terça-feira, 26 de maio de 2009

REPORTAGEM

Valorização do real indica volta do capital externo
A inversão do câmbio, com a valorização do real frente ao dólar superior aos 13% no ano, mostra que os investidores estrangeiros estão novamente de olho no Brasil.

BRUNO TORANZO

Desde o primeiro dia do ano, a valorização do real frente ao dólar é de 13,26%. A cotação já se aproxima dos dois reais para cada dólar. Como efeito de comparação, no dia 4 de dezembro do ano passado, período do auge da crise econômica, a moeda americana atingiu um patamar que há muito não se via: US$ 1 chegou a valer R$ 2,51.

Na época, as empresas foram pegas de surpresa com tamanha desvalorização. Muitas delas, com grande volume de exportação, apostaram em dólar baixo nos contratos arriscados de derivativos. Em outubro, por exemplo, a Sadia revelou ter perdido R$ 2,6 bilhões nessas operações. Os grandes executivos não esperavam que o impacto da crise econômica se mostrasse tão devastador.

O comportamento do mercado se inverteu em 2009. Em vez do registro da saída de dólares, por meio do abandono dos investimentos em terras brasileiras, está ocorrendo a volta do dinheiro que havia deixado o país. “A valorização do real vai continuar. O crescente aumento do déficit fiscal dos Estados Unidos, através dos estímulos bilionários oferecidos ao sistema financeiro, coloca sua moeda em baixa”, opinou Ricardo Della Santina Torres, professor de finanças internacionais da Brazilian Business School.

O retorno do capital internacional pode ser visto como uma indicação de que os investidores confiam na economia brasileira. Além da condução estritamente profissional da economia pelo Banco Central, as características do país são capazes de chamar a atenção estrangeira. “A chave para o sucesso está no mercado doméstico. Não dependemos em excesso, como ocorre em outros países, do volume de exportações”, disse Torres.

As reservas externas do Brasil, avaliadas em US$ 200 bilhões, foram importantes para proteger o país em meio ao cenário de turbulência. “As reservas americanas são menores que as brasileiras. Eles são obrigados a emitir títulos da dívida pública para cobrir o rombo dos recentes investimentos de emergência”, finalizou o professor.

Para Mohamed Mourabet, consultor e sócio-diretor da Victoire Brasil Investimentos, o mundo passa por uma fase de diferenciação entre os países. “A divisão internacional não só ocorre entre os ricos e pobres, mas entre as próprias economias emergentes. Os fundamentos econômicos estão sendo seriamente testados”, analisou.

Ao considerar os países que formam o grupo do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), economias consideradas prósperas para chegar ao grau de desenvolvimento nos próximos anos, Mourabet aponta algumas vantagens que colocam os brasileiros em destaque. “Os investidores sabem que as instituições brasileiras são muito mais maduras. Para quem investe, é importante que as regras estejam consolidadas, além da manutenção de um transparente processo eleitoral”, disse.

Com o paulatino crescimento da economia, os brasileiros presenciarão outros processos de fusão nos moldes da Sadia e Perdigão. A junção das duas empresas gigantes do setor alimentício criou a Brasil Foods, cuja pretensão é controlar mercados em todos os continentes. “Essas megaoperações fortalecem os setores econômicos. A intenção dos executivos é aproveitar as vantagens competitivas que o ambiente de negócios brasileiro oferece para expandir o poder de barganha da marca”, concluiu Mourabet.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

terça-feira, 19 de maio de 2009

REPORTAGEM

Melhora da bolsa não é sinal de recuperação econômica
Apesar da valorização do Ibovespa acima dos 37% no ano, especialistas dizem que a retomada da economia ainda depende de uma conjunção de fatores.

BRUNO TORANZO

Os economistas consideram a bolsa de valores o termômetro da economia. Quando a cor predominante dos índices é o vermelho, esteja certo de que a economia real, formada pela produção das empresas e pelo consumo das pessoas, passa por um momento preocupante.

Em tempos de turbulência, agravada após a quebra do banco americano Lehman Brothers em setembro do ano passado, as ações atingiram níveis assustadoramente baixos, muitos deles nunca antes visto. O Ibovespa, índice mais importante da bolsa brasileira, chegou a ficar, logo após a falência do Lehman, abaixo dos 30 mil pontos, resultado que não acontecia desde outubro de 2005.

A virada ocorre quando o ambiente de desvalorização consecutiva deixa a cena. Este ano presencia, pelo menos por enquanto, o possível início de uma retomada econômica. Os investidores comemoram, desde o primeiro dia de janeiro, uma valorização do Ibovespa acima dos 37%, de volta ao patamar dos 50 mil pontos.

“Estamos passando pelo final do ápice da crise. Por essa razão, vamos presenciar sequências intercaladas de ganhos e perdas no mercado acionário”, explicou Jason Vieira, economista-chefe da UpTrend Consultoria. Na semana passada, a vez foi das perdas. A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) atuou em baixa na maior parte dos dias para registrar queda de 4,65%.

Em contrapartida, o resultado positivo levou vantagem na última segunda-feira (18). A valorização chegou aos 5% em apenas um pregão. “A economia passa por um momento de correção. Essa instabilidade é gerada pelo movimento de incerteza dos investidores. Eles passam a comprar e vender ações no mesmo dia”, concluiu Vieira.

Os três nobéis, que estiveram no Brasil na última segunda-feira (11), estão pessimistas quanto ao final da crise. Para Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel em 2001, os Estados Unidos viverão uma década perdida, com crescimento baixo ao longo dos anos. Stiglitz defende mudanças institucionais no funcionamento da economia, a exemplo do fim do dólar como moeda internacional.

“A solução definitiva desta crise passa pela recuperação do crédito”, garantiu Cristiano Souza, economista do Grupo Santander. Tal processo só vai ocorrer quando os ativos tóxicos, assim chamados por representarem papéis cujo valor praticamente zerou, ligados em sua maioria ao setor de hipotecas, forem resolvidos. “Sem a confiança para emprestar, a economia continuará sem sair do lugar”, destacou.

Como forma de verificar a situação financeira dos bancos nos Estados Unidos, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, ao lado de sua equipe econômica, lançou o plano de estresse. Por meio dos instrumentos monetários voltados para testar a capacidade de reação dos bancos em uma hipotética piora da situação, os especialistas descobriram que a constante injeção de recursos bilionários estatais, apesar dos protestos dos contribuintes, surtiu efeito.

“O teste de estresse mostrou que os bancos estão capitalizados, ou seja, contam com dinheiro em caixa. A exceção ficou com o Bank of America”, disse Souza. Mesmo com a boa notícia, o economista chama a atenção para a continuação da piora do mercado de hipotecas e a alta taxa de inadimplência dos americanos em suas obrigações de cartão de crédito.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

terça-feira, 12 de maio de 2009

REPORTAGEM

Cadastro Positivo vai alterar condições de empréstimo
Se for aprovado pelos congressistas, o banco de dados, com o histórico de pagamentos de cada cliente, reduziria os juros cobrados dos bons pagadores.

BRUNO TORANZO

O Cadastro Positivo, um banco de dados que separa os bons dos maus pagadores, está prestes a ser votado pela Câmara dos Deputados. Segundo o presidente da Casa, o deputado Michel Temer (PMDB-SP), a decisão deve sair nesta terça-feira (12).

Apesar do excesso de medidas provisórias que trancam a pauta do Congresso, Temer adotou uma nova estratégia, através da convocação de sessões extraordinárias, para votar os projetos de leis guardados há muito tempo na gaveta. As discussões em torno do cadastro começaram em agosto de 2005. Em tempos de crise financeira, o assunto voltou à tona, esperando a tão aguardada votação.

“A aprovação do Cadastro Positivo traz, para os bancos, um poderoso instrumento de diferenciação dos clientes”, ressaltou Alexandre Bassoli, ex-economista-chefe do banco HSBC no Brasil. Com informações a respeito de cada cliente, o banco teria condições de diminuir a taxa de juros aplicada nos empréstimos. “Essa mudança institucional permite maior eficiência do sistema financeiro”, garantiu.

As recentes reduções consecutivas da Selic permitiram que o Brasil deixasse o posto de maior juro real, descontando a inflação prevista para os próximos doze meses, do planeta. O Copom (Comitê de Política Monetária), ligado ao Banco Central, estabeleceu os juros reais em 5,8% ao ano. De acordo com o relatório Focus, divulgado pelo BC, a expectativa do mercado é de que, até o fim do ano, a taxa básica fique ainda menor.

A nova situação permite a queda do spread bancário, a diferença entre aquilo que o banco gasta para captar recursos e os juros cobrados para emprestar aos seus clientes. No entanto, os bancos alegam que precisam se resguardar da taxa de inadimplência trazida pelos maus pagadores. Sem informações suficientes para separar o joio do trigo, os juros são mantidos em patamares elevados.

“Caso os congressistas aprovem, os bancos terão a chance de classificar como risco baixo empréstimos para clientes confiáveis”, disse William Eid Jr., coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). O maior benefício está na possibilidade de acessar os financiamentos anteriores de cada cliente. “O caráter do sujeito pode ser perfeitamente medido pelo histórico de pagamentos”, finalizou.

As instituições bancárias possuem um banco de dados de seus clientes. Através dele, elas percebem quais as características financeiras de cada um. “A relação de longo prazo com um banco permite que a instituição tenha acesso às condições de crédito do cliente”, disse Bassoli. As informações são sigilosas e não são compartilhadas pelos bancos. “A chegada do cadastro quebrará o monopólio das instituições sobre os dados dos clientes. O mercado inteiro terá acesso a esse conhecimento”, concluiu.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

quarta-feira, 6 de maio de 2009

REPORTAGEM

Juros mais baixos da história beneficiam consumidor
Por outro lado, a queda dos juros traz problemas para o governo. A poupança passa a concorrer em pé de igualdade com os títulos públicos.

BRUNO TORANZO

O Copom (Comitê de Política Monetária), ligado ao Banco Central, reduziu os juros básicos da economia em um ponto percentual na última quarta-feira (29). A decisão, ainda motivada pelos efeitos negativos da crise sobre a produção e o consumo, derrubou os juros para 10,25% ao ano, a menor taxa da história. Com juros menores, o consumidor tem acesso ao crédito facilitado, através de financiamentos mais baratos e maior tempo para honrar as prestações.

De acordo com ranking elaborado pela consultoria UpTrend, o Brasil deixou de ser o país com maior juro real do planeta, quando a inflação é descontada. Agora, os brasileiros estão na terceira posição, atrás dos vice-líderes húngaros e dos líderes chineses.

Para Marcos Crivelaro, consultor em finanças e professor da FIAP (Faculdade de Informática e Administração Paulista), a diminuição, desde que os juros sejam mantidos como estão pelos próximos meses, cria uma nova mentalidade nos consumidores. “O financiamento a longo prazo, com muitos meses para pagar, é melhor incorporado ao apertado orçamento das famílias. Essas condições convocam as classes baixas ao consumo”, concluiu.

Apesar dos bons ventos trazidos pela mudança dos rumos da política monetária, o governo está preocupado. Em meio ao cenário de queda, os investimentos nos títulos públicos, que financiam a dívida brasileira, saem prejudicados. Os próprios investidores passam a demonstrar interesse pela poupança. “O governo vai ser obrigado a mexer na rentabilidade da poupança. Esse investimento tem de se adequar à nova situação econômica”, analisou Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios.

Por ser uma medida impopular, já que a maior parte dos brasileiros deixa o dinheiro na poupança, o presidente Lula está adiando qualquer resolução. Os reflexos da crise econômica na contração dos empregos e na queda da renda média do cidadão afetaram a outrora imbatível popularidade. “A oposição já está com o discurso preparado para acusar o governo de prejudicar a poupança”, disse Leite.

A caderneta de poupança tem uma rentabilidade fixa de 6% mais a taxa referencial, que varia entre os bancos, por ano, além de não receber nenhuma incidência de impostos. Já o retorno dos títulos públicos segue o desempenho da taxa básica de juros, só que existe cobrança do imposto de renda. Quanto maior esses juros que incidem sobre a dívida pública do governo, melhor para aqueles que apostaram nos títulos.

Se a Selic continuar em descendente até atingir o patamar dos 8%, a conservadora poupança se tornaria, em todas as situações, mais rentável que os títulos públicos. Uma das soluções em discussão para não prejudicar as contas do governo é estabelecer um limite de investimento para a poupança. “O valor máximo dos depósitos não deveria ultrapassar os R$ 100 mil, valor equivalente à renda do pequeno investidor”, sugeriu Crivelaro.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).