Mudança no BB esquenta debate sobre função dos bancos públicos
A demissão do presidente do Banco do Brasil mostrou que o governo, por meio da pressão pelo corte dos juros, defende o papel social.
BRUNO TORANZO
A demissão do presidente do Banco do Brasil, Antonio Francisco de Lima Neto, orquestrada pelo governo, na última quarta-feira (25), levantou polêmica em relação à função dos bancos públicos. O desligamento de Lima Neto ocorreu pela relutância em diminuir os juros cobrados nos empréstimos.
No ano passado, o BB registrou lucro de R$ 8,8 bilhões, resultado jamais atingido por um banco brasileiro. Em meio à crise econômica, o banco conseguiu aumentar suas receitas em 74%, na comparação com 2007. Com a saída de Lima Neto, o governo opta pela função social, por meio de empréstimos mais baratos, em vez de privilegiar o faturamento e a posição que a instituição ocupa no mercado.
O economista-chefe do banco ABC Brasil, Luís Otávio Leal, lembra que o Banco do Brasil não é completamente estatal. “O BB tem, sim, responsabilidade com os acionistas minoritários. Mesmo que o governo tenha a maioria das ações, não pode deixar a preocupação com o lucro de lado”, disse.
Para Leal, o governo tem o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), além da Caixa Econômica Federal, para realizar a chamada política de subsídios, através do oferecimento de crédito barato. “Com a demissão do presidente Lima Neto, o governo coloca em xeque a eficiência de sua política econômica”, finalizou.
De acordo com pesquisa realizada pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), divulgada na semana passada, a taxa média anual de juros, na modalidade pessoa física, chegou a 60,4% em 2008. Enquanto isso, nos Estados Unidos, os bancos cobram 13,96% e, na Europa, 6,38%. Como resultado, os brasileiros pagam quase dez vezes mais juros do que os europeus.
O mesmo estudo revelou que o BB, dentre os grandes bancos brasileiros, já possui, nos empréstimos pessoais, a menor taxa de juros reais, quando a inflação é descontada. Levando em conta a primeira semana de abril, o Banco do Brasil cobrava 25,05% de juros anuais, enquanto o Itaú pedia 63,25% de seus clientes. O espanhol Santander, com a cobrança de 55,74%, também apareceu no levantamento.
“A função do banco público está relacionada ao fomento da produção. Essas instituições não podem simplesmente buscar a maximização dos lucros”, disse Paulo Sandroni, professor da Escola de Economia e Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP).
Nos últimos anos, segundo Sandroni, o setor bancário passou por uma série de fusões e aquisições. Tal processo enfraqueceu o sistema de concorrência, diminuindo as opções do consumidor, o que abriu um campo favorável para o aumento dos juros. “A derrubada do presidente do BB representa uma tentativa do governo de pressionar as instituições para derrubar os juros”, afirmou.
O economista Luiz Gustavo Medina discorda da política do governo na diminuição do custo do crédito. Medina cita o Cadastro Positivo, que aguarda aprovação do Congresso, como um passo importante para reduzir o spread bancário, a diferença entre o que o banco gasta para captar dinheiro e os juros cobrados para emprestar. Quanto mais o banco gastar na captação, maior será a taxa de juros que chegará ao consumidor.
“Além do Cadastro Positivo, com a separação entre os bons e maus pagadores, o governo faria sua parte com o alívio na tributação sobre os bancos. Ainda há muito o que fazer antes de pressionar as instituições”, opinou Medina.
*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).