quinta-feira, 23 de julho de 2009

UM OLHAR DIFERENTE SOBRE A REALIDADE

A senhora religiosa cometeu um enorme engano
POR Bruno Toranzo

Enchi o copo. Deixei ao lado a garrafa de cerveja. Sentado no banquinho do balcão da padaria, encostei o queixo na palma da mão para observar as pessoas com mais cuidado. Procurei em volta um personagem curioso ou uma situação bizarra.

Dei de cara, logo em frente, com um senhor gordinho. Ele se deliciava com sua mussarela. Optou pelo sabor clássico. Boa pedida. Ao meu lado, uma família completa, com homem e mulher ainda casados, algo raro nos dias que se passam, pedia um pedaço atrás do outro. Com tantos filhos, três ao todo, duas garotas, que comiam feito garotos, e um moleque, que comia feito orangotango, o garçom comemorava, através de um largo sorriso, cada vez que retirava a caneta de cima da orelha para anotar outro pedaço na comanda.

De repente, uma surpresa. Gosto de surpresas. Elas quebram a mesmice. Só não esperava que estivesse no meio. Uma senhora, do outro lado do balcão, na região próxima às mesas, lança um olhar fixo em minha direção. Seus olhos negros procuram os meus verdes. Retribuo. Encaro aquela mulher, dos seus sessenta e muitos, para tentar decifrar o que está pensando.

Aposto que seu nome é Fátima. Desde os tempos de pirralho, teimo que velhas se chamam Fátima ou Aparecida, e velhos se chamam Osvaldo ou José. Quando era pequeno, não conseguia entender o porquê de algum senhor ter como nome Caio, Horácio ou, até mesmo, Ricardo, vocativos que levam a jovialidade na sua essência. Na verdade, ainda hoje não compreendo.

Seja lá como for, a tal Fátima, ao mesmo tempo em que olhava, começou a soltar algumas palavras. Percebi que seus lábios se mexiam. Uma expressão de pena se formou no rosto. Era difícil entender o que dizia. Aos poucos, as frases ficaram claras. A velhinha interpretou a situação de forma errada. Ela pensou que fosse um jovem no "mau caminho". Por eu ter escolhido a cerveja como única companheira naquela noite, a coitada dizia palavras religiosas, uma espécie de oração para dar um jeito na minha alma.

Depois de alguns minutos, a Dona Fátima sossegou. Voltou para sua mesa com dois pedaços de pizza. Curioso para ter outras informações sobre a senhora, virei o pescoço bruscamente. A senhora se juntou à outra para saborear a especialidade da padaria.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

LITERATURA

A maneira Hobsbawm de compreender o mundo
POR Bruno Toranzo

Com uma capacidade de encontrar respostas no passado para os desafios do presente, o historiador Eric Hobsbawm possui uma habilidade de análise das relações entre os países, sejam elas políticas, econômicas ou culturais, somente vista nos escritores considerados fora de série.

Em “Globalização, Democracia e Terrorismo”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, o autor egípcio mostra ao leitor as características dos novos tempos trazidos pelo fenômeno da globalização. De maneira prática, privilegiando a objetividade, Hobsbawm deixa de lado os detalhes históricos para mergulhar no tortuoso contexto em que estamos inseridos.

Leia alguns trechos do livro a seguir:

"Deixando de lado a Espanha do século XVI e talvez a Holanda do século XVII, a Grã-Bretanha, de meados do século XVIII a meados do século XX, e os Estados Unidos, a partir de então, são os únicos exemplos de impérios genuinamente globais com horizontes políticos globais, e não meramente regionais, o mesmo valendo para seus recursos de poder – a supremacia naval para a Grã-Bretanha do século XIX e a supremacia aérea para os Estados Unidos do século XXI –, ambos apoiados por uma forte rede mundial de bases operacionais."

(...)

"Também ambos dominaram como modelos econômicos, como pioneiros técnicos e organizacionais, como indicadores de tendências e ainda como os centros do sistema mundial de fluxos financeiros e de produtos comerciais e como os países cujas políticas financeiras e comerciais determinavam em grande medida as características desses fluxos."

(...)

"Um dos maiores trunfos do imperialismo ocidental, formal ou informal, era o de que, na sua primeira acepção, a ‘ocidentalização’ era a única forma pela qual as economias atrasadas podiam modernizar-se e os países fracos podiam fortalecer-se."

(...)

"Contudo, a globalização da economia industrial internacionalizou a modernização. A Coreia do Sul tem pouco a aprender dos Estados Unidos, que importa seus técnicos em computação da Índia e exporta o trabalho feito por eles para o Sri Lanka, enquanto o Brasil produz não só café mas também jatos executivos. Os asiáticos podem acreditar ainda na utilidade de mandar seus filhos para estudar no Ocidente, onde com frequência têm como professores acadêmicos asiáticos emigrados, mas a presença dos ocidentais nos seus países, para não falar do exercício da influência e do poder político local, já não é necessária para a modernização de suas sociedades."

SARCASMO DA QUARTA

FONTE: Time.

terça-feira, 14 de julho de 2009

UM OLHAR DIFERENTE SOBRE A REALIDADE

É dia dos garis recolherem o lixo
POR Bruno Toranzo

Depois de um longo dia de trabalho, durante o retorno para o doce lar, lá está o pessoal da limpeza urbana na rua de casa. Estou certo de que o leitor não encontrará novidade alguma nisso. O fato realmente não tem nada de novo. Mas a maneira de olhar e, acima de tudo, de interagir com essa cena comum do cotidiano foge completamente do convencional.

São quatro ou cinco garis, não me lembro ao certo no momento. Quanto ao modo como estão vestidos, recordo com precisão. Todos estão devidamente uniformizados, trajados com camisa amarela, calça azul e luvas brancas especiais, que brilham no escuro, para proteger as mãos durante o manejo do lixo. O tamanho avantajado dos dedos nas luvas os deixa com uma aparência engraçada.

Os trabalhadores estão de pé na garupa do caminhão. Em letras grandes, legíveis até para os míopes acima do patamar dos oito graus por olho, lê-se “Coleta Seletiva” na lataria, mensagem importante para identificar o veículo. Afinal de contas, não é todo dia que um monstro desses passa em frente a sua casa.

Mesmo com um frio agonizante, além da enorme exigência física do ofício, os garis estão animados. O motorista do caminhão arranca e, de propósito, para caçoar, deixa para trás um dos colegas. Com certeza, deve ser o caçula da turma. Em qualquer profissão, a inexperiência joga contra você em diversos aspectos. Não pude interpretar, com absoluta precisão, a razão da provocação. Mas, a julgar pelas risadas, inclusive da vítima, arrisco o palpite do castigo para o novato.

Tento continuar anônimo. A calçada está escura. Encosto em um canto. Fico escondido atrás de pontudos galhos. Pelo menos, a posição da árvore favorece o anonimato. Eles não podem perceber minha presença. Tal flagrante destruiria a originalidade da cena. Assim como ocorre nas fotografias, o melhor retrato está na naturalidade.

O trabalho pesado dos garis continua. Que fôlego. Os lixeiros correm para todos os lados. Dois deles partem para a esquerda. O restante prefere a direita. No pequeno monte seguinte de lixo, referente ao prédio residencial mais antigo da rua, a pressa em agarrar as sacolas pretas faz com que uma delas se rompa. Posso estar sendo injusto. Talvez essa sacola não tenha sido fechada direito pelo morador. Isso mesmo. Não posso acusar sem provas.

Já se passaram das onze horas da noite. Além da presença desses verdadeiros guerreiros, não há mais ninguém por perto. Vez ou outra, depois da retirada do lixo, algum porteiro demonstra coragem para sair, devidamente agasalhado, com a gola da blusa até o queixo. A baixa temperatura, por volta dos doze graus, sem falar da assustadora sensação térmica, que está, sem dúvida, em um dígito, faz com que os guardiões das residências sejam ágeis. Eles precisam recolher o carrinho do lixo, se não quiserem congelar, com velocidade. O utensílio só terá serventia na próxima visita dos garis.

Não venta. Pelo menos, o vento não contribui com o frio na maldosa atribuição de congelar os ossos dos trabalhadores noturnos. Mesmo assim, o cheiro do chorume ou, em outras palavras, o cecê do lixo, é forte o suficiente para incomodar. O nariz, ao sentir o odor proveniente do sovaco do lixo, reclama. Reclama não, esperneia. Dá para entender por que os especialistas alertam para o perigo do chorume em contato com os lençóis freáticos.

O caminhão já está no finalzinho da rua. Pelo menos por aqui, nesta rua da cidade, o trabalho está feito. Com exceção de alguns cascos de banana, garrafas de vidro quebradas espalhadas pelo asfalto e um ou outro papelão, a coleta foi bem feita. Não sejamos tão exigentes com um trabalho de tamanha dureza.

Aceno para o porteiro do meu prédio. Os portões elétricos são imediatamente abertos. É hora de repousar. Um novo dia aguarda a retirada da Lua para entrar. Aparentemente, não resta nada para observar. O silêncio impera. O dia a dia oferece grandes histórias. Cabe a nós estarmos receptivos para enxergá-las.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

HISTÓRIA

As histórias são do ano de 1977
Os produtores de petróleo colocaram o mundo em recessão, o que não evitou grandes avanços tecnológicos, como o aperfeiçoamento dos satélites.

POR Bruno Toranzo

Os anos 70 têm outro grande atrativo do ponto de vista histórico. A economia, incluindo os países ricos e pobres, viveu uma grande crise. Coração do desenvolvimento da época, o petróleo tinha uma importância estratégica ainda maior daquela verificada em nossos dias. Os governos, excessivamente dependentes da commodity, estavam acostumados a pagar pouco mais de dois míseros dólares o barril.

Com uma fonte de energia tão barata, não havia necessidade de gastar milhões de dólares para adaptar o sistema econômico para outra matriz. A poluição naqueles tempos não fazia parte da lista de prioridades dos governantes. O mundo se esquecia até mesmo da finitude do petróleo.

A situação mudou completamente em 1973 quando, pela primeira vez, o chamado “ouro negro” foi utilizado como fator de pressão política. Os países árabes da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), cartel que envolve os principais produtores, resolveram diminuir a produção para responder ao apoio concedido pelos Estados Unidos a Israel durante a guerra do Yom Kipur.

Com menor extração, o preço se elevou nos três anos seguintes. Cada barril deixou de valer alguns trocados para dar um pulo ao patamar dos onze dólares. Em valores atuais, isso significa quarenta dólares.

O resultado foi o aumento generalizado dos preços. A cadeia produtiva de qualquer produto utiliza, em maior ou menor quantidade, a commodity. O transporte, por exemplo, através do encarecimento da gasolina, passou a ser uma grande dor de cabeça para os empresários. Uma elevação brusca e de tamanha intensidade tal como ocorreu prejudica todos os setores da economia. A recessão assolou a qualidade de vida de grande parte dos países do globo.

“O ano de 1977 apresentou múltiplas tendências e, de certa forma, decepcionante na economia mundial. Em fins de 1976, tornou-se claro que a recuperação da recessão do ano anterior estava começando a ceder e que vários países do mundo não-comunista não estavam alcançando o objetivo oficialmente aceito de um crescimento cauteloso, mas firme na produção, combinado com um razoável balanço de pagamentos.”

“A tarefa para 1977, em vista disso, consistiu em planejar uma estratégia econômica mundial que pudesse elevar a vacilante taxa de crescimento e favorecer resultados satisfatórios no balanço de pagamentos. Na prática, não foi possível. O ritmo de crescimento manteve-se lento e caprichoso. Os desequilíbrios externos tornaram-se mais pronunciados, dando origem à instabilidade do mercado cambial, além da intensificação dos critérios protecionistas.”

Ao mesmo tempo, apesar da diminuição dos recursos para investimento em pesquisa, os países continuaram avançando na criação de tecnologia para diminuir as distâncias entre os seres humanos. O processo de globalização se fortaleceu depois da criação da infraestrutura necessária para interligar as pessoas. A comunicação por satélite permitiu que todos acompanhassem um acontecimento em tempo real, independentemente de onde estivessem.

“Um sistema doméstico de comunicação por satélite – que é o maior de todos os sistemas independentes da Companhia Bell – foi lançado durante o ano pela AT&T e pela GTE conjuntamente. É o primeiro capaz de transmitir conversações telefônicas à longa distância aos 48 estados norte-americanos contíguos e também entre o continente e o Havaí. Além disso, sistemas de transmissão por satélite permitiram a recepção de programas de televisão em inúmeras localidades novas.”

SARCASMO DA SEXTA

FONTE: Time.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

HISTÓRIA

Hoje é dia da Revolução Constitucionalista
Os revolucionários paulistas não derrubaram Vargas, mas pressionaram o governo a elaborar uma constituição para o Brasil.

POR Bruno Toranzo

Inconformados com o golpe de estado que levou Getúlio Vargas ao poder, os paulistas, acostumados com o revezamento da presidência com os mineiros durante o período da República do Café com Leite, resolveram recorrer às armas para derrubar o ditador.

No dia 9 de julho de 1932, São Paulo expulsou o representante estadual nomeado por Vargas e exigiu a saída do gaúcho da presidência, além da elaboração imediata de uma constituição. A maior mobilização popular da história do Brasil deixou muitas vítimas, incluindo os quatro famosos jovens do conhecido movimento MMDC (remete aos nomes de cada um dos estudantes mortos: Martins, Miragaia, Drauzio e Camargo).

Juntando as tropas paulistas e federais, ou seja, ao considerar todos os participantes do conflito, estima-se que 135 mil homens tenham aderido ao embate. Depois de três meses de luta, o saldo de mortos do lado paulista foi de 900 soldados, quase o dobro das perdas da força expedicionária brasileira, cujos membros eram chamados carinhosamente de "pracinhas", durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar de não receber a devida atenção dos livros de história, a Revolução Constitucionalista de 1932 deixou uma importante contribuição para o país. Dois anos mais tarde, sob forte pressão popular, Vargas convocou uma assembleia constituinte.

Como resultado, a constituição possibilitou, entre outros avanços, a criação do salário mínimo e a redução da carga horária de trabalho para oito horas diárias. Ambas as novidades beneficiaram os trabalhadores urbanos. No campo, as condições desumanas de trabalho continuaram.

A exemplo dos anos anteriores, as homenagens serão no Obelisco do Ibirapuera, zona sul da cidade, um dos cartões-postais paulistanos. O evento começa às 9 horas da manhã. Os destaques ficam por conta do desfile militar e da cerimônia de sepultamento dos heróis homenageados.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

HISTÓRIA

As histórias são do ano de 1977
O senador José Sarney já se explicava em plenário, enquanto a população chilena vivia a terrível ditadura comandada por Pinochet.

POR Bruno Toranzo

Como combinamos, continuo analisando o poeirento livro que enumera os acontecimentos mais relevantes do ano de 1977.

Começo com o estado dos Sarney, o Maranhão. Foram essas terras que fizeram a fortuna da família. O presidente do Senado, José Sarney, que estava prestes a cair, renúncia impedida pelos interesses eleitorais de Lula para 2010, aparece na tribuna do Senado em uma fotografia da Agência do Jornal do Brasil (veja na publicação abaixo). Adivinha sobre o que argumenta? Acertou quem respondeu crise. Desde os primórdios, o senador, de filiação arenista no passado, tem de explicar sua conduta política. E olha que o Brasil era ainda menos transparente naqueles anos.

“Em outubro, divergência entre o Secretário de Segurança, coronel Carlos Alberto Dualibe, e o governador do Estado (do Maranhão) culminou com exoneração daquele. A decisão relacionou-se com a invasão, por mais de cem homens, da fazenda Maguari, no município de Santa Luzia, de propriedade do senador arenista José Sarney, adversário do governador. Este, pouco antes, ao depor na CPI do sistema fundiário, apontara irregularidades na ocupação da área pela fazenda.”

Ou seja, o senador Sarney, hoje filiado ao PMDB, repleto de representantes investigados pela justiça, já apresentava, de acordo com o ex-governador do Maranhão Nunes Freire, irregularidades quanto à ocupação daquela área. Cabe ressaltar que Sarney tem várias fazendas Maguari em terras maranhenses. Não é exagero afirmar que o ex-presidente manda e desmanda no Maranhão.

Viro algumas folhas e busco a letra C. A página 131 revela os tristes episódios da ditadura chilena, provavelmente a mais sangrenta das Américas. O grande responsável pela desordem foi Augusto José Ramón Pinochet Ugarte, o general Pinochet, que se tornou presidente, depois de um golpe militar, em setembro de 1973. Durante 17 anos, liderou a mais longa ditadura da história do Chile.

“A junta chilena comemorou em setembro de 1977 o seu quarto ano do governo, mantendo pleno controle sobre o país e com poucas perspectivas de qualquer mudança importante num futuro próximo. O estado de sítio continuou em vigor, e o toque de recolher foi mantido. Em março, a junta dissolveu os partidos políticos remanescentes e, em julho, anunciou um plano a longo prazo para o retorno ao poder civil, com o objetivo declarado de preservar os partidos não-marxistas do que o atual governo chileno considera como vícios das velhas facções políticas.”

(...)

“A 8 de setembro, durante as cerimônias da assinatura do tratado sobre o canal do Panamá, o general Pinochet e o presidente Jimmy Carter tiveram um encontro pessoal. Apesar da distensão nas relações oficiais com os EUA, o Chile continuou a ter uma imagem bastante prejudicada no restante do mundo, devido à questão dos direitos humanos.”

(...)

“Prosseguiu a lenta recuperação da economia, atingindo, globalmente, os níveis dos últimos anos da década de 1960. A política econômica ortodoxa do governo reduziu o déficit orçamentário em quase 10% da despesa. A taxa de inflação, ao que se contava, caíra cerca de 60% em 1977, com esperanças de uma redução de 25% em 1978. O PIB deverá crescer de 8% a 9% em 1977.”

HISTÓRIA


FONTE: Fotografia retirada do “Livro do Ano de 1978”, de autoria da Agência do Jornal do Brasil.

terça-feira, 7 de julho de 2009

POLÍTICA

Os britânicos estão “de saco cheio” dos seus políticos
A população brasileira não está sozinha no sentimento de aversão aos homens públicos.

POR Bruno Toranzo

Com escândalos consecutivos, crises políticas intermináveis, o Congresso está em baixa com os brasileiros. A estrutura antiquada, que favorece a corrupção, é responsável pelo descrédito da população. Não adianta, apesar de ser necessário para servir de exemplo, trocar uma peça pela outra. O problema está na maneira de pensar e agir da classe política.

Os britânicos sentem o mesmo carinho pelos seus representantes. Sob outro regime político, o parlamentarismo, o pessoal do Reino Unido precisa se contentar com os candidatos de apenas dois partidos. De um lado, estão os conservadores, contrários à presença de estrangeiros em suas terras. De outro, ficam os trabalhistas, partido do antigo e conhecido primeiro-ministro Tony Blair, ferrenho defensor da política do indigesto George W. Bush.

As recentes reportagens do jornal “The Daily Telegraph” destruíram a boa reputação que o partido dos trabalhadores gozava. Os repórteres destacaram diversos casos de corrupção de ambas as siglas, todas giram em torno do uso ilegal de verbas do parlamento. A exemplo do Brasil, os congressistas possuem uma série de vantagens, como verba de gabinete e direito à moradia, todas bancadas, é claro, pelos constituintes.

A consequência direta da corrupção foi a renúncia do presidente da Câmara dos Comuns, o mesmo que Câmara dos Deputados para nós, o excelentíssimo deputado trabalhista Michael Martin. No lugar dele, os parlamentares escolheram o conservador John Bercow.

De nada adiantou. Os britânicos estão profundamente insatisfeitos com a classe política. Sinal amarelo para os trabalhistas. Depois da saída da Câmara, eles podem ser obrigados a deixar o cargo de primeiro-ministro ocupado por Gordon Brown. Uma eleição pode perfeitamente ser adiantada. O regime parlamentarista permite que tal processo seja feito.

A jornalista Polly Toynbee, vinculada ao “The Guardian”, manifestou seu repúdio no blog “A New Politics” (“Uma Nova Política”), ligado ao jornal britânico. O título do post deixa bem claro o conteúdo do texto: "Fed up with politics? Don´t just sit there." Em palavras traduzidas para o português: "De saco cheio dos políticos? Não fique aí sentado."

Leia os principais trechos da publicação:

“Only reforming the electoral system can free political parties to stand for clear principles. If ever there was a time for radical change, it´s now, when public disgust for british politics has never been greater.”

Tradução:

“Apenas a reforma do sistema eleitoral deixará livre partidos políticos para apoiar princípios transparentes. Nunca houve um tempo tão apropriado para mudanças radicais, quando o repúdio do público pelos políticos britânicos chegou a nível sem precedente.”

“Come and fill the hall to bursting: the Vote for a Change campaign needs the support of anyone sick of the way the two old parties carve up power between them, blocking any chance of fresh political life springing up.”

Tradução:

“Venha e se inscreva para romper essa lógica: a campanha do Voto pela Mudança precisa do apoio das pessoas cansadas da maneira como os dois partidos antigos repartem o poder, bloqueando qualquer chance de uma política renovada florescer.”

SARCASMO DA TERÇA

FONTE: Time.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

HISTÓRIA

As histórias são do ano de 1977

Em pouco mais de três décadas, o mundo presenciou alterações radicais. A democracia se consolidou, e o real controlou o monstro inflacionário.

POR Bruno Toranzo

Não esperava encontrar nada de muito interessante na biblioteca dos meus antepassados. Pelo gosto literário do meu avô, sabia que viriam pela frente livros de religião e autoajuda. Eles estão lá. Muitos deles. Ocupam uma prateleira inteira.

No canto da parede, completamente esquecidos, estão os registros de uma história recente. Publicados pela “Encyclopedia Britannica do Brasil”, os livros do ano retratavam os fatos mais importantes do ano anterior. Com um olhar curioso, puxei o fascículo de 1978.

Sabia da existência desses curiosos pequenos relatos da história. Mas os ignorei ao longo de tantas visitas. Cometi um erro. Folheá-los abriu a possibilidade de transporte para uma realidade completamente diferente da que estou acostumado. Para começar, abri em uma foto, no alto da página, de uma Polaroid, as pesadas máquinas fotográficas antigas que revolucionaram a época.

Que mudança radical. Em apenas trinta e dois anos, já que considera o ano de 1977 para análise, o mundo passou por transformações tremendas. No Chile, o general Pinochet comandava seu regime de barbárie. Ao contrário dos chilenos, que viviam um período sangrento, os espanhóis viam florescer o ambiente democrático, ausente do país há 41 longos anos.

Já os brasileiros testemunharam a divisão do estado do Mato Grosso. O regime democrático começava a aparecer no horizonte. Sem o controle da inflação, que batia recordes sucessivos, o governo mudava a estratégia de combate constantemente. A política antiinflacionária anunciada pelos militares, como se sabe, não surtiu resultados. Apenas o real, lançado em 1994, foi capaz de sossegar o dragão da inflação. Como no filme de Hollywood, em relação ao livro, sabemos dos meandros do passado.

Os autores, divididos em editorias, a mesma divisão de um jornal, escreveram para os leitores daqueles anos. O texto tem uma característica jornalística. Dá para perceber que eles não tinham pretensão de deixar um relato da história às gerações posteriores. Eles desempenhavam o trabalho de juntar os acontecimentos relevantes, em qualquer área do conhecimento humano, em uma coletânea. Algo muito próximo de uma retrospectiva, tradicionalmente feita na última edição do ano pelos veículos de comunicação, para retratar os fatos marcantes dos doze meses.

Estou com o livro aberto ao meu lado. Os ácaros fizeram a festa por muito tempo. A sucessão dos dias deixou as páginas bem amareladas. Tenho certeza de que a rinite alérgica vai atacar. Na verdade, meu nariz já está coçando. Não ficarei bem durante o restante do dia. Faz parte do ofício de jornalista.

Para começar, destaco o Prólogo do “Livro do Ano de 1978“:

“No Brasil e no mundo, 1977 caracterizou-se por ser um ano em que grandes transformações, em todos os aspectos, suscitaram mudanças de rumo na história dos países e dos homens. Nos EUA, na China, na Índia, no México, em Sri Lanka, na Etiópia, na Irlanda e vários outros países, novos governos e novas forças políticas emergiram e assumiram o poder. Na Espanha, a volta da democracia, depois de 41 anos. No Oriente Médio, uma esperança de paz, com a visita do presidente Sedat a Jerusalém, e a visita do primeiro-ministro Begin ao Egito. Na África, a encruzilhada no destino político das maiorias negras no sul, e o conflito no ‘chifre africano’. No Brasil, a consolidação da política econômica antiinflacionária e de modelo exportador; as grandes reformas; o judiciário, o divórcio, a divisão de Mato Grosso; as incertezas e movimentações políticas; as grandes obras. No Brasil e no mundo, as grandes realizações científicas, culturais e esportivas”.

*Continuarei com esse assunto nas próximas publicações.

OPINIÃO

Injustiça na terra da rainha
POR Bruno Toranzo

Foram oito tiros. Poucas palavras. Um policial ofegante, havia corrido uma boa distância, acusa com uma sonora exclamação. O que se sucede é bagunça, confusão, corre-corre. Atemorizados com as ações terroristas dos últimos dias, os cidadãos ingleses, crianças, homens, mulheres e velhos, correm para a porta do vagão. Eles procuram a saída. Não há tempo para titubear com a possibilidade de uma bomba explodir.

Os disparos ocorrem. De maneira certeira. Um dos policiais segura a cabeça do imigrante brasileiro para apontar a arma. Impossível errar a mira. Prontamente, sem saber a razão de tudo aquilo, Jean Charles de Menezes grita inocência. De nada adianta. Os dias de trabalho pesado do brasileiro foram em vão. O futuro de conforto, objetivo que levou o garoto pobre nascido em Minas Gerais para Londres, não vai se concretizar.



O próximo dia 22 marcará exatos quatro anos da morte de Jean Charles de Menezes. Morto covardemente na estação de metrô de Stockwell. Uma megaoperação da Scotland Yard pretendia impedir o terrorista Hussain Osman de agir. Osman vivia no mesmo prédio de Jean, mais precisamente um andar acima.

Só que os policiais perseguiram, desde a saída do prédio, a pessoa errada. Eles acompanharam o trajeto feito pelo brasileiro. Para completar, alvejaram, mesmo sem terem certeza da identidade, oito vezes o inocente Jean, sete das balas atingiram a cabeça e uma parou no ombro.

Cabe ressaltar que não houve condenação de nenhum policial envolvido no terrível engano daquela sexta-feira. Pelo contrário. A Scotland Yard tentou esconder a verdadeira história. Além de alterar a versão do que efetivamente aconteceu, ao dizer que o brasileiro não cooperou com a abordagem, as autoridades inglesas tentaram fechar a boca de muitos jornalistas.

Moradores de uma região pobre de Minas, os pais de Jean não têm condições financeiras de brigar por uma resposta apropriada, com a devida pena para os culpados, da justiça. Resta para eles a saudade do filho que partiu com apenas 27 anos.

Antes de finalizar a publicação, tenho o prazer de destacar o filme que retrata a vida de Jean em Londres. Protagonizado por um dos grandes atores brasileiros, o brilhante Selton Mello, a produção cinematográfica, em cartaz nos cinemas, tem o grande mérito de manter viva a história na memória dos brasileiros.