segunda-feira, 15 de março de 2010

VIAGEM EUROPA

A essência europeia aflora nos meses de frio

POR Bruno Toranzo


Na temporada de frio, ainda mais durante o inverno rigorosíssimo deste ano, muitos simplesmente não têm coragem de partir para a Europa. Optam por realizar a viagem quando os dias de calor intenso, como esses que vivemos, viram realidade no Velho Continente. Através das melhores fotos que separei para publicar por aqui, vocês perceberam que não penso desse jeito.


É evidente que sinto frio como todo ser humano. Confesso que algumas manhãs foram especialmente difíceis para levantar. No inverno, a cama fica extremamente atrativa. Adormeço rapidamente. O sono é mais profundo. Para se proteger do frio que bate à porta, fico encolhido na beirada da cama com uma montanha de cobertores sobre o corpo. Só deixo o nariz e os olhos descobertos.


Na verdade, não posso dizer que enfrentei as noites de temperaturas baixas com esse arsenal de tecido. As casas europeias, assim como grande parte das outras edificações, contam com sistema de calefação. Trata-se de uma série de aquecedores que esquentam a água com a utilização de gás. O problema está no choque térmico, a diferença de temperatura de dentro para fora e de fora para dentro, algo que sentimos constantemente, impossível de evitar.


Em incontáveis vezes, acordei logo cedo, abri a cortina, e lá estava a neve. O branco dominava a paisagem. Os capôs dos carros perdiam a cor original. As lixeiras da rua deixavam de ser pretas. O próprio asfalto não conseguia resistir ao hegemônico branco. Nem mesmo os finos fios de alta tensão, responsáveis por levar a energia que fazia com que o aquecedor esquentasse a casa onde estava, eram poupados.


Ao conversar com os ingleses, eles mesmos diziam que o frio, materializado na neve matinal, determina o mau humor diário. Uma boa maneira de testar até onde consegue manter seu senso de humor é acordar, ao longo de uma semana, com uma temperatura muito próxima do zero grau, com frequência em patamares negativos.


Para não congelar, tive de criar uma maneira de me vestir. Ao contrário do nosso querido Brasil, país de temperaturas mais ou menos constantes, cujo tempo para se vestir, com exceção das mulheres preocupadas com a aparência, não passa de poucos minutos, os europeus, nessa época do ano, levam, no mínimo, cinco vezes mais. Como não tinha habilidade nos primeiros dias, era preciso ser paciente para conseguir vestir aquela quantidade enorme de roupa. Além das blusas, não se pode esquecer do gorro, das luvas, do cachecol e, se estiver nevando, da camisa e da calça térmicas por baixo de tudo isso.


Mas o tempo ruim não traz somente dificuldades. Os dias nublados, sejam eles chuvosos, nevosos ou os dois juntos, possibilitam prazeres. Para o meu paladar, o principal deles é, sem dúvida, o chocolate quente. Em Cambridge, a cidade que vive para a universidade, há, assim como no restante da Inglaterra, dezenas de cafeterias. Ao lado das gigantescas redes, como Starbucks e Costa, existem as pequeninas opções, consideradas charmosas e muito acolhedoras. Todas elas, gigantes ou pequeninas, têm uma peculiaridade: preparam o café e o chocolate quente, sem falar nas outras bebidas, como se fossem uma deliciosa sobremesa.


São servidos de forma generosa. Em uma grande caneca, você pode aproveitar o sabor aos poucos. Para isso, a colher com uma superfície de contato maior, diferente de qualquer outra, evita que caia no erro de se apressar para bebê-lo. Para acompanhar, por que não um cookie? Esses biscoitos, tradicionais entre os ingleses, são recheados com muito chocolate. A característica crocante é percebida em cada mordida. Há cookies com diversas frutas no meio da massa, com destaque para uva passa.


Os britânicos são leitores ávidos de jornais. Eles adoram lê-los nos momentos que degustam a bebida-sobremesa. As publicações mais populares são os tablóides. De forma geral, os jornais nesse formato fazem parte daquela imprensa que chamamos de sensacionalista ou apeladora. Durante o tempo que estive por lá, a notícia mais importante e impactante foi a respeito do escândalo protagonizado pelo jogador de futebol John Terry, o zagueiro da seleção inglesa e do Chelsea, clube de Londres.


Diariamente, os jornais escancaravam em suas nobres primeiras páginas detalhes sórdidos sobre seu caso extraconjugal. Ao sair com a mulher, uma tal de Vanessa Perroncel, do companheiro de seleção, o lateral-direito Wayne Bridge, Terry, também casado, enterrou sua reputação de “bom moço”, imagem que gozava frente à nação. Por causa do escândalo, Terry perdeu a braçadeira de capitão do time inglês.


O envolvimento das pessoas no assunto foi enorme. A repercussão, gigantesca. O jornal Daily Mirror, tão especialista nesse tipo de assunto quanto o mundialmente conhecido The Sun, lançou camisas de apoio aos dois jogadores. Assim, os leitores puderam escolher para qual jogador prestariam solidariedade. Os dizeres “Team Terry” ou “Team Bridge” foram estampados nas camisas. Para comprá-las, bastava acessar o site do jornal e gastar quase 50 reais em cada uma.


Não só de fofocas vive a imprensa britânica. Alguns títulos possuem uma enorme credibilidade, já que realizam coberturas memoráveis. O principal deles, bem como o que mais me identifiquei, foi o The Guardian. Em formato tablóide, de fácil manuseio, a publicação investe em grandes reportagens. Uma delas, “In God’s name”, discute se os dez missionários americanos batistas agiram de boa fé ao tentar levar mais de trinta crianças haitianas para fora do país logo depois do terremoto. E, acima disso, perguntam se qualquer pessoa, mesmo que tenha boas intenções, tem o direito de retirar crianças dos braços da sua família para levá-las a um mundo completamente diferente.


O frio também faz com que os esplêndidos museus europeus, não somente ingleses, fiquem lotados. É indescritível a emoção de estar próximo, com o rosto quase colado, às obras dos grandes pintores da nossa história. Quando digo “nossa história”, refiro-me ao mundo inteiro, sem distinção de povos, sem divisão de fronteiras.


A National Gallery é um desses lugares que não possuem nacionalidade. Mesmo que esteja na região central de Londres, perto da movimentada estação de metrô Charing Cross, não se pode dizer que a galeria de arte seja britânica. A diversidade de artistas, de várias nacionalidades, impressiona. Todos os períodos históricos da pintura são retratados em suas espaçosas salas. Desde os quadros datados do fim da época medieval, passando pelo século XVI, com destaque para os italianos Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Raphael, pelo XVII, com o holandês Rembrandt, até o período que vai do século XVIII ao começo do XX, com o francês Monet, o também holandês Van Gogh e o espanhol Goya. O visitante esquece do presente e viaja no tempo sem hora para retornar.


Em Amsterdam, a capital da Holanda, cidade conhecida pelo românticos canais, o museu dedicado a Van Gogh concentra grande parte de sua produção cultural. O brilhante artista holandês, em um espaço de apenas dez anos, deu vida a 800 pinturas, além de ter feito mais de mil desenhos. Theo, o irmão de Van Gogh, era um empresário. Ele comprava os trabalhos daqueles artistas que se destacavam, inclusive os quadros do irmão. Muitas vezes, o próprio Van Gogh indicava a compra das pinturas de alguns desses artistas em ascensão.


E não posso me esquecer de falar sobre os templos, as catedrais, as igrejas, construções formidáveis que possuem centenas de anos. A Catedral de St. Paul se destaca na paisagem londrina. Em uma área de prédios relativamente modernos, voltados para o mercado financeiro, a igreja não perdeu seu brilho. Muito pelo contrário: ela continua se destacando, como se estivesse na Londres sem arranha-céus de muitos anos atrás.


Por dentro, a catedral também chama a atenção pelo tamanho. As imagens religiosas são altas. Impressionam pela altura. Ao se aproximar, os ricos detalhes levam facilmente à interjeição de espanto. Foram trabalhadas cuidadosamente. Estou certo de que, a exemplo de qualquer outra obra-prima, a paciência é fundamental para atingir esse resultado. Alguns grandes nomes estão enterrados na catedral como o almirante Nelson que comandou a esquadra inglesa contra os franceses e espanhóis na Batalha de Trafalgar em 1805.


Por fim, destaco o templo da Sagrada Família em Barcelona. Projetada pelo arquiteto Antoni Gaudí, o mesmo autor do desenho da casa “La Pedrera”, outra construção-símbolo da cidade, “La Sagrada Família”, como chamam os espanhóis, tem um arquitetura singular. Admirador da natureza, Gaudí utilizava suas diversas formas, como a dos galhos secos e a do caracol, em tudo que construía. Como não pôde finalizar sua obra, o governo espanhol se encarregou dessa tarefa. Tudo está sendo feito conforme Gaudí planejou. Até o fim do ano, os espanhóis poderão assistir aos cultos, já que a reforma da parte interna estará pronta. Só em 2030, as obras terminarão, com a construção de mais algumas torres.


A Europa é antiga. Aonde quer que você vá, seu pensamento está em algum momento do passado. Pode-se dizer que seja difícil viver o presente. A história faz parte da vida do europeu, especialmente do britânico. A valorização dos antepassados, das suas origens, está na preservação das evidências. Para os turistas que, infelizmente, não vivem essa realidade de exaltação do passado em suas nações, vale a pena visitar os países europeus, especialmente durante os meses de frio. As temperaturas baixas criam uma atmosfera ainda maior de apreciação dos feitos de outras vidas.