segunda-feira, 29 de setembro de 2008

ECONOMIA

O estrago do pacote que não veio
POR Bruno Victor Toranzo

Pregão interrompido. Por volta das três horas da tarde, a Bolsa de Valores de São Paulo teve de interromper, por trinta minutos, a sessão. Em mais um dia de estômago em processo avançado de corrosão, o investidor testemunhou um fato histórico. A queda, em um único dia, passou dos 10%. O mecanismo, chamado de "circuit breaker", também aplicado em outras bolsas do mundo, parou o pregão para evitar uma tragédia ainda maior.

A surpresa desagradável veio do Congresso americano. Os deputados americanos rejeitaram o plano anti-crise, orçado em 700 bilhões de dólares, considerado a esperança contra o monstro da instabilidade. Esse capital seria utilizado para retirar de circulação os chamados títulos podres – ativos hipotecários de alto risco de calote.

Com a anuência de Bush, havia certa unanimidade de opinião em relação à aprovação do plano. Restava saber quais regras seriam impostas para o setor financeiro. Os concorrentes presidenciáveis Obama e McCain afirmavam, mesmo timidamente, a necessidade do aporte bilionário. O ambiente de terror que envolvia Wall Street parecia estar com os dias contados.

No entanto, a imprensa não ouviu os cientistas políticos. Ou, se entrevistaram, foram aqueles estudiosos desinformados. A completa ausência de unidade política do Partido Republicano transpareceu em um período de proximidade das eleições presidenciais. Dentre os 228 votos contrários ao plano, exatos 133 vieram dos republicanos. No grupo dos democratas, “apenas” 95 fizeram a mesma escolha. Desde o começo da crise, é impossível saber o que o futuro, por mais próximo que seja, venha a reservar. Agora que a política resolveu entrar, de verdade, no jogo, a arte de prever foi para o buraco.

A expectativa se transfere para o Senado. Um novo projeto deve ser elaborado. Os republicanos e democratas devem se reunir novamente para conversar. Algumas mudanças talvez sejam incluídas. Cabe dizer que Europa e Japão estão cada vez mais enfraquecidos. É necessário que não somente os Estados Unidos ajam. Enfatiza-se que o mercado não se caracteriza pela paciência, ainda mais em tempos de urso faminto à solta.

Desempenho final do Ibovespa
O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, fechou o dia em 9,36% negativos. No ano, a desvalorização já chegou à casa dos 27%. Além de sofrer com a saída do capital estrangeiro, menos atraído pelo risco, a queda do preço das commodities prejudica as blue chips, com destaque para Petrobras e Vale.

O petróleo negociado em Nova Iorque, por exemplo, começou a sessão desta segunda-feira aos US$ 107,05. Com o encerramento dos negócios, o preço ficou em US$ 96,07. A variação de cerca de onze dólares para baixo está longe do normal: fruto da instabilidade reinante. O movimento recente do ouro negro acompanha a variação do dólar. Quanto mais forte a moeda americana, menor o preço da commodity.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

ECONOMIA

Por hora, Bernanke é o homem
POR Bruno Victor Toranzo

Com a saída da presidência de Alan Greenspan, depois de 18 anos à frente do FED, o Banco Central dos Estados Unidos, Ben Bernanke assumiu sem o devido rebuliço. A brilhante história de Greenspan, descrita em seu livro alguns meses depois, ofuscou a nomeação do não menos competente Bernanke, formado em economia pela conceituada Universidade de Harvard. O mercado estava em dúvidas, no começo de 2006, se o novo presidente tinha experiência suficiente para agüentar as surpresas do cargo.

No segundo semestre do ano passado, a instabilidade, gerada pelo setor hipotecário americano, começou a dar sinais de que poderia virar uma verdadeira crise global. Seria redundante explicar a tão comentada história do subprime, também conhecido como crédito de alto risco, empréstimo largamente concedido sem necessidade de comprovação de renda.

Esses créditos foram transformados em ativos, um processo chamado de securitização, para que fossem negociados com os chamados bancos de investimentos. O contágio não demorou. O vírus rapidamente se espalhou. Em alguns meses, o sistema todo estava infectado. A instabilidade virou uma crise de verdade. Há muito, a economia não vivia tempos difíceis. Era o início da prova de fogo para Bernanke, mesmo que ele ainda não pudesse calcular o inferno que estava por vir.

As variações positivas e negativas se mesclavam com o passar dos pregões. Foram vários dessa maneira. Alguns pensavam que não existia mais crise. Outros diziam que nunca houve uma crise. A preocupação, no entanto, continuava para o FED e as instituições sérias de análise.

E as últimas semanas mostraram a face da crise. Ela resolveu aparecer com força máxima. A preocupação tomou conta dos relatórios financeiros. Bernanke precisava agir e rápido. Para ser presidente do FED, não bastam conhecimentos macroeconômicos, incluindo a famosa teoria fundamentalista e o conhecimento técnico da área, é preciso uma boa dose de paciência e jogo de cintura para vencer as inúmeras dificuldades.

Ao lado do secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, a dupla dinâmica teve de lidar com uma Wall Street completamente enfraquecida, bem diferente do charme que sempre a envolveu. O pânico instaurado remetia à época da Grande Depressão, no fatídico ano de 1929. Uma parte, inclusive, chegou a comparar a crise atual com a passada. Ledo engano ou maldoso palpite. A distância é muito grande entre elas pelo seguinte aspecto: as autoridades financeiras “modernas” contam com uma série de mecanismos para controlar a crise e transformá-la, no máximo, em um período conturbado.

Munido desses ajustes, a dupla Ben e Henry, ao lado dos principais Bancos Centrais, com destaque para Europa e Japão, colocaram bilhões e bilhões de dólares para, primeiro, manter a liquidez dos mercados. Ou seja, o dinheiro do governo garantiria a continuação dos negócios. Paralelamente, uma série de empréstimos foi concedido para as cambaleantes instituições financeiras americanas.

Estratégia inicialmente criticada por alguns membros do partido democrata, que argumentavam a impossibilidade de usar dinheiro do contribuinte para arcar com erros cometidos pela ganância do próprio sistema capitalista. A ânsia de ganhar mais é característica inerente do capitalismo. Quanto mais der para lucrar, melhor. É por isso que a estipulação de regras, inibidoras dos exageros, precisam ser tomadas pelos governos. Espera-se que essa lição, ao menos, o setor financeiro tenha aprendido.

Por enquanto, o capitão Bernanke e, por conseqüência, os marinheiros Paulson e o restante das autoridades monetárias, estão se saindo bem. Resta saber se o problema não se mostrará maior que a capacidade deles resolverem. Mesmo com o alívio da situação da renda variável, os Estados Unidos vêem os índices econômicos piorarem a cada divulgação. O crescimento do PIB não consegue repetir o desempenho do passado recente. Naquela época, era impossível imaginar que os Estados Unidos se afundariam e, ao mesmo tempo, o Brasil trilharia firme e forte o caminho do desenvolvimento.

SARCASMO DA SEXTA


FONTE: Time.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

PARA REFLETIR

O futebol dos milhões
POR Bruno Victor Toranzo

A contratação de Robinho pelo Manchester City chamou atenção pelos bastidores do negócio. Vendido por cerca de 100 milhões de reais, o jogador da seleção brasileira deixou o poderoso Real Madrid para disputar o inglês em uma equipe considerada, no máximo, mediana.

Na primeira entrevista depois da conclusão da transação, o orgulhoso (será mesmo?) Robinho disse que o projeto ambicioso do novo clube para os próximos anos fez com que trocasse os campos espanhóis pelos gramados reais.

Essas intenções ambiciosas foram trazidas pelo fundo árabe de investimentos Abu Dhabi United Group. Levando o United do rival da cidade de Manchester no nome, o grupo virou de cabeça para baixo a rotina dos torcedores do City. Acostumados com derrotas vexaminosas nos últimos anos – o time esteve na terceira divisão inglesa – os torcedores estão extasiados com os planos mirabolantes de tornar o time azul o maior do mundo.

No domingo, dia 31 de agosto, Sulaiman Al-Fahim, uma espécie de maior investidor do grupo, gastou 247 milhões de euros para comprar o Manchester City de seu antigo dono, o antigo primeiro-ministro tailandês Thaksin Shinawatra. Vale lembrar que Shinawatra é acusado de corrupção e se exilou no Reino Unido para fugir da justiça de seu país.

Um dia depois, primeiro de setembro, o City fechou a contratação de Robinho, nas últimas horas permitidas para transferência. A rapidez do processo impressiona. De um dia para o outro, o antigo primo pobre de Manchester trocou de proprietário e, ainda, fechou com um dos jogadores mais requisitados do mercado. O alvo agora é o português Cristiano Ronaldo, craque do inimigo Manchester United e cogitado para ganhar a eleição de melhor do mundo, em uma transação que pode passar dos 165 milhões de euros.

Não é novidade o investimento de bilionários no futebol. O exemplo emblemático é do russo Roman Abramovich, proprietário do também inglês Chelsea. Quando chegou, causou, a exemplo de Al-Fahim, tremenda repercussão, inflacionando o preço dos jogadores. Depois de muito prejuízo, apesar dos títulos nacionais obtidos, a montanha de dinheiro aplicada conseguiu levar o Chelsea, na última temporada, à final da Copa dos Campeões da Europa. No entanto, o título não veio com frustrante derrota nas cobranças de pênaltis.

Os milhões de dólares, euros ou libras repentinos também conquistaram os corintianos. Por pouquíssimo tempo. A parceria com a MSI, fundo de investimentos nebulosos comandado por um iraniano misterioso, terminou como um triste episódio da história quase centenária corintiana.

Um futebol cada vez mais caro é a realidade dos novos tempos. Sem os milhões, independentemente de onde venham, fica quase impossível ganhar títulos. Se isso é bom ou ruim, não se pode dizer. Os torcedores do Manchester City nunca foram tão felizes.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

SARCASMO DA TERÇA


FONTE: Time.