sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

ECONOMIA

Americanos negam ajuda às montadoras
POR Bruno Victor Toranzo

Está no site da Time, influente revista americana. De acordo com a pesquisa realizada com os leitores (veja publicação anterior), a maioria esmagadora defende que o Estado não ajude as montadoras. Os Estados Unidos, para exatos 72% dos seis mil internautas, gastariam dinheiro à toa para tentar salvar empresas condenadas ao fracasso.

O Senado pensa o mesmo. Após aprovação na Câmara dos Representantes, sinônimo do que os brasileiros chamam de Câmara dos Deputados, o pacote de US$ 14 bilhões foi rejeitado pelos senadores. O dinheiro seria destinado à gigante GM (General Motors) e à Chrysler.

A Ford, em situação menos desesperadora, mas também em pânico, pediu uma linha de crédito especial ao governo. Os republicanos defendem que as montadoras criem maneiras próprias para sair da crise. Para eles, socorrê-las abriria o pretexto para outros segmentos exigirem a mesma atenção.

Na pesquisa, um dos poucos estados favoráveis à interferência bilionária, com 62% dos votos, foi Michigan, berço da tradicional indústria automobilística do país. Vale a pena assistir ao documentário “Roger & Eu”, do diretor Michael Moore, para perceber a importância das atividades da General Motors, ainda maior no final dos anos 80, época da gravação do filme, para a economia da cidade de Flint, localizada no estado de Michigan.

Em seu primeiro trabalho, sempre envolventes por sinal, o diretor persegue o ex-presidente da GM Roger Smith, falecido há pouco tempo, em busca de explicações para o fechamento das fábricas na cidade. É de se ressaltar que a economia da região depende, mesmo hoje, dos dólares gerados no processo de fabricação e comercialização de veículos.

A grande preocupação, em relação às montadoras, está na possível perda de milhões de empregos que o colapso de uma delas geraria. Além dos trabalhadores diretos, existem aqueles que dependem, de forma indireta, da saúde das atividades do setor automobilístico. É difícil apontar um número exato ou, pelo menos, perto da exatidão, mas milhões de pessoas seriam prejudicadas. Como no filme de Moore, cidades inteiras organizaram sua economia em função dessas fábricas.

No entanto, diferentemente do setor financeiro, o automobilístico não é vital para a manutenção de fundamentos econômicos saudáveis. Com instituições financeiras cambaleantes, receosas umas com as outras, a concessão de empréstimos tende a estagnar. Sem crédito, não há crescimento. Sem crédito, não há liquidez. Por essas razões, a preocupação das autoridades monetárias, principalmente naquele momento de quebradeira geral dos bancos, esteve relacionada ao saneamento do sistema. E não mediu esforços para isso: trilhões de dólares foram investidos na economia.

Se alguma das montadoras (GM, Ford ou Chrysler) recorrer ao capítulo 11 da Lei de Falências, as temidas conseqüências viriam em uma tacada só. Tal cenário seria avassalador para as pretensões do próximo presidente dos Estados Unidos. O tão popular Barack Obama, ovacionado até mesmo fora das fronteiras americanas, assumiria o cargo, no dia 20 de janeiro, em condições econômicas ainda mais adversas. Se não conseguir atenuar os efeitos com rapidez, tamanha popularidade pode se perder no espaço.

Razão pela qual Obama e os democratas querem, de qualquer jeito, a aprovação de um plano de resgate. A decadente (quem diria?) indústria dos automóveis americana não encontra solução a não ser acompanhar o acirrado jogo político e torcer por dias melhores.

ECONOMIA

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FONTE
: Time.

SARCASMO DA SEXTA

FONTE: Time.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

PARA REFLETIR

O despertar para um novo mundo
POR Bruno Victor Toranzo

Nunca havia vivido uma crise econômica de grande magnitude. Não é daquelas experiências que você aguarda ansiosamente para acontecer. Ninguém quer perder o emprego e ver sua renda sumir. O medo de perder a própria fonte de ganho envolve todas as classes sociais.

Quando a recessão chega ou os indícios apontam para sua chegada, as pessoas imediatamente pensam em 1929. Naquele ano e nos posteriores, o mundo, principalmente os americanos, viveu um pesadelo. Alguns dos importantes investidores optaram pela morte. Era melhor o suicídio a ver o valor dos ativos virar pó.

Vivemos, a exemplo do final da década de 20 e dos anos 30, um período repleto de incertezas. O vermelho se tornou a cor predominante dos índices econômicos. Os especialistas não conseguem projetar nem mesmo o dia de amanhã. Menos ainda o ano que marcará o final da crise. Claro que o estrago de hoje é muito menor, distante dos nefastos efeitos da Grande Depressão.

No entanto, aqueles anos de prosperidade, comuns para a nova geração, chegaram ao fim. A calmaria beneficiou os países pobres, agora chamados carinhosamente de emergentes, levando os indianos, os chineses e os brasileiros a ocupar relevância inédita. Com um mercado consumidor numeroso, essas três nações passaram a ser consultadas pelo seleto grupo dos países desenvolvidos. Dessa vez, a solução para a crise passa pela conversa com o restante. Há um início de preocupação para envolver o maior número de participantes em decisões importantes.

Nas décadas de 80 e 90, coisa de poucos anos atrás, o repressor FMI (Fundo Monetário Internacional) inundava de dinheiro as desesperadas nações emergentes. Para conseguir os empréstimos, os países seguiam uma série de regulações financeiras. O Brasil cumpriu as determinações à risca, o que gerou críticas de uma esquerda radical, representada pelo presidente Lula (na versão 89), sedenta pelo calote de qualquer dívida com organismos internacionais.

Hoje, em meio às discussões de falta regulatória no coração do capitalismo, os brasileiros podem se orgulhar da saúde de seu sistema financeiro. Os bancos, por exemplo, estão longe da alavancagem verificada em outros países. Já o sistema de depósito compulsório permite ao Banco Central controlar, de forma indireta, a capacidade do mercado de ofertar crédito.

Transformações ocorrem, é verdade. Mas o novo cenário que se apresenta causa enorme surpresa. A hegemonia dos grandes diminuiu e continuará em queda. Não há mais espaço para o controle de algumas poucas nações em detrimento do prejuízo de outras tantas. O unilateralismo americano foi definitivamente enterrado no final do ano passado. O problema das hipotecas, toda aquela história do crédito podre, enfraqueceu de vez seu poder controlador.

Os Estados Unidos serão obrigados a se adequar à nova mentalidade. A eleição de um presidente negro mostra, não somente o repúdio dos americanos à administração Bush, como a vontade de um representante universal. Ou seja, um presidente que recupere a imagem positiva americana do passado, quando os outros povos simpatizavam com a cultura do país (o famoso “american way of life”). Para isso, ajudará e muito o ingresso em acordos internacionais de respeito ao meio ambiente. Bem diferente da postura republicana adotada em relação ao Protocolo de Kyoto.

O pensamento da hora prega a união. Os países em desenvolvimento, salvo exceções de rivalidades históricas entre povos, não enfrentam grandes dificuldades de atuar em conjunto. Mesmo os governantes considerados populistas e autoritários, como o venezuelano Hugo Chávez, o boliviano Evo Morales e até mesmo o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, podem ser convencidos a colaborar depois de uma boa conversa, a velha e importante diplomacia, que andava ausente das mesas de negociação desde o fim da Guerra Fria.

Somente com essa mesma unidade, a crise econômica será vencida. Posteriormente, será imprescindível organizar uma nova maneira de produção, com respeito ao meio ambiente e às características individuais de cada povo. A exemplo do que está ocorrendo, com a aplicação de trilhões no mercado, o governo deve continuar participando ativamente do sistema. Dessa vez, ao invés de colocar recursos, o Estado terá a missão de corrigir os inúmeros erros e contradições gerados pela atividade financeira.

SARCASMO DA QUINTA

FONTE: The Economist.