O despertar para um novo mundo
POR Bruno Victor Toranzo
POR Bruno Victor Toranzo
Nunca havia vivido uma crise econômica de grande magnitude. Não é daquelas experiências que você aguarda ansiosamente para acontecer. Ninguém quer perder o emprego e ver sua renda sumir. O medo de perder a própria fonte de ganho envolve todas as classes sociais.
Quando a recessão chega ou os indícios apontam para sua chegada, as pessoas imediatamente pensam em 1929. Naquele ano e nos posteriores, o mundo, principalmente os americanos, viveu um pesadelo. Alguns dos importantes investidores optaram pela morte. Era melhor o suicídio a ver o valor dos ativos virar pó.
Vivemos, a exemplo do final da década de 20 e dos anos 30, um período repleto de incertezas. O vermelho se tornou a cor predominante dos índices econômicos. Os especialistas não conseguem projetar nem mesmo o dia de amanhã. Menos ainda o ano que marcará o final da crise. Claro que o estrago de hoje é muito menor, distante dos nefastos efeitos da Grande Depressão.
No entanto, aqueles anos de prosperidade, comuns para a nova geração, chegaram ao fim. A calmaria beneficiou os países pobres, agora chamados carinhosamente de emergentes, levando os indianos, os chineses e os brasileiros a ocupar relevância inédita. Com um mercado consumidor numeroso, essas três nações passaram a ser consultadas pelo seleto grupo dos países desenvolvidos. Dessa vez, a solução para a crise passa pela conversa com o restante. Há um início de preocupação para envolver o maior número de participantes em decisões importantes.
Nas décadas de 80 e 90, coisa de poucos anos atrás, o repressor FMI (Fundo Monetário Internacional) inundava de dinheiro as desesperadas nações emergentes. Para conseguir os empréstimos, os países seguiam uma série de regulações financeiras. O Brasil cumpriu as determinações à risca, o que gerou críticas de uma esquerda radical, representada pelo presidente Lula (na versão 89), sedenta pelo calote de qualquer dívida com organismos internacionais.
Hoje, em meio às discussões de falta regulatória no coração do capitalismo, os brasileiros podem se orgulhar da saúde de seu sistema financeiro. Os bancos, por exemplo, estão longe da alavancagem verificada em outros países. Já o sistema de depósito compulsório permite ao Banco Central controlar, de forma indireta, a capacidade do mercado de ofertar crédito.
Transformações ocorrem, é verdade. Mas o novo cenário que se apresenta causa enorme surpresa. A hegemonia dos grandes diminuiu e continuará em queda. Não há mais espaço para o controle de algumas poucas nações em detrimento do prejuízo de outras tantas. O unilateralismo americano foi definitivamente enterrado no final do ano passado. O problema das hipotecas, toda aquela história do crédito podre, enfraqueceu de vez seu poder controlador.
Os Estados Unidos serão obrigados a se adequar à nova mentalidade. A eleição de um presidente negro mostra, não somente o repúdio dos americanos à administração Bush, como a vontade de um representante universal. Ou seja, um presidente que recupere a imagem positiva americana do passado, quando os outros povos simpatizavam com a cultura do país (o famoso “american way of life”). Para isso, ajudará e muito o ingresso em acordos internacionais de respeito ao meio ambiente. Bem diferente da postura republicana adotada em relação ao Protocolo de Kyoto.
O pensamento da hora prega a união. Os países em desenvolvimento, salvo exceções de rivalidades históricas entre povos, não enfrentam grandes dificuldades de atuar em conjunto. Mesmo os governantes considerados populistas e autoritários, como o venezuelano Hugo Chávez, o boliviano Evo Morales e até mesmo o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, podem ser convencidos a colaborar depois de uma boa conversa, a velha e importante diplomacia, que andava ausente das mesas de negociação desde o fim da Guerra Fria.
Somente com essa mesma unidade, a crise econômica será vencida. Posteriormente, será imprescindível organizar uma nova maneira de produção, com respeito ao meio ambiente e às características individuais de cada povo. A exemplo do que está ocorrendo, com a aplicação de trilhões no mercado, o governo deve continuar participando ativamente do sistema. Dessa vez, ao invés de colocar recursos, o Estado terá a missão de corrigir os inúmeros erros e contradições gerados pela atividade financeira.