Juros mais baixos da história beneficiam consumidor
Por outro lado, a queda dos juros traz problemas para o governo. A poupança passa a concorrer em pé de igualdade com os títulos públicos.
BRUNO TORANZO
O Copom (Comitê de Política Monetária), ligado ao Banco Central, reduziu os juros básicos da economia em um ponto percentual na última quarta-feira (29). A decisão, ainda motivada pelos efeitos negativos da crise sobre a produção e o consumo, derrubou os juros para 10,25% ao ano, a menor taxa da história. Com juros menores, o consumidor tem acesso ao crédito facilitado, através de financiamentos mais baratos e maior tempo para honrar as prestações.
De acordo com ranking elaborado pela consultoria UpTrend, o Brasil deixou de ser o país com maior juro real do planeta, quando a inflação é descontada. Agora, os brasileiros estão na terceira posição, atrás dos vice-líderes húngaros e dos líderes chineses.
Para Marcos Crivelaro, consultor em finanças e professor da FIAP (Faculdade de Informática e Administração Paulista), a diminuição, desde que os juros sejam mantidos como estão pelos próximos meses, cria uma nova mentalidade nos consumidores. “O financiamento a longo prazo, com muitos meses para pagar, é melhor incorporado ao apertado orçamento das famílias. Essas condições convocam as classes baixas ao consumo”, concluiu.
Apesar dos bons ventos trazidos pela mudança dos rumos da política monetária, o governo está preocupado. Em meio ao cenário de queda, os investimentos nos títulos públicos, que financiam a dívida brasileira, saem prejudicados. Os próprios investidores passam a demonstrar interesse pela poupança. “O governo vai ser obrigado a mexer na rentabilidade da poupança. Esse investimento tem de se adequar à nova situação econômica”, analisou Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios.
Por ser uma medida impopular, já que a maior parte dos brasileiros deixa o dinheiro na poupança, o presidente Lula está adiando qualquer resolução. Os reflexos da crise econômica na contração dos empregos e na queda da renda média do cidadão afetaram a outrora imbatível popularidade. “A oposição já está com o discurso preparado para acusar o governo de prejudicar a poupança”, disse Leite.
A caderneta de poupança tem uma rentabilidade fixa de 6% mais a taxa referencial, que varia entre os bancos, por ano, além de não receber nenhuma incidência de impostos. Já o retorno dos títulos públicos segue o desempenho da taxa básica de juros, só que existe cobrança do imposto de renda. Quanto maior esses juros que incidem sobre a dívida pública do governo, melhor para aqueles que apostaram nos títulos.
Se a Selic continuar em descendente até atingir o patamar dos 8%, a conservadora poupança se tornaria, em todas as situações, mais rentável que os títulos públicos. Uma das soluções em discussão para não prejudicar as contas do governo é estabelecer um limite de investimento para a poupança. “O valor máximo dos depósitos não deveria ultrapassar os R$ 100 mil, valor equivalente à renda do pequeno investidor”, sugeriu Crivelaro.
*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).