quinta-feira, 23 de julho de 2009

UM OLHAR DIFERENTE SOBRE A REALIDADE

A senhora religiosa cometeu um enorme engano
POR Bruno Toranzo

Enchi o copo. Deixei ao lado a garrafa de cerveja. Sentado no banquinho do balcão da padaria, encostei o queixo na palma da mão para observar as pessoas com mais cuidado. Procurei em volta um personagem curioso ou uma situação bizarra.

Dei de cara, logo em frente, com um senhor gordinho. Ele se deliciava com sua mussarela. Optou pelo sabor clássico. Boa pedida. Ao meu lado, uma família completa, com homem e mulher ainda casados, algo raro nos dias que se passam, pedia um pedaço atrás do outro. Com tantos filhos, três ao todo, duas garotas, que comiam feito garotos, e um moleque, que comia feito orangotango, o garçom comemorava, através de um largo sorriso, cada vez que retirava a caneta de cima da orelha para anotar outro pedaço na comanda.

De repente, uma surpresa. Gosto de surpresas. Elas quebram a mesmice. Só não esperava que estivesse no meio. Uma senhora, do outro lado do balcão, na região próxima às mesas, lança um olhar fixo em minha direção. Seus olhos negros procuram os meus verdes. Retribuo. Encaro aquela mulher, dos seus sessenta e muitos, para tentar decifrar o que está pensando.

Aposto que seu nome é Fátima. Desde os tempos de pirralho, teimo que velhas se chamam Fátima ou Aparecida, e velhos se chamam Osvaldo ou José. Quando era pequeno, não conseguia entender o porquê de algum senhor ter como nome Caio, Horácio ou, até mesmo, Ricardo, vocativos que levam a jovialidade na sua essência. Na verdade, ainda hoje não compreendo.

Seja lá como for, a tal Fátima, ao mesmo tempo em que olhava, começou a soltar algumas palavras. Percebi que seus lábios se mexiam. Uma expressão de pena se formou no rosto. Era difícil entender o que dizia. Aos poucos, as frases ficaram claras. A velhinha interpretou a situação de forma errada. Ela pensou que fosse um jovem no "mau caminho". Por eu ter escolhido a cerveja como única companheira naquela noite, a coitada dizia palavras religiosas, uma espécie de oração para dar um jeito na minha alma.

Depois de alguns minutos, a Dona Fátima sossegou. Voltou para sua mesa com dois pedaços de pizza. Curioso para ter outras informações sobre a senhora, virei o pescoço bruscamente. A senhora se juntou à outra para saborear a especialidade da padaria.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

LITERATURA

A maneira Hobsbawm de compreender o mundo
POR Bruno Toranzo

Com uma capacidade de encontrar respostas no passado para os desafios do presente, o historiador Eric Hobsbawm possui uma habilidade de análise das relações entre os países, sejam elas políticas, econômicas ou culturais, somente vista nos escritores considerados fora de série.

Em “Globalização, Democracia e Terrorismo”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, o autor egípcio mostra ao leitor as características dos novos tempos trazidos pelo fenômeno da globalização. De maneira prática, privilegiando a objetividade, Hobsbawm deixa de lado os detalhes históricos para mergulhar no tortuoso contexto em que estamos inseridos.

Leia alguns trechos do livro a seguir:

"Deixando de lado a Espanha do século XVI e talvez a Holanda do século XVII, a Grã-Bretanha, de meados do século XVIII a meados do século XX, e os Estados Unidos, a partir de então, são os únicos exemplos de impérios genuinamente globais com horizontes políticos globais, e não meramente regionais, o mesmo valendo para seus recursos de poder – a supremacia naval para a Grã-Bretanha do século XIX e a supremacia aérea para os Estados Unidos do século XXI –, ambos apoiados por uma forte rede mundial de bases operacionais."

(...)

"Também ambos dominaram como modelos econômicos, como pioneiros técnicos e organizacionais, como indicadores de tendências e ainda como os centros do sistema mundial de fluxos financeiros e de produtos comerciais e como os países cujas políticas financeiras e comerciais determinavam em grande medida as características desses fluxos."

(...)

"Um dos maiores trunfos do imperialismo ocidental, formal ou informal, era o de que, na sua primeira acepção, a ‘ocidentalização’ era a única forma pela qual as economias atrasadas podiam modernizar-se e os países fracos podiam fortalecer-se."

(...)

"Contudo, a globalização da economia industrial internacionalizou a modernização. A Coreia do Sul tem pouco a aprender dos Estados Unidos, que importa seus técnicos em computação da Índia e exporta o trabalho feito por eles para o Sri Lanka, enquanto o Brasil produz não só café mas também jatos executivos. Os asiáticos podem acreditar ainda na utilidade de mandar seus filhos para estudar no Ocidente, onde com frequência têm como professores acadêmicos asiáticos emigrados, mas a presença dos ocidentais nos seus países, para não falar do exercício da influência e do poder político local, já não é necessária para a modernização de suas sociedades."

SARCASMO DA QUARTA

FONTE: Time.

terça-feira, 14 de julho de 2009

UM OLHAR DIFERENTE SOBRE A REALIDADE

É dia dos garis recolherem o lixo
POR Bruno Toranzo

Depois de um longo dia de trabalho, durante o retorno para o doce lar, lá está o pessoal da limpeza urbana na rua de casa. Estou certo de que o leitor não encontrará novidade alguma nisso. O fato realmente não tem nada de novo. Mas a maneira de olhar e, acima de tudo, de interagir com essa cena comum do cotidiano foge completamente do convencional.

São quatro ou cinco garis, não me lembro ao certo no momento. Quanto ao modo como estão vestidos, recordo com precisão. Todos estão devidamente uniformizados, trajados com camisa amarela, calça azul e luvas brancas especiais, que brilham no escuro, para proteger as mãos durante o manejo do lixo. O tamanho avantajado dos dedos nas luvas os deixa com uma aparência engraçada.

Os trabalhadores estão de pé na garupa do caminhão. Em letras grandes, legíveis até para os míopes acima do patamar dos oito graus por olho, lê-se “Coleta Seletiva” na lataria, mensagem importante para identificar o veículo. Afinal de contas, não é todo dia que um monstro desses passa em frente a sua casa.

Mesmo com um frio agonizante, além da enorme exigência física do ofício, os garis estão animados. O motorista do caminhão arranca e, de propósito, para caçoar, deixa para trás um dos colegas. Com certeza, deve ser o caçula da turma. Em qualquer profissão, a inexperiência joga contra você em diversos aspectos. Não pude interpretar, com absoluta precisão, a razão da provocação. Mas, a julgar pelas risadas, inclusive da vítima, arrisco o palpite do castigo para o novato.

Tento continuar anônimo. A calçada está escura. Encosto em um canto. Fico escondido atrás de pontudos galhos. Pelo menos, a posição da árvore favorece o anonimato. Eles não podem perceber minha presença. Tal flagrante destruiria a originalidade da cena. Assim como ocorre nas fotografias, o melhor retrato está na naturalidade.

O trabalho pesado dos garis continua. Que fôlego. Os lixeiros correm para todos os lados. Dois deles partem para a esquerda. O restante prefere a direita. No pequeno monte seguinte de lixo, referente ao prédio residencial mais antigo da rua, a pressa em agarrar as sacolas pretas faz com que uma delas se rompa. Posso estar sendo injusto. Talvez essa sacola não tenha sido fechada direito pelo morador. Isso mesmo. Não posso acusar sem provas.

Já se passaram das onze horas da noite. Além da presença desses verdadeiros guerreiros, não há mais ninguém por perto. Vez ou outra, depois da retirada do lixo, algum porteiro demonstra coragem para sair, devidamente agasalhado, com a gola da blusa até o queixo. A baixa temperatura, por volta dos doze graus, sem falar da assustadora sensação térmica, que está, sem dúvida, em um dígito, faz com que os guardiões das residências sejam ágeis. Eles precisam recolher o carrinho do lixo, se não quiserem congelar, com velocidade. O utensílio só terá serventia na próxima visita dos garis.

Não venta. Pelo menos, o vento não contribui com o frio na maldosa atribuição de congelar os ossos dos trabalhadores noturnos. Mesmo assim, o cheiro do chorume ou, em outras palavras, o cecê do lixo, é forte o suficiente para incomodar. O nariz, ao sentir o odor proveniente do sovaco do lixo, reclama. Reclama não, esperneia. Dá para entender por que os especialistas alertam para o perigo do chorume em contato com os lençóis freáticos.

O caminhão já está no finalzinho da rua. Pelo menos por aqui, nesta rua da cidade, o trabalho está feito. Com exceção de alguns cascos de banana, garrafas de vidro quebradas espalhadas pelo asfalto e um ou outro papelão, a coleta foi bem feita. Não sejamos tão exigentes com um trabalho de tamanha dureza.

Aceno para o porteiro do meu prédio. Os portões elétricos são imediatamente abertos. É hora de repousar. Um novo dia aguarda a retirada da Lua para entrar. Aparentemente, não resta nada para observar. O silêncio impera. O dia a dia oferece grandes histórias. Cabe a nós estarmos receptivos para enxergá-las.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

HISTÓRIA

As histórias são do ano de 1977
Os produtores de petróleo colocaram o mundo em recessão, o que não evitou grandes avanços tecnológicos, como o aperfeiçoamento dos satélites.

POR Bruno Toranzo

Os anos 70 têm outro grande atrativo do ponto de vista histórico. A economia, incluindo os países ricos e pobres, viveu uma grande crise. Coração do desenvolvimento da época, o petróleo tinha uma importância estratégica ainda maior daquela verificada em nossos dias. Os governos, excessivamente dependentes da commodity, estavam acostumados a pagar pouco mais de dois míseros dólares o barril.

Com uma fonte de energia tão barata, não havia necessidade de gastar milhões de dólares para adaptar o sistema econômico para outra matriz. A poluição naqueles tempos não fazia parte da lista de prioridades dos governantes. O mundo se esquecia até mesmo da finitude do petróleo.

A situação mudou completamente em 1973 quando, pela primeira vez, o chamado “ouro negro” foi utilizado como fator de pressão política. Os países árabes da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), cartel que envolve os principais produtores, resolveram diminuir a produção para responder ao apoio concedido pelos Estados Unidos a Israel durante a guerra do Yom Kipur.

Com menor extração, o preço se elevou nos três anos seguintes. Cada barril deixou de valer alguns trocados para dar um pulo ao patamar dos onze dólares. Em valores atuais, isso significa quarenta dólares.

O resultado foi o aumento generalizado dos preços. A cadeia produtiva de qualquer produto utiliza, em maior ou menor quantidade, a commodity. O transporte, por exemplo, através do encarecimento da gasolina, passou a ser uma grande dor de cabeça para os empresários. Uma elevação brusca e de tamanha intensidade tal como ocorreu prejudica todos os setores da economia. A recessão assolou a qualidade de vida de grande parte dos países do globo.

“O ano de 1977 apresentou múltiplas tendências e, de certa forma, decepcionante na economia mundial. Em fins de 1976, tornou-se claro que a recuperação da recessão do ano anterior estava começando a ceder e que vários países do mundo não-comunista não estavam alcançando o objetivo oficialmente aceito de um crescimento cauteloso, mas firme na produção, combinado com um razoável balanço de pagamentos.”

“A tarefa para 1977, em vista disso, consistiu em planejar uma estratégia econômica mundial que pudesse elevar a vacilante taxa de crescimento e favorecer resultados satisfatórios no balanço de pagamentos. Na prática, não foi possível. O ritmo de crescimento manteve-se lento e caprichoso. Os desequilíbrios externos tornaram-se mais pronunciados, dando origem à instabilidade do mercado cambial, além da intensificação dos critérios protecionistas.”

Ao mesmo tempo, apesar da diminuição dos recursos para investimento em pesquisa, os países continuaram avançando na criação de tecnologia para diminuir as distâncias entre os seres humanos. O processo de globalização se fortaleceu depois da criação da infraestrutura necessária para interligar as pessoas. A comunicação por satélite permitiu que todos acompanhassem um acontecimento em tempo real, independentemente de onde estivessem.

“Um sistema doméstico de comunicação por satélite – que é o maior de todos os sistemas independentes da Companhia Bell – foi lançado durante o ano pela AT&T e pela GTE conjuntamente. É o primeiro capaz de transmitir conversações telefônicas à longa distância aos 48 estados norte-americanos contíguos e também entre o continente e o Havaí. Além disso, sistemas de transmissão por satélite permitiram a recepção de programas de televisão em inúmeras localidades novas.”

SARCASMO DA SEXTA

FONTE: Time.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

HISTÓRIA

Hoje é dia da Revolução Constitucionalista
Os revolucionários paulistas não derrubaram Vargas, mas pressionaram o governo a elaborar uma constituição para o Brasil.

POR Bruno Toranzo

Inconformados com o golpe de estado que levou Getúlio Vargas ao poder, os paulistas, acostumados com o revezamento da presidência com os mineiros durante o período da República do Café com Leite, resolveram recorrer às armas para derrubar o ditador.

No dia 9 de julho de 1932, São Paulo expulsou o representante estadual nomeado por Vargas e exigiu a saída do gaúcho da presidência, além da elaboração imediata de uma constituição. A maior mobilização popular da história do Brasil deixou muitas vítimas, incluindo os quatro famosos jovens do conhecido movimento MMDC (remete aos nomes de cada um dos estudantes mortos: Martins, Miragaia, Drauzio e Camargo).

Juntando as tropas paulistas e federais, ou seja, ao considerar todos os participantes do conflito, estima-se que 135 mil homens tenham aderido ao embate. Depois de três meses de luta, o saldo de mortos do lado paulista foi de 900 soldados, quase o dobro das perdas da força expedicionária brasileira, cujos membros eram chamados carinhosamente de "pracinhas", durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar de não receber a devida atenção dos livros de história, a Revolução Constitucionalista de 1932 deixou uma importante contribuição para o país. Dois anos mais tarde, sob forte pressão popular, Vargas convocou uma assembleia constituinte.

Como resultado, a constituição possibilitou, entre outros avanços, a criação do salário mínimo e a redução da carga horária de trabalho para oito horas diárias. Ambas as novidades beneficiaram os trabalhadores urbanos. No campo, as condições desumanas de trabalho continuaram.

A exemplo dos anos anteriores, as homenagens serão no Obelisco do Ibirapuera, zona sul da cidade, um dos cartões-postais paulistanos. O evento começa às 9 horas da manhã. Os destaques ficam por conta do desfile militar e da cerimônia de sepultamento dos heróis homenageados.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

HISTÓRIA

As histórias são do ano de 1977
O senador José Sarney já se explicava em plenário, enquanto a população chilena vivia a terrível ditadura comandada por Pinochet.

POR Bruno Toranzo

Como combinamos, continuo analisando o poeirento livro que enumera os acontecimentos mais relevantes do ano de 1977.

Começo com o estado dos Sarney, o Maranhão. Foram essas terras que fizeram a fortuna da família. O presidente do Senado, José Sarney, que estava prestes a cair, renúncia impedida pelos interesses eleitorais de Lula para 2010, aparece na tribuna do Senado em uma fotografia da Agência do Jornal do Brasil (veja na publicação abaixo). Adivinha sobre o que argumenta? Acertou quem respondeu crise. Desde os primórdios, o senador, de filiação arenista no passado, tem de explicar sua conduta política. E olha que o Brasil era ainda menos transparente naqueles anos.

“Em outubro, divergência entre o Secretário de Segurança, coronel Carlos Alberto Dualibe, e o governador do Estado (do Maranhão) culminou com exoneração daquele. A decisão relacionou-se com a invasão, por mais de cem homens, da fazenda Maguari, no município de Santa Luzia, de propriedade do senador arenista José Sarney, adversário do governador. Este, pouco antes, ao depor na CPI do sistema fundiário, apontara irregularidades na ocupação da área pela fazenda.”

Ou seja, o senador Sarney, hoje filiado ao PMDB, repleto de representantes investigados pela justiça, já apresentava, de acordo com o ex-governador do Maranhão Nunes Freire, irregularidades quanto à ocupação daquela área. Cabe ressaltar que Sarney tem várias fazendas Maguari em terras maranhenses. Não é exagero afirmar que o ex-presidente manda e desmanda no Maranhão.

Viro algumas folhas e busco a letra C. A página 131 revela os tristes episódios da ditadura chilena, provavelmente a mais sangrenta das Américas. O grande responsável pela desordem foi Augusto José Ramón Pinochet Ugarte, o general Pinochet, que se tornou presidente, depois de um golpe militar, em setembro de 1973. Durante 17 anos, liderou a mais longa ditadura da história do Chile.

“A junta chilena comemorou em setembro de 1977 o seu quarto ano do governo, mantendo pleno controle sobre o país e com poucas perspectivas de qualquer mudança importante num futuro próximo. O estado de sítio continuou em vigor, e o toque de recolher foi mantido. Em março, a junta dissolveu os partidos políticos remanescentes e, em julho, anunciou um plano a longo prazo para o retorno ao poder civil, com o objetivo declarado de preservar os partidos não-marxistas do que o atual governo chileno considera como vícios das velhas facções políticas.”

(...)

“A 8 de setembro, durante as cerimônias da assinatura do tratado sobre o canal do Panamá, o general Pinochet e o presidente Jimmy Carter tiveram um encontro pessoal. Apesar da distensão nas relações oficiais com os EUA, o Chile continuou a ter uma imagem bastante prejudicada no restante do mundo, devido à questão dos direitos humanos.”

(...)

“Prosseguiu a lenta recuperação da economia, atingindo, globalmente, os níveis dos últimos anos da década de 1960. A política econômica ortodoxa do governo reduziu o déficit orçamentário em quase 10% da despesa. A taxa de inflação, ao que se contava, caíra cerca de 60% em 1977, com esperanças de uma redução de 25% em 1978. O PIB deverá crescer de 8% a 9% em 1977.”

HISTÓRIA


FONTE: Fotografia retirada do “Livro do Ano de 1978”, de autoria da Agência do Jornal do Brasil.

terça-feira, 7 de julho de 2009

POLÍTICA

Os britânicos estão “de saco cheio” dos seus políticos
A população brasileira não está sozinha no sentimento de aversão aos homens públicos.

POR Bruno Toranzo

Com escândalos consecutivos, crises políticas intermináveis, o Congresso está em baixa com os brasileiros. A estrutura antiquada, que favorece a corrupção, é responsável pelo descrédito da população. Não adianta, apesar de ser necessário para servir de exemplo, trocar uma peça pela outra. O problema está na maneira de pensar e agir da classe política.

Os britânicos sentem o mesmo carinho pelos seus representantes. Sob outro regime político, o parlamentarismo, o pessoal do Reino Unido precisa se contentar com os candidatos de apenas dois partidos. De um lado, estão os conservadores, contrários à presença de estrangeiros em suas terras. De outro, ficam os trabalhistas, partido do antigo e conhecido primeiro-ministro Tony Blair, ferrenho defensor da política do indigesto George W. Bush.

As recentes reportagens do jornal “The Daily Telegraph” destruíram a boa reputação que o partido dos trabalhadores gozava. Os repórteres destacaram diversos casos de corrupção de ambas as siglas, todas giram em torno do uso ilegal de verbas do parlamento. A exemplo do Brasil, os congressistas possuem uma série de vantagens, como verba de gabinete e direito à moradia, todas bancadas, é claro, pelos constituintes.

A consequência direta da corrupção foi a renúncia do presidente da Câmara dos Comuns, o mesmo que Câmara dos Deputados para nós, o excelentíssimo deputado trabalhista Michael Martin. No lugar dele, os parlamentares escolheram o conservador John Bercow.

De nada adiantou. Os britânicos estão profundamente insatisfeitos com a classe política. Sinal amarelo para os trabalhistas. Depois da saída da Câmara, eles podem ser obrigados a deixar o cargo de primeiro-ministro ocupado por Gordon Brown. Uma eleição pode perfeitamente ser adiantada. O regime parlamentarista permite que tal processo seja feito.

A jornalista Polly Toynbee, vinculada ao “The Guardian”, manifestou seu repúdio no blog “A New Politics” (“Uma Nova Política”), ligado ao jornal britânico. O título do post deixa bem claro o conteúdo do texto: "Fed up with politics? Don´t just sit there." Em palavras traduzidas para o português: "De saco cheio dos políticos? Não fique aí sentado."

Leia os principais trechos da publicação:

“Only reforming the electoral system can free political parties to stand for clear principles. If ever there was a time for radical change, it´s now, when public disgust for british politics has never been greater.”

Tradução:

“Apenas a reforma do sistema eleitoral deixará livre partidos políticos para apoiar princípios transparentes. Nunca houve um tempo tão apropriado para mudanças radicais, quando o repúdio do público pelos políticos britânicos chegou a nível sem precedente.”

“Come and fill the hall to bursting: the Vote for a Change campaign needs the support of anyone sick of the way the two old parties carve up power between them, blocking any chance of fresh political life springing up.”

Tradução:

“Venha e se inscreva para romper essa lógica: a campanha do Voto pela Mudança precisa do apoio das pessoas cansadas da maneira como os dois partidos antigos repartem o poder, bloqueando qualquer chance de uma política renovada florescer.”

SARCASMO DA TERÇA

FONTE: Time.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

HISTÓRIA

As histórias são do ano de 1977

Em pouco mais de três décadas, o mundo presenciou alterações radicais. A democracia se consolidou, e o real controlou o monstro inflacionário.

POR Bruno Toranzo

Não esperava encontrar nada de muito interessante na biblioteca dos meus antepassados. Pelo gosto literário do meu avô, sabia que viriam pela frente livros de religião e autoajuda. Eles estão lá. Muitos deles. Ocupam uma prateleira inteira.

No canto da parede, completamente esquecidos, estão os registros de uma história recente. Publicados pela “Encyclopedia Britannica do Brasil”, os livros do ano retratavam os fatos mais importantes do ano anterior. Com um olhar curioso, puxei o fascículo de 1978.

Sabia da existência desses curiosos pequenos relatos da história. Mas os ignorei ao longo de tantas visitas. Cometi um erro. Folheá-los abriu a possibilidade de transporte para uma realidade completamente diferente da que estou acostumado. Para começar, abri em uma foto, no alto da página, de uma Polaroid, as pesadas máquinas fotográficas antigas que revolucionaram a época.

Que mudança radical. Em apenas trinta e dois anos, já que considera o ano de 1977 para análise, o mundo passou por transformações tremendas. No Chile, o general Pinochet comandava seu regime de barbárie. Ao contrário dos chilenos, que viviam um período sangrento, os espanhóis viam florescer o ambiente democrático, ausente do país há 41 longos anos.

Já os brasileiros testemunharam a divisão do estado do Mato Grosso. O regime democrático começava a aparecer no horizonte. Sem o controle da inflação, que batia recordes sucessivos, o governo mudava a estratégia de combate constantemente. A política antiinflacionária anunciada pelos militares, como se sabe, não surtiu resultados. Apenas o real, lançado em 1994, foi capaz de sossegar o dragão da inflação. Como no filme de Hollywood, em relação ao livro, sabemos dos meandros do passado.

Os autores, divididos em editorias, a mesma divisão de um jornal, escreveram para os leitores daqueles anos. O texto tem uma característica jornalística. Dá para perceber que eles não tinham pretensão de deixar um relato da história às gerações posteriores. Eles desempenhavam o trabalho de juntar os acontecimentos relevantes, em qualquer área do conhecimento humano, em uma coletânea. Algo muito próximo de uma retrospectiva, tradicionalmente feita na última edição do ano pelos veículos de comunicação, para retratar os fatos marcantes dos doze meses.

Estou com o livro aberto ao meu lado. Os ácaros fizeram a festa por muito tempo. A sucessão dos dias deixou as páginas bem amareladas. Tenho certeza de que a rinite alérgica vai atacar. Na verdade, meu nariz já está coçando. Não ficarei bem durante o restante do dia. Faz parte do ofício de jornalista.

Para começar, destaco o Prólogo do “Livro do Ano de 1978“:

“No Brasil e no mundo, 1977 caracterizou-se por ser um ano em que grandes transformações, em todos os aspectos, suscitaram mudanças de rumo na história dos países e dos homens. Nos EUA, na China, na Índia, no México, em Sri Lanka, na Etiópia, na Irlanda e vários outros países, novos governos e novas forças políticas emergiram e assumiram o poder. Na Espanha, a volta da democracia, depois de 41 anos. No Oriente Médio, uma esperança de paz, com a visita do presidente Sedat a Jerusalém, e a visita do primeiro-ministro Begin ao Egito. Na África, a encruzilhada no destino político das maiorias negras no sul, e o conflito no ‘chifre africano’. No Brasil, a consolidação da política econômica antiinflacionária e de modelo exportador; as grandes reformas; o judiciário, o divórcio, a divisão de Mato Grosso; as incertezas e movimentações políticas; as grandes obras. No Brasil e no mundo, as grandes realizações científicas, culturais e esportivas”.

*Continuarei com esse assunto nas próximas publicações.

OPINIÃO

Injustiça na terra da rainha
POR Bruno Toranzo

Foram oito tiros. Poucas palavras. Um policial ofegante, havia corrido uma boa distância, acusa com uma sonora exclamação. O que se sucede é bagunça, confusão, corre-corre. Atemorizados com as ações terroristas dos últimos dias, os cidadãos ingleses, crianças, homens, mulheres e velhos, correm para a porta do vagão. Eles procuram a saída. Não há tempo para titubear com a possibilidade de uma bomba explodir.

Os disparos ocorrem. De maneira certeira. Um dos policiais segura a cabeça do imigrante brasileiro para apontar a arma. Impossível errar a mira. Prontamente, sem saber a razão de tudo aquilo, Jean Charles de Menezes grita inocência. De nada adianta. Os dias de trabalho pesado do brasileiro foram em vão. O futuro de conforto, objetivo que levou o garoto pobre nascido em Minas Gerais para Londres, não vai se concretizar.



O próximo dia 22 marcará exatos quatro anos da morte de Jean Charles de Menezes. Morto covardemente na estação de metrô de Stockwell. Uma megaoperação da Scotland Yard pretendia impedir o terrorista Hussain Osman de agir. Osman vivia no mesmo prédio de Jean, mais precisamente um andar acima.

Só que os policiais perseguiram, desde a saída do prédio, a pessoa errada. Eles acompanharam o trajeto feito pelo brasileiro. Para completar, alvejaram, mesmo sem terem certeza da identidade, oito vezes o inocente Jean, sete das balas atingiram a cabeça e uma parou no ombro.

Cabe ressaltar que não houve condenação de nenhum policial envolvido no terrível engano daquela sexta-feira. Pelo contrário. A Scotland Yard tentou esconder a verdadeira história. Além de alterar a versão do que efetivamente aconteceu, ao dizer que o brasileiro não cooperou com a abordagem, as autoridades inglesas tentaram fechar a boca de muitos jornalistas.

Moradores de uma região pobre de Minas, os pais de Jean não têm condições financeiras de brigar por uma resposta apropriada, com a devida pena para os culpados, da justiça. Resta para eles a saudade do filho que partiu com apenas 27 anos.

Antes de finalizar a publicação, tenho o prazer de destacar o filme que retrata a vida de Jean em Londres. Protagonizado por um dos grandes atores brasileiros, o brilhante Selton Mello, a produção cinematográfica, em cartaz nos cinemas, tem o grande mérito de manter viva a história na memória dos brasileiros.

terça-feira, 9 de junho de 2009

REPORTAGEM

Economia brasileira não vai crescer em 2009, estima BC
No melhor dos cenários, especialista de banco aponta ausência de crescimento do PIB neste ano.

BRUNO TORANZO

A contração da economia brasileira deve chegar a 0,71% neste ano. Para 2010, o PIB (Produto Interno Bruto), a soma de todos os bens e serviços produzidos no país, deve retomar o caminho do crescimento, com o registro de 3,5%. Essas são as estimativas do relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, com periodicidade semanal, na última segunda-feira (8), que leva em consideração a opinião dos analistas do mercado.

“Esperamos ausência de crescimento em 2009”, ressaltou Cristiano Souza, economista do Santander. Sem a consistência dos indicadores econômicos, Souza acredita que o mundo vai passar por um período de crescimento moderado antes de voltar a avançar a todo vapor. “A preocupação é ficarmos, a exemplo do que ocorreu com o Japão, por um bom tempo no fundo do poço”, destacou.

Após a crise do seu sistema financeiro, os japoneses amargaram anos consecutivos de estagnação. Os economistas consideram, do ponto de vista do crescimento, a década de 90 perdida na história da economia japonesa. Para completar, a crise recente fez com que o PIB do quarto trimestre do ano passado registrasse queda de 12,7%, a pior contração desde 1974.

“O competente trabalho do Banco Central garante uma condição macroeconômica sólida para o Brasil”, garantiu Ricardo Della Santina Torres, professor de finanças internacionais da Brazilian Business School. Essa atuação do BC, segundo Torres, contribui para a criação de uma blindagem que resguardou e continua protegendo o país dos efeitos devastadores da crise.

Nesta terça-feira (9), o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgará os números que confirmam o desempenho negativo da economia. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante evento realizado pela Globo News, disse que espera retração no primeiro trimestre. Dois trimestres consecutivos de PIB negativo, o último do ano passado e o primeiro de 2009, significam, na linguagem do mercado, recessão.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

terça-feira, 2 de junho de 2009

REPORTAGEM

CPI pode prejudicar desempenho da Petrobras
Especialistas discordam sobre os prejuízos das investigações dos senadores nos negócios da multinacional brasileira.

BRUNO TORANZO

Considerada a maior empresa do Brasil, a Petrobras acumulou lucro líquido de R$ 32,988 bilhões em 2008. Desde o começo do ano até a última segunda-feira (1), as ações da petrolífera acumularam valorização de 52,62%. Os investidores classificam seus papéis como de primeiro escalão por serem responsáveis pelo direcionamento positivo ou negativo do resultado diário da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo).

Nesta terça-feira (2), o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), promete o início dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as atividades da Petrobras. Os objetivos são averiguar a condição dos contratos, o que inclui a verificação de fraudes em licitações, investigar o superfaturamento na construção da refinaria pernambucana Abreu e Lima, além de apurar o desvio de royalties e as irregularidades em verbas de patrocínio.

O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, demonstrou preocupação com o impacto das investigações nos negócios. Em entrevista coletiva em Nova Iorque, Gabrielli garantiu que seus diretores e gerentes não são “ladrões”, mas pessoas honestas e competentes. Para ele, a disseminação das notícias sobre o assunto prejudica o desempenho da petrolífera. Depois das declarações, Gabrielli encerrou o pregão da bolsa de valores americana, oportunidade concedida para referências do universo econômico.

“A Petrobras terá dificuldades em concretizar os próximos contratos que forem assinados fora do país. Enquanto durar a CPI, os contratos serão postergados”, opinou Plínio Chapchap, diretor da Queluz Gestão de Ativos. As empresas receosas pensarão duas vezes antes de fechar uma parceria com a multinacional brasileira. Aqueles contratos firmados antes das investigações não sofrerão revés, porque a rescisão envolve cifras astronômicas. “O efeito real está sobre os investimentos futuros da Petrobras”, concluiu.

A descoberta de reservas gigantescas de petróleo na costa brasileira, na bacia de Santos e no campo de Tupi, colocou o país em evidência. Com tecnologia para explorar águas profundas e ultraprofundas, um diferencial da Petrobras, o pré-sal pode levar o Brasil ao seleto grupo dos maiores produtores do mundo. O volume estimado de petróleo, apenas no campo de Tupi, é de 5 bilhões a 8 bilhões de barris.

Antes da crise econômica, o aumento do consumo chinês, para sustentar o crescimento de sua economia, elevou para mais de cem dólares cada barril. A melhora das condições dos mercados fez com que o preço do barril voltasse, nos últimos dias, ao patamar dos US$ 60. Esse valor possibilita a retomada, com toda força, da exploração do petróleo brasileiro recém-descoberto. De acordo com um dos diretores da empresa, o projeto piloto da exploração do pré-sal, através da produção de 100 mil barris por dia, está previsto para começar em dezembro do próximo ano.

“Os investidores estrangeiros consideram o potencial de crescimento da empresa. Eles dão pouca importância aos fatores políticos”, disse Mauro Giorgi, gestor de investimentos. O capital externo, ainda segundo Giorgi, sabe das inúmeras variáveis que envolvem o jogo político. “A extensão da camada do pré-sal atrai os investidores. Por essa razão, a Petrobras não pode parar os investimentos em torno da exploração de todo esse petróleo”, finalizou.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

terça-feira, 26 de maio de 2009

REPORTAGEM

Valorização do real indica volta do capital externo
A inversão do câmbio, com a valorização do real frente ao dólar superior aos 13% no ano, mostra que os investidores estrangeiros estão novamente de olho no Brasil.

BRUNO TORANZO

Desde o primeiro dia do ano, a valorização do real frente ao dólar é de 13,26%. A cotação já se aproxima dos dois reais para cada dólar. Como efeito de comparação, no dia 4 de dezembro do ano passado, período do auge da crise econômica, a moeda americana atingiu um patamar que há muito não se via: US$ 1 chegou a valer R$ 2,51.

Na época, as empresas foram pegas de surpresa com tamanha desvalorização. Muitas delas, com grande volume de exportação, apostaram em dólar baixo nos contratos arriscados de derivativos. Em outubro, por exemplo, a Sadia revelou ter perdido R$ 2,6 bilhões nessas operações. Os grandes executivos não esperavam que o impacto da crise econômica se mostrasse tão devastador.

O comportamento do mercado se inverteu em 2009. Em vez do registro da saída de dólares, por meio do abandono dos investimentos em terras brasileiras, está ocorrendo a volta do dinheiro que havia deixado o país. “A valorização do real vai continuar. O crescente aumento do déficit fiscal dos Estados Unidos, através dos estímulos bilionários oferecidos ao sistema financeiro, coloca sua moeda em baixa”, opinou Ricardo Della Santina Torres, professor de finanças internacionais da Brazilian Business School.

O retorno do capital internacional pode ser visto como uma indicação de que os investidores confiam na economia brasileira. Além da condução estritamente profissional da economia pelo Banco Central, as características do país são capazes de chamar a atenção estrangeira. “A chave para o sucesso está no mercado doméstico. Não dependemos em excesso, como ocorre em outros países, do volume de exportações”, disse Torres.

As reservas externas do Brasil, avaliadas em US$ 200 bilhões, foram importantes para proteger o país em meio ao cenário de turbulência. “As reservas americanas são menores que as brasileiras. Eles são obrigados a emitir títulos da dívida pública para cobrir o rombo dos recentes investimentos de emergência”, finalizou o professor.

Para Mohamed Mourabet, consultor e sócio-diretor da Victoire Brasil Investimentos, o mundo passa por uma fase de diferenciação entre os países. “A divisão internacional não só ocorre entre os ricos e pobres, mas entre as próprias economias emergentes. Os fundamentos econômicos estão sendo seriamente testados”, analisou.

Ao considerar os países que formam o grupo do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), economias consideradas prósperas para chegar ao grau de desenvolvimento nos próximos anos, Mourabet aponta algumas vantagens que colocam os brasileiros em destaque. “Os investidores sabem que as instituições brasileiras são muito mais maduras. Para quem investe, é importante que as regras estejam consolidadas, além da manutenção de um transparente processo eleitoral”, disse.

Com o paulatino crescimento da economia, os brasileiros presenciarão outros processos de fusão nos moldes da Sadia e Perdigão. A junção das duas empresas gigantes do setor alimentício criou a Brasil Foods, cuja pretensão é controlar mercados em todos os continentes. “Essas megaoperações fortalecem os setores econômicos. A intenção dos executivos é aproveitar as vantagens competitivas que o ambiente de negócios brasileiro oferece para expandir o poder de barganha da marca”, concluiu Mourabet.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

terça-feira, 19 de maio de 2009

REPORTAGEM

Melhora da bolsa não é sinal de recuperação econômica
Apesar da valorização do Ibovespa acima dos 37% no ano, especialistas dizem que a retomada da economia ainda depende de uma conjunção de fatores.

BRUNO TORANZO

Os economistas consideram a bolsa de valores o termômetro da economia. Quando a cor predominante dos índices é o vermelho, esteja certo de que a economia real, formada pela produção das empresas e pelo consumo das pessoas, passa por um momento preocupante.

Em tempos de turbulência, agravada após a quebra do banco americano Lehman Brothers em setembro do ano passado, as ações atingiram níveis assustadoramente baixos, muitos deles nunca antes visto. O Ibovespa, índice mais importante da bolsa brasileira, chegou a ficar, logo após a falência do Lehman, abaixo dos 30 mil pontos, resultado que não acontecia desde outubro de 2005.

A virada ocorre quando o ambiente de desvalorização consecutiva deixa a cena. Este ano presencia, pelo menos por enquanto, o possível início de uma retomada econômica. Os investidores comemoram, desde o primeiro dia de janeiro, uma valorização do Ibovespa acima dos 37%, de volta ao patamar dos 50 mil pontos.

“Estamos passando pelo final do ápice da crise. Por essa razão, vamos presenciar sequências intercaladas de ganhos e perdas no mercado acionário”, explicou Jason Vieira, economista-chefe da UpTrend Consultoria. Na semana passada, a vez foi das perdas. A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) atuou em baixa na maior parte dos dias para registrar queda de 4,65%.

Em contrapartida, o resultado positivo levou vantagem na última segunda-feira (18). A valorização chegou aos 5% em apenas um pregão. “A economia passa por um momento de correção. Essa instabilidade é gerada pelo movimento de incerteza dos investidores. Eles passam a comprar e vender ações no mesmo dia”, concluiu Vieira.

Os três nobéis, que estiveram no Brasil na última segunda-feira (11), estão pessimistas quanto ao final da crise. Para Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel em 2001, os Estados Unidos viverão uma década perdida, com crescimento baixo ao longo dos anos. Stiglitz defende mudanças institucionais no funcionamento da economia, a exemplo do fim do dólar como moeda internacional.

“A solução definitiva desta crise passa pela recuperação do crédito”, garantiu Cristiano Souza, economista do Grupo Santander. Tal processo só vai ocorrer quando os ativos tóxicos, assim chamados por representarem papéis cujo valor praticamente zerou, ligados em sua maioria ao setor de hipotecas, forem resolvidos. “Sem a confiança para emprestar, a economia continuará sem sair do lugar”, destacou.

Como forma de verificar a situação financeira dos bancos nos Estados Unidos, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, ao lado de sua equipe econômica, lançou o plano de estresse. Por meio dos instrumentos monetários voltados para testar a capacidade de reação dos bancos em uma hipotética piora da situação, os especialistas descobriram que a constante injeção de recursos bilionários estatais, apesar dos protestos dos contribuintes, surtiu efeito.

“O teste de estresse mostrou que os bancos estão capitalizados, ou seja, contam com dinheiro em caixa. A exceção ficou com o Bank of America”, disse Souza. Mesmo com a boa notícia, o economista chama a atenção para a continuação da piora do mercado de hipotecas e a alta taxa de inadimplência dos americanos em suas obrigações de cartão de crédito.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

terça-feira, 12 de maio de 2009

REPORTAGEM

Cadastro Positivo vai alterar condições de empréstimo
Se for aprovado pelos congressistas, o banco de dados, com o histórico de pagamentos de cada cliente, reduziria os juros cobrados dos bons pagadores.

BRUNO TORANZO

O Cadastro Positivo, um banco de dados que separa os bons dos maus pagadores, está prestes a ser votado pela Câmara dos Deputados. Segundo o presidente da Casa, o deputado Michel Temer (PMDB-SP), a decisão deve sair nesta terça-feira (12).

Apesar do excesso de medidas provisórias que trancam a pauta do Congresso, Temer adotou uma nova estratégia, através da convocação de sessões extraordinárias, para votar os projetos de leis guardados há muito tempo na gaveta. As discussões em torno do cadastro começaram em agosto de 2005. Em tempos de crise financeira, o assunto voltou à tona, esperando a tão aguardada votação.

“A aprovação do Cadastro Positivo traz, para os bancos, um poderoso instrumento de diferenciação dos clientes”, ressaltou Alexandre Bassoli, ex-economista-chefe do banco HSBC no Brasil. Com informações a respeito de cada cliente, o banco teria condições de diminuir a taxa de juros aplicada nos empréstimos. “Essa mudança institucional permite maior eficiência do sistema financeiro”, garantiu.

As recentes reduções consecutivas da Selic permitiram que o Brasil deixasse o posto de maior juro real, descontando a inflação prevista para os próximos doze meses, do planeta. O Copom (Comitê de Política Monetária), ligado ao Banco Central, estabeleceu os juros reais em 5,8% ao ano. De acordo com o relatório Focus, divulgado pelo BC, a expectativa do mercado é de que, até o fim do ano, a taxa básica fique ainda menor.

A nova situação permite a queda do spread bancário, a diferença entre aquilo que o banco gasta para captar recursos e os juros cobrados para emprestar aos seus clientes. No entanto, os bancos alegam que precisam se resguardar da taxa de inadimplência trazida pelos maus pagadores. Sem informações suficientes para separar o joio do trigo, os juros são mantidos em patamares elevados.

“Caso os congressistas aprovem, os bancos terão a chance de classificar como risco baixo empréstimos para clientes confiáveis”, disse William Eid Jr., coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). O maior benefício está na possibilidade de acessar os financiamentos anteriores de cada cliente. “O caráter do sujeito pode ser perfeitamente medido pelo histórico de pagamentos”, finalizou.

As instituições bancárias possuem um banco de dados de seus clientes. Através dele, elas percebem quais as características financeiras de cada um. “A relação de longo prazo com um banco permite que a instituição tenha acesso às condições de crédito do cliente”, disse Bassoli. As informações são sigilosas e não são compartilhadas pelos bancos. “A chegada do cadastro quebrará o monopólio das instituições sobre os dados dos clientes. O mercado inteiro terá acesso a esse conhecimento”, concluiu.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

quarta-feira, 6 de maio de 2009

REPORTAGEM

Juros mais baixos da história beneficiam consumidor
Por outro lado, a queda dos juros traz problemas para o governo. A poupança passa a concorrer em pé de igualdade com os títulos públicos.

BRUNO TORANZO

O Copom (Comitê de Política Monetária), ligado ao Banco Central, reduziu os juros básicos da economia em um ponto percentual na última quarta-feira (29). A decisão, ainda motivada pelos efeitos negativos da crise sobre a produção e o consumo, derrubou os juros para 10,25% ao ano, a menor taxa da história. Com juros menores, o consumidor tem acesso ao crédito facilitado, através de financiamentos mais baratos e maior tempo para honrar as prestações.

De acordo com ranking elaborado pela consultoria UpTrend, o Brasil deixou de ser o país com maior juro real do planeta, quando a inflação é descontada. Agora, os brasileiros estão na terceira posição, atrás dos vice-líderes húngaros e dos líderes chineses.

Para Marcos Crivelaro, consultor em finanças e professor da FIAP (Faculdade de Informática e Administração Paulista), a diminuição, desde que os juros sejam mantidos como estão pelos próximos meses, cria uma nova mentalidade nos consumidores. “O financiamento a longo prazo, com muitos meses para pagar, é melhor incorporado ao apertado orçamento das famílias. Essas condições convocam as classes baixas ao consumo”, concluiu.

Apesar dos bons ventos trazidos pela mudança dos rumos da política monetária, o governo está preocupado. Em meio ao cenário de queda, os investimentos nos títulos públicos, que financiam a dívida brasileira, saem prejudicados. Os próprios investidores passam a demonstrar interesse pela poupança. “O governo vai ser obrigado a mexer na rentabilidade da poupança. Esse investimento tem de se adequar à nova situação econômica”, analisou Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios.

Por ser uma medida impopular, já que a maior parte dos brasileiros deixa o dinheiro na poupança, o presidente Lula está adiando qualquer resolução. Os reflexos da crise econômica na contração dos empregos e na queda da renda média do cidadão afetaram a outrora imbatível popularidade. “A oposição já está com o discurso preparado para acusar o governo de prejudicar a poupança”, disse Leite.

A caderneta de poupança tem uma rentabilidade fixa de 6% mais a taxa referencial, que varia entre os bancos, por ano, além de não receber nenhuma incidência de impostos. Já o retorno dos títulos públicos segue o desempenho da taxa básica de juros, só que existe cobrança do imposto de renda. Quanto maior esses juros que incidem sobre a dívida pública do governo, melhor para aqueles que apostaram nos títulos.

Se a Selic continuar em descendente até atingir o patamar dos 8%, a conservadora poupança se tornaria, em todas as situações, mais rentável que os títulos públicos. Uma das soluções em discussão para não prejudicar as contas do governo é estabelecer um limite de investimento para a poupança. “O valor máximo dos depósitos não deveria ultrapassar os R$ 100 mil, valor equivalente à renda do pequeno investidor”, sugeriu Crivelaro.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

quarta-feira, 29 de abril de 2009

REPORTAGEM

Construção civil espera crescimento de 8% com corte do IPI
A redução do imposto que incide sobre a produção industrial também derrubou os preços dos produtos e levou os consumidores às compras.

BRUNO TORANZO

Cerca de trinta produtos da lista de materiais de construção estão de 5% a 8% mais baratos desde o final de março. O cimento, por exemplo, teve o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) zerado. A queda dos preços fez com que os consumidores aproveitassem para adiantar a reforma da casa.

“Esperamos para o mês de abril crescimento de 8% no faturamento das lojas”, disse Cláudio Conz, presidente da Anamaco (Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção).

Com o lançamento do programa federal de moradia popular “Minha Casa, Minha Vida”, que promete um milhão de habitações, o setor espera crescimento de 5% no faturamento de 2009. No primeiro bimestre do ano, antes das medidas de alívio fiscal, houve queda de 12% no volume de vendas. Além do estímulo do governo, segundo Conz, existe uma forte demanda reprimida no país. “A porcentagem de 67% das casas brasileiras precisa de alguma reforma. Temos de aproveitar todo esse potencial”, destacou.

A perda de arrecadação do governo federal, entre os meses de janeiro e março, chegou a R$ 6,46 bilhões. Mesmo com os efeitos da crise, o alívio fiscal foi o grande responsável pela queda. Apenas com o benefício concedido ao setor automobilístico, o governo deixou de ganhar R$ 1,1 bilhão.

Esse cálculo não leva em consideração as desonerações sobre materiais de construção e eletrodomésticos de linha branca. Ambas só terão efeito real nos resultados do segundo trimestre. O orçamento sofrerá impacto ainda maior.

“A redução do IPI, acompanhada do oferecimento de linhas de crédito facilitadas pelos bancos do governo, mostrou-se uma estratégia fiscal acertada em tempos de crise”, elogiou Pedro Galdi, analista de investimentos da SLW Corretora.

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) pode ser utilizado pelo governo como instrumento de empréstimos a juros subsidiados. Na semana passada, o banco estatal anunciou socorro aos governos estaduais. O valor oferecido chega a R$ 4 bilhões aos 27 estados da federação.

Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de política econômica do governo Sarney, defende o caráter temporário do imposto reduzido, uma medida emergencial em dias de tormenta. “Os bens duráveis, como carros, eletrodomésticos e materiais de construção, são muito sensíveis à queda da demanda trazida pela crise econômica”, definiu. Para Belluzzo, existe dúvida se a diminuição provocaria os mesmos efeitos em outras atividades. “Em alguns setores, como têxtil e alimentação, a queda do preço final não é garantia de aumento da demanda”, concluiu.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

quarta-feira, 15 de abril de 2009

REPORTAGEM

Mudança no BB esquenta debate sobre função dos bancos públicos
A demissão do presidente do Banco do Brasil mostrou que o governo, por meio da pressão pelo corte dos juros, defende o papel social.

BRUNO TORANZO

A demissão do presidente do Banco do Brasil, Antonio Francisco de Lima Neto, orquestrada pelo governo, na última quarta-feira (25), levantou polêmica em relação à função dos bancos públicos. O desligamento de Lima Neto ocorreu pela relutância em diminuir os juros cobrados nos empréstimos.

No ano passado, o BB registrou lucro de R$ 8,8 bilhões, resultado jamais atingido por um banco brasileiro. Em meio à crise econômica, o banco conseguiu aumentar suas receitas em 74%, na comparação com 2007. Com a saída de Lima Neto, o governo opta pela função social, por meio de empréstimos mais baratos, em vez de privilegiar o faturamento e a posição que a instituição ocupa no mercado.

O economista-chefe do banco ABC Brasil, Luís Otávio Leal, lembra que o Banco do Brasil não é completamente estatal. “O BB tem, sim, responsabilidade com os acionistas minoritários. Mesmo que o governo tenha a maioria das ações, não pode deixar a preocupação com o lucro de lado”, disse.

Para Leal, o governo tem o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), além da Caixa Econômica Federal, para realizar a chamada política de subsídios, através do oferecimento de crédito barato. “Com a demissão do presidente Lima Neto, o governo coloca em xeque a eficiência de sua política econômica”, finalizou.

De acordo com pesquisa realizada pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), divulgada na semana passada, a taxa média anual de juros, na modalidade pessoa física, chegou a 60,4% em 2008. Enquanto isso, nos Estados Unidos, os bancos cobram 13,96% e, na Europa, 6,38%. Como resultado, os brasileiros pagam quase dez vezes mais juros do que os europeus.

O mesmo estudo revelou que o BB, dentre os grandes bancos brasileiros, já possui, nos empréstimos pessoais, a menor taxa de juros reais, quando a inflação é descontada. Levando em conta a primeira semana de abril, o Banco do Brasil cobrava 25,05% de juros anuais, enquanto o Itaú pedia 63,25% de seus clientes. O espanhol Santander, com a cobrança de 55,74%, também apareceu no levantamento.

“A função do banco público está relacionada ao fomento da produção. Essas instituições não podem simplesmente buscar a maximização dos lucros”, disse Paulo Sandroni, professor da Escola de Economia e Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP).

Nos últimos anos, segundo Sandroni, o setor bancário passou por uma série de fusões e aquisições. Tal processo enfraqueceu o sistema de concorrência, diminuindo as opções do consumidor, o que abriu um campo favorável para o aumento dos juros. “A derrubada do presidente do BB representa uma tentativa do governo de pressionar as instituições para derrubar os juros”, afirmou.

O economista Luiz Gustavo Medina discorda da política do governo na diminuição do custo do crédito. Medina cita o Cadastro Positivo, que aguarda aprovação do Congresso, como um passo importante para reduzir o spread bancário, a diferença entre o que o banco gasta para captar dinheiro e os juros cobrados para emprestar. Quanto mais o banco gastar na captação, maior será a taxa de juros que chegará ao consumidor.

“Além do Cadastro Positivo, com a separação entre os bons e maus pagadores, o governo faria sua parte com o alívio na tributação sobre os bancos. Ainda há muito o que fazer antes de pressionar as instituições”, opinou Medina.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

terça-feira, 7 de abril de 2009

REPORTAGEM

Venda de caminhões despenca mais de 16% no primeiro trimestre
Em março, alta de 33,54% nos emplacamentos de caminhões garantiu desempenho satisfatório.

BRUNO TORANZO

Mesmo com a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), as vendas de caminhões, nos três primeiros meses do ano, amargaram queda de 16,62%, em relação ao primeiro trimestre de 2008. Os números foram divulgados, na última sexta-feira (3), pela Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores). Ao considerar o mês passado, na comparação com fevereiro, o setor registrou aumento de 33,54%.

“O faturamento das empresas de transporte caiu 30% no primeiro trimestre deste ano”, lamentou Newton Gibson, vice-presidente da CNT (Confederação Nacional do Transporte). Com a produção industrial em queda, os caminhões não têm o que transportar. Como resultado, as transportadoras adiam o desejo de renovar ou aumentar a frota.

Para piorar, o aperto da crise econômica provocou retração dos investimentos públicos. Segundo Gibson, o governo diminuiu a velocidade das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), voltadas para a expansão da infraestrutura, que demandam esforços do setor logístico. “Estamos encaminhando um pedido de ajuda ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) como forma de impedir uma onda de demissões”, disse.

Roberto Nasser, diretor-comercial de uma rede de concessionárias de caminhões, sediada em Santo André, discorda que o ambiente de negócios esteja desfavorável. “Desde janeiro, sentimos melhora nas vendas. O desempenho já está acima daquele verificado em 2007”, revelou.

Além da atuação do governo, Nasser destaca os financiamentos mais baratos concedidos pelos bancos das montadoras. Ainda assim, a possibilidade de diminuir o preço, através da margem deixada pela redução do IPI, mostrou-se o grande fator facilitador. “A redução de 5% no preço final dos caminhões atraiu os clientes”, finalizou.

Já para os automóveis, o alívio fiscal não deixou dúvidas. Foram vendidos 527.867 carros no primeiro trimestre, alta de 3,30% em relação ao mesmo período do ano passado. Quando se levam em conta os veículos, ou seja, automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, motos e implementos rodoviários, o balanço é ainda melhor. O emplacamento de 418.435 veículos bateu recorde para um mês de março. Em comparação com fevereiro, houve crescimento de 34,05%.

Os resultados positivos fizeram com que o governo prorrogasse a perda de arrecadação até o final de junho. Só que dessa vez motocicletas, por meio da isenção da COFINS (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), e materiais de construção, com a diminuição do IPI nos moldes dos automóveis e caminhões, também serão contemplados. Para compensar a diminuição no orçamento federal, houve aumento dos impostos para a indústria do cigarro.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

quarta-feira, 1 de abril de 2009

REPORTAGEM

Entenda o Plano Nacional de Habitação
O programa prevê investimentos bilionários para diminuir a falta de moradias no país.

BRUNO TORANZO

Um investimento de R$ 34 bilhões na construção de um milhão de moradias. O Plano Nacional de Habitação, divulgado pelo governo federal na última quarta-feira (25), não define prazo para a conclusão da meta. O presidente Lula, em seu programa semanal de rádio, disse, na segunda (30), que o tempo depende da competência dos empresários e da agilidade da Caixa Econômica Federal na liberação dos financiamentos.

Chamado de “Minha Casa, Minha Vida”, o programa tem por objetivo diminuir o déficit habitacional, ou, em outras palavras, a falta de moradias. De quebra, o investimento contribui para o reaquecimento da construção civil, setor que utiliza grande quantidade de mão-de-obra, além de ter presença fundamental na composição da economia do país.

De acordo com pesquisa realizada pela Fundação João Pinheiro, ligada ao governo de Minas Gerais, em parceria com o Ministério das Cidades, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Brasil carecia de oito milhões de residências no ano de 2006, sendo que 90,7% estavam concentradas na faixa de renda de até três salários mínimos, o equivalente a R$ 1.395. Mesmo desatualizado, o levantamento é considerado referência pelo governo e setor imobiliário.

“O déficit no estado de São Paulo está por volta de dois milhões de moradias”, calculou Mauro Peixoto, consultor-adjunto da Embraesp, consultoria imobiliária que atua no mercado paulista, utilizando como base os números da pesquisa da fundação mineira.

As grandes ondas migratórias para a região Sudeste, ocorridas durante o período de industrialização, criaram um enorme contingente de famílias sem moradia adequada. Como forma de resolver o problema, estados e municípios passaram a desenvolver programas voltados para a construção de habitações populares.

No estado de São Paulo, a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), por meio do programa “A Casa é Sua”, possibilita que o mutuário, obrigatoriamente incluído na faixa de renda entre um e dez salários mínimos, financie o imóvel ao longo de 25 anos.

A proposta do governo é complementar as atuações das esferas estadual e municipal na construção de novas moradias. As famílias com renda de até três salários mínimos pagarão uma prestação simbólica de R$ 50 por um imóvel com cerca de 40m².

Através dos processos de licitações, as construtoras serão convocadas a participar. Para que os empresários se sintam encorajados a investir em empreendimentos populares, Peixoto defende a concessão de incentivos pelo governo. “Só subsídios, aliados a leis favoráveis, tornam rentáveis a construção de moradias populares”, opinou.

Junto ao Plano, o governo divulgou o aumento do limite do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) que poderá ser utilizado no financiamento de um imóvel. O valor passa dos atuais R$ 350 mil para R$ 500 mil. A classe média, com renda superior a dez salários mínimos, o equivalente a R$ 4.650, poderá se beneficiar do novo teto estipulado.

Consumidor deve ficar atento


Ainda existe indefinição em relação aos terrenos que serão utilizados para a construção dos imóveis. Nas grandes cidades, a disponibilidade de áreas livres é menor. “É um engano pensar que os imóveis de baixa renda não precisam de eficiente infraestrutura”, afirmou Peixoto.

O desafio do setor imobiliário, ainda para o consultor, é construir em regiões próximas aos meios de transporte público, fundamentais para a movimentação dos moradores de baixo poder aquisitivo.

Com tantas incertezas, o consumidor deve ficar atento com os contratos oferecidos pelas construtoras. “Antes de assinar, o futuro mutuário tem de verificar a existência de planta aprovada pela Prefeitura”, aconselhou Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Pro Teste, associação de defesa ao consumidor. A existência da planta é uma indicação de que o terreno foi aprovado pelas autoridades responsáveis.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

quinta-feira, 26 de março de 2009

SAIU NA IMPRENSA

“Temo, no entanto, que a alternativa – adequar o setor público à recapitalização – também se provará impossível. A provisão de dinheiro público aos bancos é inaceitável para um público furioso cada vez maior, enquanto a propriedade do governo sobre os bancos recapitalizados é inaceitável para os ainda influentes banqueiros. Isso parece ser um impasse.”

“A conclusão é deprimente. Ninguém tem confiança de que os Estados Unidos já têm uma solução funcional para o desastre bancário. Ao contrário, com um público furioso, um Congresso na linha de guerra, um presidente tímido e uma política do governo que depende da habilidade em colocar dinheiro público em instituições subcapitalizadas, os Estados Unidos vivem um impasse”.

Trechos do texto “Successful Bank Rescue Still Far Away”, de autoria do jornalista britânico Martin Wolf, que trabalha no jornal “Financial Times”.

“A crise econômica costuma polarizar o debate político. Usar dinheiro dos contribuintes para salvar instituições financeiras cujos banqueiros recebem bônus, enquanto deixam um punhado de vítimas na economia real, será um desafio para os políticos explicarem. Esclarecer a política econômica, encontrar soluções de longo-prazo com credibilidade e prover oportunidades igualitárias aos cidadãos são precondições para alcançar um bom futuro para todas as economias de mercado”.

Trecho do texto “A New Era of Accountable Capitalism”, de autoria do ministro da Economia da Alemanha, Karl-Theodor zu Guttenberg.

SARCASMO DA QUINTA

FONTE: Time.

terça-feira, 24 de março de 2009

REPORTAGEM

Queda de juros é mecanismo eficiente contra crise, afirmam economistas
Especialistas defendem a redução da taxa básica para recolocar o Brasil no caminho do crescimento.

BRUNO TORANZO

O Banco Central já enxerga ausência de expansão econômica neste ano. Com a divulgação, na segunda-feira (23), do relatório Focus, que considera a opinião dos analistas do mercado, o BC calcula crescimento de 0,01% do PIB (Produto Interno Bruto). A retração de 3,6%, verificada no último trimestre de 2008, fez com que o Brasil fechasse o ano passado com crescimento de 5,1%, um patamar de respeito, mas abaixo das expectativas.

“O instrumento básico para combater a crise é a rápida diminuição da taxa de juros”, definiu Rogério Mori, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). A última reunião do Copom, comitê do Banco Central que decide sobre o futuro dos juros, derrubou a taxa básica para 11,25%. “Enquanto os países desenvolvidos estão com juros próximos a zero, o Brasil tem a vantagem de possuir uma taxa de dois dígitos para cortar”, opinou Mori.

Quando a atividade econômica esfria, o resultado imediato é uma postura de conservadorismo dos empresários. A ordem passa a ser controlar gastos. O último mês de dezembro registrou o maior número de demissões da história. Um saldo negativo superior a 650 mil pessoas.

Em fevereiro, apesar da leve melhora, com a criação de 9,1 mil postos de trabalho com carteira assinada, não há motivos para comemorações. A indústria da transformação, por exemplo, continua demitindo: 56,4 mil pessoas perderam o emprego.

Durante uma crise econômica, a primeira medida das autoridades monetárias é derrubar a taxa de juros. Em tese, com juros menores e financiamentos mais baratos, os empresários voltam a investir na ampliação do sistema produtivo. Quanto maior a capacidade de produção, maior também será o número de trabalhadores necessários para dar conta. Esse é o ciclo que faz a economia girar, o que mantém o funcionamento do próprio capitalismo.

Mas os efeitos positivos da queda dos juros não são imediatos. “O tempo padrão para que a economia sinta os efeitos varia de quatro a seis meses”, disse Antonio Corrêa de Lacerda, professor de economia da PUC-SP. Isso porque o mercado tem que se acostumar às novas regras de crédito. Para que isso aconteça, os bancos precisam tomar a dianteira com a redução dos juros nas operações de empréstimo.

Francisco Funcia, economista e professor da Universidade de São Caetano do Sul (USCS), reconhece a importância da taxa de juros para o reaquecimento da economia. Porém, disse que somente uma conjunção de fatores vai levar o país à recuperação. “Ao lado da queda dos juros, é importante que o investimento público seja feito, por meio das ações do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)”, defendeu.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

quarta-feira, 18 de março de 2009

REPORTAGEM

Crescimento das vendas no varejo divide opinião de economistas
Para especialistas, apesar da melhora nos indicadores, o momento ainda é de incerteza econômica.

BRUNO TORANZO


Os números do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgados na última sexta-feira (13), vão na contramão dos intensos efeitos negativos que a economia brasileira vem passando nos últimos meses. O desempenho do varejo, em janeiro, teve alta de 1,4% na comparação com dezembro. Em relação ao mesmo mês do ano passado, houve crescimento de 6%.

As vendas de automóveis e atividades relacionadas, como o mercado de peças e acessórios, apresentaram o melhor resultado (11,1%), ainda em comparação com dezembro. A diminuição do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para os carros novos atraiu os consumidores para as concessionárias.

Atrás dos veículos, o comércio de livros, jornais, revistas e papelaria registrou alta de 7,6%. O retorno às aulas, período marcado pela compra de material escolar, fez com que a porcentagem alcançasse o segundo lugar. Na terceira posição, com expansão de 7,1%, a pesquisa do IBGE aponta os móveis e eletrodomésticos.

"Esses números do varejo são uma indicação de que a economia parou de cair. O primeiro trimestre de 2009 será melhor do que o anterior", disse Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC de São Paulo. Para Corrêa, com a diminuição da taxa de juros, o governo tem mais dinheiro para ampliar os investimentos públicos. "A queda da taxa básica de juros diminui o custo de financiamento da dívida do país", observou.

A professora da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Eliana Cardoso, ex-economista do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), não analisa o desempenho do varejo como o início de uma recuperação da economia. "Fica muito difícil apontar um fator isolado como indício de recuperação. A maioria dos indicadores ainda é muito ruim", afirmou.

Eliana garante que a redução da taxa de juros, ocorrida na metade da semana passada, não fará milagre. "A diminuição drástica do crédito externo atrapalha demais. Reverter essa situação não depende das autoridades brasileiras", explicou. Antes do início da crise financeira, as empresas brasileiras conseguiam, com mais facilidade, financiamento externo.

O comerciante Eduardo Figueiredo conta como foi afetado pelas dificuldades trazidas pela instabilidade econômica. Dono de uma revistaria em Santo André, Figueiredo está insatisfeito com os três primeiros meses do ano. "Até agora, em março, tive queda de 20% das vendas", disse.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

sábado, 14 de março de 2009

Mercado Verde

Uma visão da feira além dos eternos protótipos
POR Bruno Toranzo

Fora os carros inéditos, também encontrados no estande da Volkswagen, o visitante pode descobrir uma idéia simples, mas eficiente, ainda relacionada ao setor automobilístico (não deixe de ler a publicação anterior). Apelidado de Start/Stop, a engrenagem possibilita economia de combustível ao motorista e consequente redução da emissão de dióxido de carbono de até 8%.

Quando o carro para, no semáforo ou no trânsito, o sistema identifica e, em questão de segundos, desliga automaticamente o motor. Se o motorista quiser andar novamente, basta acionar a embreagem para voltar a ligar o motor. Os europeus já podem adaptar seus carros com esse recurso. Os brasileiros terão de esperar.

A construção sustentável virou realidade fora do Brasil. Por aqui, está começando. As “ilhas de calor”, lugares específicos da cidade com temperaturas superiores à média, podem ser reduzidas com os chamados empreendimentos ecoeficientes. Sem falar da contribuição estética trazida pelo modelo eco: os prédios deixam de ser aqueles monstros negros que dominam a paisagem cinza da cidade.

O simples ato de pintar o telhado de branco gera redução da temperatura do edifício, fazendo com que as pessoas utilizem menos o ar condicionado. Produzimos um link, termo técnico da televisão usado para designar o momento da entrada ao vivo, para um dos telejornais da Globo News sobre o assunto. Em países tropicais, de calor intenso, a utilização de cores claras na pintura das paredes externas também ajuda a reduzir a temperatura média do ambiente.

O planejamento ecoeficiente leva em conta todas as questões referentes à melhora da relação do homem com a natureza. Isso começa com a escolha de materiais que não prejudiquem o meio ambiente. A infra-estrutura das instalações utiliza coletores solares de energia, sistema próprio de geração energética, além do desenvolvimento de um padrão de iluminação de alto rendimento.

Um estudo da consultoria Roland Berger revela que, durante a próxima década, a expectativa de crescimento do mercado verde ficará em 6,5% ao ano. Em 2020, o novo setor deve atingir um volume total financeiro de US$ 4 trilhões. Como se pode perceber, o sustentável virou um grande negócio.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Indústria Automobilística

Vitória parcial do petróleo
POR Bruno Toranzo

Nos dois dias anteriores, estive concentrado na cobertura da Ecogerma 2009, uma feira de negócios voltada para a responsabilidade ambiental, promovida pela Câmara de Comércio Brasil-Alemanha. Diversas empresas, em setores variados, desde o químico, passando pelo automobilístico, até o alimentício, estiveram presentes no Expo Center Transamérica, em São Paulo.

Os estandes da indústria automobilística revelam a preocupação dos executivos quanto à viabilidade das atividades no futuro. Com dias difíceis trazidos pela crise, o setor foi obrigado a repensar a forma de produzir. Para receber as bilionárias ajudas do governo americano, as montadoras têm de diminuir o nível de poluição, bem como encontrar soluções para reduzir o consumo de petróleo.

Medidas que foram adiadas por anos. Investir em pesquisa de novas tecnologias não é tarefa fácil. Consome milhões de dólares. E muitas vezes a alternativa mais eficiente encontrada esbarra na questão do lucro. O mercado já conhece o melhor caminho, mas o retorno financeiro não é suficiente para bancar a produção em série.

Por essa razão, as montadoras costumam lançar protótipos. Uma unidade que sirva de exemplo para o mundo inteiro. Em época de discussão ambiental, nada mais previsível do que criar um carro que obedeça todos os requisitos de respeito ao meio ambiente.

Os executivos sempre dizem que a idéia é de produzir em série após uma fase inicial de testes. Período que, na maior parte dos casos, nunca chega ao final. A Audi, por exemplo, expôs o modelo A1 na Ecogerma. O objetivo é colocá-lo no mercado até 2014. Quem passa despercebido pelo estande da montadora, fica impressionado com a beleza do carro.

Mas não se trata da característica mais atrativa dele. O diferencinal está na matriz energética. Através da eletricidade, armazenada na bateria de lítio, o carro consegue circular por até 100 km. Basta que o motorista deixe o veículo ligado à tomada de casa por aproximadamente três horas, tempo suficiente para carregar a energia, da mesma maneira como fazemos com o celular.

Há muito tempo, insistimos na necessidade de automóveis que utilizem fontes alternativas de energia, consideradas limpas, com destaque para a eletricidade, para o hidrogênio e para a geração solar. Afinal de contas, os escapamentos veiculares são um dos maiores emissores de dióxido de carbono, um dos gases responsáveis pelo aquecimento global.

Resta saber se os pacotes temporário recheados de dólares de Obama e, em menor quantidade, da União Europeia, como forma de combater a crise, vão se sobrepor aos interesses da indústria do petróleo, consolidada e atuante até mesmo nos rincões do planeta.

Só para alertar o leitor: o protótipo da Audi conta com um segundo tipo de motor, movido à gasolina. De acordo com o executivo, a existência dele aumenta a potência do carro em situações que possibilitem ao motorista pisar fundo no acelerador. Resultado temporário do embate: vantagem para os interesses do petróleo, placar de um a zero para as petrolíferas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

SARCASMO DA QUINTA

FONTE: The Economist.
(clique sobre a imagem para visualizar com nitidez)

quarta-feira, 11 de março de 2009

REPORTAGEM

Intercâmbio de estudantes brasileiros cresce 30% em 2008
Países da América do Sul são opções mais baratas diante da crise global.

BRUNO TORANZO

Agências de viagem, nacionais e estrangeiras, reuniram-se no Salão do Estudante, no último fim de semana (7 e 8), em São Paulo, para apresentar ao público seus pacotes de intercâmbio. Segundo levantamento do salão, 140 mil pessoas fizeram intercâmbio em 2008, um aumento de 30% na comparação com o ano anterior. Apesar da situação econômica, as agências de viagem esperam resultados ainda melhores neste ano.

"Os viajantes estão trocando os destinos europeus pelos sul-americanos, cujos pacotes de estudos saem muito mais em conta", diz Luhana Madeira, gerente de marketing da BMI (Business Marketing International), empresa organizadora do Salão do Estudante.

Em vez de estudar espanhol, com duração de quatro semanas, em Madri, por R$ 4.500, o estudante pode escolher Buenos Aires, por exemplo, mantendo as mesmas características do curso, e diminuir a conta para R$ 2.370. Uma economia superior a R$ 2.000. Os valores destacados não consideram os custos com passagem aérea. Além da vantagem de pagar menos, os países da América do Sul permitem uma adaptação rápida aos brasileiros por ter um modo de vida próximo ao nosso.

No resto do mundo, os destinos mais baratos são Austrália, Canadá, Irlanda e Reino Unido. A moeda deles se desvalorizou frente ao dólar desde a intensificação da crise. "Percebemos, na preferência dos jovens, uma troca de Estados Unidos por Canadá. As atrações canadenses se consolidaram como uma das escolhas mais populares", revela Luhana.

Para aqueles que queiram viajar para alguns países da Europa, como Alemanha e França, além dos Estados Unidos, personagens envolvidos diretamente na crise, algumas precauções devem ser tomadas. A maior delas está na reserva de uma quantia maior de dinheiro para gastar durante a viagem. Se tiver de comer fora, opte pelos restaurantes que sigam o estilo por quilo. Dessa maneira, você escolhe a quantidade de comida e paga um preço justo por ela.

Quanto às sonhadas compras, o viajante deve fechar a mão nas duas primeiras semanas. Nada de comprar os famosos artigos da cultura local no começo da viagem. É preferível gastar com passeios a torrar o dinheiro com presentes. Deixe para comprar no final da estada, quando estiver certo de que fez tudo o que tinha para fazer.

A moradora de Santo André Andressa Guimarães viajou pouco antes de a crise estourar e sentiu, com o passar dos dias, os efeitos da explosão. "Fiquei na casa de uma americana. Ela comentava que as coisas tinham ficado difíceis", destaca Andressa. A viajante também percebeu algumas mudanças pelos lugares que passava. "Quando cheguei, a quantidade de mendigos era muito menor. A crise aumentou o número de pessoas sem casa", observou.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

quarta-feira, 4 de março de 2009

SOBRE A IMPRENSA

Não há regime democrático sem jornalismo de qualidade
POR Bruno Toranzo

Ao longo do documentário “A Revolução Não Será Televisionada”, percebem-se os interesses dos políticos, sejam eles chavistas ou oposicionistas, em se aproveitar da cobertura jornalística. Na Venezuela ou em qualquer outro lugar do mundo, o modo de pensar de parte da classe política é a mesma. Jornalista, para essa parcela, só serve para divulgar notícias positivas da administração. Apontar os erros jamais.

Há uma clara distribuição dos veículos de comunicação na Venezuela. Os cinco canais privados, como o documentário enfatizou, reproduzem o discurso da elite, contrária ao governo Chávez.

Por outro lado, o Canal 8 tem a programação completamente voltada para o governo. Existe até mesmo um programa conduzido por Hugo Chávez que conversa, por telefone, com os venezuelanos. Não existe, portanto, a mínima preocupação com imparcialidade e isenção. A imprensa existe como apoio das classes políticas. Uma forma de mostrar apenas o que interessa.

Com essa estrutura, a participação da imprensa em um processo de eleição ou de derrubada de um presidente fica muito mais nítida. O jornalismo deixa de desempenhar o papel de observador, através do olhar crítico apurado, para se tornar participante do processo.

A RCTV (Radio Caracas Televisión), por exemplo, principal rede de televisão oposicionista, fez campanha maciça para a queda de Chávez. O documentário destacou que personagens chavistas jamais apareceriam na programação de qualquer emissora privada. Um dos princípios norteadores da profissão de jornalista é ouvir todas as pessoas envolvidas em um problema, independentemente da opinião ou visão ideológica de cada uma delas.

No Brasil, um país com instituições políticas consolidadas, apesar da praga da corrupção ser uma constante ameaça, a relação entre jornalismo e política está em processo avançado de maturidade. Diferentemente da Europa, com alguns jornais de posição ideológica aberta para a sociedade, os brasileiros não têm preferência política. A exemplo dos Estados Unidos, a grande imprensa procura analisar o comportamento de todos os partidos.

O modo de fazer jornalismo tem, por conseqüência, diferenças profundas em relação ao venezuelano. A entrevista do senador peemedebista Jarbas Vasconcelos à revista Veja mostrou as características nefastas do partido aliado ao governo.

Jarbas afirmou que a estratégia do PMDB é não ter plataforma de governo. Não existe interesse do partido em lançar um candidato à presidência, já que a aliança com a situação permite que adquira importantes cargos federais. Tal posicionamento gera perpetuação no poder. As vitórias de Sarney, no Senado, e de Temer, na Câmara, deixam tudo isso muito evidente.

Seja como for, as más línguas dizem que o senador só aceitou falar, porque deseja se candidatar para o Executivo novamente. Ou seja, seria uma forma de se tornar uma espécie de “combatente dos marajás”, como Fernando Collor representou na campanha vitoriosa para presidente.

A dinâmica, no Brasil, é justamente essa. Os políticos só se avaliam quando existe um interesse maior por trás. Aconteceu o mesmo com Roberto Jefferson, então deputado federal do PTB. Só aceitou entregar todo mundo por ter sido o primeiro a cair.

Cabe ao jornalista filtrar as denúncias efetivamente importantes para a sociedade daquelas que visam tão somente a promoção política do denunciante. Quando a notícia tem relevância para a manutenção de um ambiente democraticamente estável, com o confronto de idéias, de forma pacífica, entre as classes sociais, os jornalistas precisam transmitir a informação. Deve-se deixar, em segundo plano, o autor da denúncia, visto que, em muitos casos, seu interesse maior não é beneficiar a democracia.

Veja, na publicação abaixo, a primeira parte do documentário.

VÍDEOS



FONTE: YouTube.

segunda-feira, 2 de março de 2009

REPORTAGEM

Investidor pessoa física chega a 33% dos negócios da Bovespa
Por outro lado, capital estrangeiro continua saindo.

POR Bruno Toranzo

Mesmo com a crise econômica, os investidores continuam apostando no mercado de ações. De acordo com os últimos números divulgados pela Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), a participação de pessoas físicas chegou a 33,46% do volume de transações, ou seja, compra e venda de ações, no primeiro mês de 2009. Isso significa dizer que um a cada três negócios realizados envolveu o investidor pessoa física.

“Esse aumento é uma tendência que vem de dois anos para cá. No entanto, apesar das campanhas de popularização do investimento em ações, o número de investidores ainda é pequeno”, afirma Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios. Em janeiro, existiam quase 538 mil contas de investidores comuns registradas na bolsa, sendo que 47% delas estavam no estado de São Paulo.

Quem está fora, tem vontade de entrar. É o caso do corretor de seguros Ary Beraldo de Oliveira. Morador do Bairro Assunção, em São Bernardo do Campo, Oliveira, como a maior parte dos brasileiros, deixa suas economias na poupança. “Gostaria de comprar ações para aproveitar as oportunidades que a crise traz”.

Se a participação nacional aumenta, a estrangeira está em queda. Desde a intensificação da crise, em setembro do ano passado, com a quebra do banco americano Lehman Brothers, o capital estrangeiro deixa o mercado brasileiro em busca de investimentos mais seguros, como os títulos da dívida pública americana.

“A crise mais forte fora do país fez com que os investidores estrangeiros tirassem o dinheiro daqui para honrar os compromissos lá fora”, diz Leite. Em janeiro, a debandada totalizou pouco mais de R$ 646 milhões, o que fez a participação cair para 34,10%. Quando comparada a 1994, primeiro ano de medição, a contribuição externa cresceu quase 13%.

Estima-se que o mês de fevereiro tenha apresentado melhor desempenho do capital estrangeiro na bolsa de valores. Segundo a assessoria de imprensa da Bovespa, os números atualizados serão liberados até o dia 6 de março.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

REPORTAGEM

IPI reduzido para automóveis termina no final de março
Indústria automobilística voltou a ganhar nos últimos meses

POR Bruno Toranzo

“Ao entrar na loja, os clientes perguntam se o preço do carro está levando em consideração o IPI baixo”, diz Marco Aurélio Cucolicchio, gerente de vendas de uma concessionária de Santo André. O governo reduziu a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados incidente nos automóveis zero quilômetro em dezembro do ano passado. Mas o desconto tem data para terminar: 31 de março.

Durante os meses de outubro e novembro, a indústria automobilística sentiu os efeitos da crise. A queda das vendas no mercado interno derrubou parte dos ganhos obtidos ao longo do ano. Como forma de amenizar o tombo, o governo tomou uma série de medidas de socorro, como a diminuição do IPI e a concessão de empréstimos para os bancos das montadoras.

A tabela da tributação foi reformulada. Os carros com motor até 1.0, gasolina, álcool e flex, ficaram isentos. Antes da mudança, tinham de contribuir com 7% do valor final. Para aqueles com motor até 2.0, movidos à gasolina, a taxação caiu pela metade, chegando aos 6,5%. Os automóveis de luxo, de potência superior a 2.1, de mesmo combustível, continuaram com alíquota de 25%. Já os de álcool e flex foram beneficiados em proporções parecidas.

“Como incentivo para a volta dos consumidores ao mercado, o novo IPI funcionou. Por essa razão, ele não pode acabar bruscamente”, defende André Beer, consultor e ex-vice-presidente da General Motors do Brasil. Segundo números da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos), dezembro apresentou recuperação de 9% das vendas. Em janeiro, nova alta, com mais de 197 mil veículos vendidos, aumento de 1,5% em relação ao mês anterior.

A alteração do imposto foi apenas um dos agentes que melhoraram as condições de venda dos automóveis. “Os bancos das montadoras diminuíram as taxas de juros e alongaram os prazos de financiamento”, lembra Francisco Funcia, professor da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. O Banco do Brasil chegou a emprestar R$ 4 bilhões aos bancos das montadoras.

O ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, quer que a redução continue por pelo menos três meses. Em troca, as montadoras se comprometeriam a manter o atual quadro de funcionários, sem demissões. Os dados atualizados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), na pesquisa de janeiro, mostram que o desemprego atingiu 8,2%, o maior patamar desde março do ano passado.

Para Carlos Alberto Bifulco, ex-presidente do Conselho Diretor do IBEF (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças) de São Paulo, a solução passa pelo corte dos tributos ligados à produção. “Em um cenário de grave crise econômica, existe espaço para diminuir imposto em todos os setores”.

De acordo com Bifulco, há uma demanda reprimida em alguns setores, com destaque para o automobilístico. “Um grande contingente de pessoas ascendeu de classe. Elas desejam comprar rapidamente carro e casa próprios”.

*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).