Valorização do real indica volta do capital externo
A inversão do câmbio, com a valorização do real frente ao dólar superior aos 13% no ano, mostra que os investidores estrangeiros estão novamente de olho no Brasil.
BRUNO TORANZO
Desde o primeiro dia do ano, a valorização do real frente ao dólar é de 13,26%. A cotação já se aproxima dos dois reais para cada dólar. Como efeito de comparação, no dia 4 de dezembro do ano passado, período do auge da crise econômica, a moeda americana atingiu um patamar que há muito não se via: US$ 1 chegou a valer R$ 2,51.
Na época, as empresas foram pegas de surpresa com tamanha desvalorização. Muitas delas, com grande volume de exportação, apostaram em dólar baixo nos contratos arriscados de derivativos. Em outubro, por exemplo, a Sadia revelou ter perdido R$ 2,6 bilhões nessas operações. Os grandes executivos não esperavam que o impacto da crise econômica se mostrasse tão devastador.
O comportamento do mercado se inverteu em 2009. Em vez do registro da saída de dólares, por meio do abandono dos investimentos em terras brasileiras, está ocorrendo a volta do dinheiro que havia deixado o país. “A valorização do real vai continuar. O crescente aumento do déficit fiscal dos Estados Unidos, através dos estímulos bilionários oferecidos ao sistema financeiro, coloca sua moeda em baixa”, opinou Ricardo Della Santina Torres, professor de finanças internacionais da Brazilian Business School.
O retorno do capital internacional pode ser visto como uma indicação de que os investidores confiam na economia brasileira. Além da condução estritamente profissional da economia pelo Banco Central, as características do país são capazes de chamar a atenção estrangeira. “A chave para o sucesso está no mercado doméstico. Não dependemos em excesso, como ocorre em outros países, do volume de exportações”, disse Torres.
As reservas externas do Brasil, avaliadas em US$ 200 bilhões, foram importantes para proteger o país em meio ao cenário de turbulência. “As reservas americanas são menores que as brasileiras. Eles são obrigados a emitir títulos da dívida pública para cobrir o rombo dos recentes investimentos de emergência”, finalizou o professor.
Para Mohamed Mourabet, consultor e sócio-diretor da Victoire Brasil Investimentos, o mundo passa por uma fase de diferenciação entre os países. “A divisão internacional não só ocorre entre os ricos e pobres, mas entre as próprias economias emergentes. Os fundamentos econômicos estão sendo seriamente testados”, analisou.
Ao considerar os países que formam o grupo do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), economias consideradas prósperas para chegar ao grau de desenvolvimento nos próximos anos, Mourabet aponta algumas vantagens que colocam os brasileiros em destaque. “Os investidores sabem que as instituições brasileiras são muito mais maduras. Para quem investe, é importante que as regras estejam consolidadas, além da manutenção de um transparente processo eleitoral”, disse.
Com o paulatino crescimento da economia, os brasileiros presenciarão outros processos de fusão nos moldes da Sadia e Perdigão. A junção das duas empresas gigantes do setor alimentício criou a Brasil Foods, cuja pretensão é controlar mercados em todos os continentes. “Essas megaoperações fortalecem os setores econômicos. A intenção dos executivos é aproveitar as vantagens competitivas que o ambiente de negócios brasileiro oferece para expandir o poder de barganha da marca”, concluiu Mourabet.