POR Bruno Victor Toranzo
"Há mais de trinta anos não chove em São Paulo". Essas palavras estiveram entre as primeiras pronunciadas pelo intermediador Boris Casoy do debate pela prefeitura de São Paulo, realizado nos estúdios da Rede Bandeirantes de Televisão.
Em uma desatenção, o experiente jornalista trocou "dias" por "anos" e só conseguiu se desculpar pelo erro depois do atual prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, Gilberto Kassab, apresentar-se ao público. A noite de ontem serviu para dar aos eleitores a primeira impressão de cada pretendente ao cargo de gestor da cidade.
A ausência de chuva abriu o encontro para alertar sobre os altos índices de poluição. Desde o começo das medições, o mês de julho de 2008 foi o mais seco de todos os tempos. O índice pluviométrico paulistano apontou preocupante zero milímetro. Isso mesmo. Não choveu um pingo de água o mês inteiro. Quem tem doenças respiratórias, como a maldita rinite, sofre demais com esse ar poluído.
Ao lado do problema ambiental, as questões do trânsito, a exemplo da qualidade do transporte público, também receberam atenção especial. Vale a pena lembrar que a prefeitura restringiu, recentemente, o tráfego de caminhões na tentativa de aliviar os congestionamentos.
Para demonstrar a simpatia pela construção das ciclovias, possibilitando a substituição do uso do carro, a candidata do PPS Soninha Francine pedalou nove quilômetros para chegar ao compromisso eleitoral. Com as bochechas vermelhas e visivelmente cansada, a jornalista tentou disfarçar, diante das câmeras, o desgaste físico. Ficou claro que os aclives e declives paulistanos não permitem que façamos grandes distâncias com uma bicicleta.
O candidato Ivan Valente, do PSOL, defende o subsídio estatal na totalidade do valor das passagens do transporte coletivo. Apesar da nobre intenção do ex-petista, isso não tem chances de acontecer. Mesmo que Valente chegasse ao poder, ele não conseguiria colocar em prática tal medida. Não é possível, em termos de orçamento, que a prefeitura arque com o transporte a custo zero.
Ao mesmo tempo, Valente tem razão em dizer que as passagens estão caras. A passagem dos ônibus municipais custa dois reais e trinta centavos. A do metrô e dos trens chegam a dois reais e quarenta centavos. Os preços não são justificados quanto ao conforto para o usuário. Muito pelo contrário. As pessoas ficam amontoadas, quase sem espaço para respirar, nos ônibus, trens e metrôs da cidade.
Já Paulo Maluf aposta, outra vez, em um projeto faraônico. Batizado de "freeway", o candidato do PP pretende cobrir de laje, com seis pistas adicionais para as marginais, os rios Pinheiros e Tietê. Como lembrou Soninha, a conseqüência imediata seria o aumento da temperatura paulistana. Uma verdadeira catástrofe ambiental.
Os primeiros colocados das pesquisas, a petista Marta Suplicy, o tucano Geraldo Alckmin e o democrata Gilberto Kassab, disseram que investirão no sistema metroviário e construirão outros corredores exclusivos de ônibus na capital. O empresário Renato Reichmann, do PMN, seguiu a mesma linha de pensamento dos três anteriores.
A falta de ataques pessoais marcou o primeiro encontro entre os possíveis prefeitos. Mesmo assim, as discussões não passaram do "morno". Há de se ressaltar o tempo reduzido para cada candidato expor suas idéias. A quantidade elevada de presentes evitou que as propostas fossem melhores detalhadas.
Estratégia garantida, como de hábito, esteve na citação dos polêmicos números. Não há problema em mostrá-los para complementar a fala ou comprovar uma realização. A estranheza fica por conta deles nunca serem os mesmos entre os candidatos: quantos milhões em caixa cada partido deixou para o sucessor, por exemplo. Na política, lamentavelmente, a matemática não costuma seguir o princípio da exatidão.