Espanha do século XVI e talvez a Holanda do século XVII, a Grã-Bretanha, de meados do século XVIII a meados do século XX, e os Estados Unidos, a partir de então, são os únicos exemplos de impérios genuinamente globais com horizontes políticos globais, e não meramente regionais, o mesmo valendo para seus recursos de poder – a supremacia naval para a Grã-Bretanha do século XIX e a supremacia aérea para os Estados Unidos do século XXI –, ambos apoiados por uma forte rede mundial de bases operacionais."
(...)
"Também ambos dominaram como modelos econômicos, como pioneiros técnicos e organizacionais, como indicadores de tendências e ainda como os centros do sistema mundial de fluxos financeiros e de produtos comerciais e como os países cujas políticas financeiras e comerciais determinavam em grande medida as características desses fluxos."
(...)
"Um dos maiores trunfos do imperialismo ocidental, formal ou informal, era o de que, na sua primeira acepção, a ‘ocidentalização’ era a única forma pela qual as economias atrasadas podiam modernizar-se e os países fracos podiam fortalecer-se."
(...)
"Contudo, a globalização da economia industrial internacionalizou a modernização. A Coreia do Sul tem pouco a aprender dos Estados Unidos, que importa seus técnicos em computação da Índia e exporta o trabalho feito por eles para o Sri Lanka, enquanto o Brasil produz não só café mas também jatos executivos. Os asiáticos podem acreditar ainda na utilidade de mandar seus filhos para estudar no Ocidente, onde com frequência têm como professores acadêmicos asiáticos emigrados, mas a presença dos ocidentais nos seus países, para não falar do exercício da influência e do poder político local, já não é necessária para a modernização de suas sociedades."
terça-feira, 14 de julho de 2009
UM OLHAR DIFERENTE SOBRE A REALIDADE
POR Bruno Toranzo
Depois de um longo dia de trabalho, durante o retorno para o doce lar, lá está o pessoal da limpeza urbana na rua de casa. Estou certo de que o leitor não encontrará novidade alguma nisso. O fato realmente não tem nada de novo. Mas a maneira de olhar e, acima de tudo, de interagir com essa cena comum do cotidiano foge completamente do convencional.
São quatro ou cinco garis, não me lembro ao certo no momento. Quanto ao modo como estão vestidos, recordo com precisão. Todos estão devidamente uniformizados, trajados com camisa amarela, calça azul e luvas brancas especiais, que brilham no escuro, para proteger as mãos durante o manejo do lixo. O tamanho avantajado dos dedos nas luvas os deixa com uma aparência engraçada.
Os trabalhadores estão de pé na garupa do caminhão. Em letras grandes, legíveis até para os míopes acima do patamar dos oito graus por olho, lê-se “Coleta Seletiva” na lataria, mensagem importante para identificar o veículo. Afinal de contas, não é todo dia que um monstro desses passa em frente a sua casa.
Mesmo com um frio agonizante, além da enorme exigência física do ofício, os garis estão animados. O motorista do caminhão arranca e, de propósito, para caçoar, deixa para trás um dos colegas. Com certeza, deve ser o caçula da turma. Em qualquer profissão, a inexperiência joga contra você em diversos aspectos. Não pude interpretar, com absoluta precisão, a razão da provocação. Mas, a julgar pelas risadas, inclusive da vítima, arrisco o palpite do castigo para o novato.
Tento continuar anônimo. A calçada está escura. Encosto em um canto. Fico escondido atrás de pontudos galhos. Pelo menos, a posição da árvore favorece o anonimato. Eles não podem perceber minha presença. Tal flagrante destruiria a originalidade da cena. Assim como ocorre nas fotografias, o melhor retrato está na naturalidade.
O trabalho pesado dos garis continua. Que fôlego. Os lixeiros correm para todos os lados. Dois deles partem para a esquerda. O restante prefere a direita. No pequeno monte seguinte de lixo, referente ao prédio residencial mais antigo da rua, a pressa em agarrar as sacolas pretas faz com que uma delas se rompa. Posso estar sendo injusto. Talvez essa sacola não tenha sido fechada direito pelo morador. Isso mesmo. Não posso acusar sem provas.
Já se passaram das onze horas da noite. Além da presença desses verdadeiros guerreiros, não há mais ninguém por perto. Vez ou outra, depois da retirada do lixo, algum porteiro demonstra coragem para sair, devidamente agasalhado, com a gola da blusa até o queixo. A baixa temperatura, por volta dos doze graus, sem falar da assustadora sensação térmica, que está, sem dúvida, em um dígito, faz com que os guardiões das residências sejam ágeis. Eles precisam recolher o carrinho do lixo, se não quiserem congelar, com velocidade. O utensílio só terá serventia na próxima visita dos garis.
Não venta. Pelo menos, o vento não contribui com o frio na maldosa atribuição de congelar os ossos dos trabalhadores noturnos. Mesmo assim, o cheiro do chorume ou, em outras palavras, o cecê do lixo, é forte o suficiente para incomodar. O nariz, ao sentir o odor proveniente do sovaco do lixo, reclama. Reclama não, esperneia. Dá para entender por que os especialistas alertam para o perigo do chorume em contato com os lençóis freáticos.
O caminhão já está no finalzinho da rua. Pelo menos por aqui, nesta rua da cidade, o trabalho está feito. Com exceção de alguns cascos de banana, garrafas de vidro quebradas espalhadas pelo asfalto e um ou outro papelão, a coleta foi bem feita. Não sejamos tão exigentes com um trabalho de tamanha dureza.
Aceno para o porteiro do meu prédio. Os portões elétricos são imediatamente abertos. É hora de repousar. Um novo dia aguarda a retirada da Lua para entrar. Aparentemente, não resta nada para observar. O silêncio impera. O dia a dia oferece grandes histórias. Cabe a nós estarmos receptivos para enxergá-las.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
HISTÓRIA
Os produtores de petróleo colocaram o mundo em recessão, o que não evitou grandes avanços tecnológicos, como o aperfeiçoamento dos satélites.
POR Bruno Toranzo
Os anos 70 têm outro grande atrativo do ponto de vista histórico. A economia, incluindo os países ricos e pobres, viveu uma grande crise. Coração do desenvolvimento da época, o petróleo tinha uma importância estratégica ainda maior daquela verificada em nossos dias. Os governos, excessivamente dependentes da commodity, estavam acostumados a pagar pouco mais de dois míseros dólares o barril.
Com uma fonte de energia tão barata, não havia necessidade de gastar milhões de dólares para adaptar o sistema econômico para outra matriz. A poluição naqueles tempos não fazia parte da lista de prioridades dos governantes. O mundo se esquecia até mesmo da finitude do petróleo.
A situação mudou completamente em 1973 quando, pela primeira vez, o chamado “ouro negro” foi utilizado como fator de pressão política. Os países árabes da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), cartel que envolve os principais produtores, resolveram diminuir a produção para responder ao apoio concedido pelos Estados Unidos a Israel durante a guerra do Yom Kipur.
Com menor extração, o preço se elevou nos três anos seguintes. Cada barril deixou de valer alguns trocados para dar um pulo ao patamar dos onze dólares. Em valores atuais, isso significa quarenta dólares.
O resultado foi o aumento generalizado dos preços. A cadeia produtiva de qualquer produto utiliza, em maior ou menor quantidade, a commodity. O transporte, por exemplo, através do encarecimento da gasolina, passou a ser uma grande dor de cabeça para os empresários. Uma elevação brusca e de tamanha intensidade tal como ocorreu prejudica todos os setores da economia. A recessão assolou a qualidade de vida de grande parte dos países do globo.
“O ano de 1977 apresentou múltiplas tendências e, de certa forma, decepcionante na economia mundial. Em fins de 1976, tornou-se claro que a recuperação da recessão do ano anterior estava começando a ceder e que vários países do mundo não-comunista não estavam alcançando o objetivo oficialmente aceito de um crescimento cauteloso, mas firme na produção, combinado com um razoável balanço de pagamentos.”
“A tarefa para 1977, em vista disso, consistiu em planejar uma estratégia econômica mundial que pudesse elevar a vacilante taxa de crescimento e favorecer resultados satisfatórios no balanço de pagamentos. Na prática, não foi possível. O ritmo de crescimento manteve-se lento e caprichoso. Os desequilíbrios externos tornaram-se mais pronunciados, dando origem à instabilidade do mercado cambial, além da intensificação dos critérios protecionistas.”
Ao mesmo tempo, apesar da diminuição dos recursos para investimento em pesquisa, os países continuaram avançando na criação de tecnologia para diminuir as distâncias entre os seres humanos. O processo de globalização se fortaleceu depois da criação da infraestrutura necessária para interligar as pessoas. A comunicação por satélite permitiu que todos acompanhassem um acontecimento em tempo real, independentemente de onde estivessem.
“Um sistema doméstico de comunicação por satélite – que é o maior de todos os sistemas independentes da Companhia Bell – foi lançado durante o ano pela AT&T e pela GTE conjuntamente. É o primeiro capaz de transmitir conversações telefônicas à longa distância aos 48 estados norte-americanos contíguos e também entre o continente e o Havaí. Além disso, sistemas de transmissão por satélite permitiram a recepção de programas de televisão em inúmeras localidades novas.”
quinta-feira, 9 de julho de 2009
HISTÓRIA
Os revolucionários paulistas não derrubaram Vargas, mas pressionaram o governo a elaborar uma constituição para o Brasil.
Inconformados com o golpe de estado que levou Getúlio Vargas ao poder, os paulistas, acostumados com o revezamento da presidência com os mineiros durante o período da República do Café com Leite, resolveram recorrer às armas para derrubar o ditador.
No dia 9 de julho de 1932, São Paulo expulsou o representante estadual nomeado por Vargas e exigiu a saída do gaúcho da presidência, além da elaboração imediata de uma constituição. A maior mobilização popular da história do Brasil deixou muitas vítimas, incluindo os quatro famosos jovens do conhecido movimento MMDC (remete aos nomes de cada um dos estudantes mortos: Martins, Miragaia, Drauzio e Camargo).
Juntando as tropas paulistas e federais, ou seja, ao considerar todos os participantes do conflito, estima-se que 135 mil homens tenham aderido ao embate. Depois de três meses de luta, o saldo de mortos do lado paulista foi de 900 soldados, quase o dobro das perdas da força expedicionária brasileira, cujos membros eram chamados carinhosamente de "pracinhas", durante a Segunda Guerra Mundial.
Apesar de não receber a devida atenção dos livros de história, a Revolução Constitucionalista de 1932 deixou uma importante contribuição para o país. Dois anos mais tarde, sob forte pressão popular, Vargas convocou uma assembleia constituinte.
Como resultado, a constituição possibilitou, entre outros avanços, a criação do salário mínimo e a redução da carga horária de trabalho para oito horas diárias. Ambas as novidades beneficiaram os trabalhadores urbanos. No campo, as condições desumanas de trabalho continuaram.
A exemplo dos anos anteriores, as homenagens serão no Obelisco do Ibirapuera, zona sul da cidade, um dos cartões-postais paulistanos. O evento começa às 9 horas da manhã. Os destaques ficam por conta do desfile militar e da cerimônia de sepultamento dos heróis homenageados.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
HISTÓRIA
O senador José Sarney já se explicava em plenário, enquanto a população chilena vivia a terrível ditadura comandada por Pinochet.
Como combinamos, continuo analisando o poeirento livro que enumera os acontecimentos mais relevantes do ano de 1977.
Começo com o estado dos Sarney, o Maranhão. Foram essas terras que fizeram a fortuna da família. O presidente do Senado, José Sarney, que estava prestes a cair, renúncia impedida pelos interesses eleitorais de Lula para 2010, aparece na tribuna do Senado em uma fotografia da Agência do Jornal do Brasil (veja na publicação abaixo). Adivinha sobre o que argumenta? Acertou quem respondeu crise. Desde os primórdios, o senador, de filiação arenista no passado, tem de explicar sua conduta política. E olha que o Brasil era ainda menos transparente naqueles anos.
“Em outubro, divergência entre o Secretário de Segurança, coronel Carlos Alberto Dualibe, e o governador do Estado (do Maranhão) culminou com exoneração daquele. A decisão relacionou-se com a invasão, por mais de cem homens, da fazenda Maguari, no município de Santa Luzia, de propriedade do senador arenista José Sarney, adversário do governador. Este, pouco antes, ao depor na CPI do sistema fundiário, apontara irregularidades na ocupação da área pela fazenda.”
Ou seja, o senador Sarney, hoje filiado ao PMDB, repleto de representantes investigados pela justiça, já apresentava, de acordo com o ex-governador do Maranhão Nunes Freire, irregularidades quanto à ocupação daquela área. Cabe ressaltar que Sarney tem várias fazendas Maguari em terras maranhenses. Não é exagero afirmar que o ex-presidente manda e desmanda no Maranhão.
Viro algumas folhas e busco a letra C. A página 131 revela os tristes episódios da ditadura chilena, provavelmente a mais sangrenta das Américas. O grande responsável pela desordem foi Augusto José Ramón Pinochet Ugarte, o general Pinochet, que se tornou presidente, depois de um golpe militar, em setembro de 1973. Durante 17 anos, liderou a mais longa ditadura da história do Chile.
“A junta chilena comemorou em setembro de 1977 o seu quarto ano do governo, mantendo pleno controle sobre o país e com poucas perspectivas de qualquer mudança importante num futuro próximo. O estado de sítio continuou em vigor, e o toque de recolher foi mantido. Em março, a junta dissolveu os partidos políticos remanescentes e, em julho, anunciou um plano a longo prazo para o retorno ao poder civil, com o objetivo declarado de preservar os partidos não-marxistas do que o atual governo chileno considera como vícios das velhas facções políticas.”
(...)
“A 8 de setembro, durante as cerimônias da assinatura do tratado sobre o canal do Panamá, o general Pinochet e o presidente Jimmy Carter tiveram um encontro pessoal. Apesar da distensão nas relações oficiais com os EUA, o Chile continuou a ter uma imagem bastante prejudicada no restante do mundo, devido à questão dos direitos humanos.”
(...)
“Prosseguiu a lenta recuperação da economia, atingindo, globalmente, os níveis dos últimos anos da década de 1960. A política econômica ortodoxa do governo reduziu o déficit orçamentário em quase 10% da despesa. A taxa de inflação, ao que se contava, caíra cerca de 60% em 1977, com esperanças de uma redução de 25% em 1978. O PIB deverá crescer de 8% a 9% em 1977.”


