Melhora da bolsa não é sinal de recuperação econômica
Apesar da valorização do Ibovespa acima dos 37% no ano, especialistas dizem que a retomada da economia ainda depende de uma conjunção de fatores.
BRUNO TORANZO
Os economistas consideram a bolsa de valores o termômetro da economia. Quando a cor predominante dos índices é o vermelho, esteja certo de que a economia real, formada pela produção das empresas e pelo consumo das pessoas, passa por um momento preocupante.
Em tempos de turbulência, agravada após a quebra do banco americano Lehman Brothers em setembro do ano passado, as ações atingiram níveis assustadoramente baixos, muitos deles nunca antes visto. O Ibovespa, índice mais importante da bolsa brasileira, chegou a ficar, logo após a falência do Lehman, abaixo dos 30 mil pontos, resultado que não acontecia desde outubro de 2005.
A virada ocorre quando o ambiente de desvalorização consecutiva deixa a cena. Este ano presencia, pelo menos por enquanto, o possível início de uma retomada econômica. Os investidores comemoram, desde o primeiro dia de janeiro, uma valorização do Ibovespa acima dos 37%, de volta ao patamar dos 50 mil pontos.
“Estamos passando pelo final do ápice da crise. Por essa razão, vamos presenciar sequências intercaladas de ganhos e perdas no mercado acionário”, explicou Jason Vieira, economista-chefe da UpTrend Consultoria. Na semana passada, a vez foi das perdas. A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) atuou em baixa na maior parte dos dias para registrar queda de 4,65%.
Em contrapartida, o resultado positivo levou vantagem na última segunda-feira (18). A valorização chegou aos 5% em apenas um pregão. “A economia passa por um momento de correção. Essa instabilidade é gerada pelo movimento de incerteza dos investidores. Eles passam a comprar e vender ações no mesmo dia”, concluiu Vieira.
Os três nobéis, que estiveram no Brasil na última segunda-feira (11), estão pessimistas quanto ao final da crise. Para Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel em 2001, os Estados Unidos viverão uma década perdida, com crescimento baixo ao longo dos anos. Stiglitz defende mudanças institucionais no funcionamento da economia, a exemplo do fim do dólar como moeda internacional.
“A solução definitiva desta crise passa pela recuperação do crédito”, garantiu Cristiano Souza, economista do Grupo Santander. Tal processo só vai ocorrer quando os ativos tóxicos, assim chamados por representarem papéis cujo valor praticamente zerou, ligados em sua maioria ao setor de hipotecas, forem resolvidos. “Sem a confiança para emprestar, a economia continuará sem sair do lugar”, destacou.
Como forma de verificar a situação financeira dos bancos nos Estados Unidos, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, ao lado de sua equipe econômica, lançou o plano de estresse. Por meio dos instrumentos monetários voltados para testar a capacidade de reação dos bancos em uma hipotética piora da situação, os especialistas descobriram que a constante injeção de recursos bilionários estatais, apesar dos protestos dos contribuintes, surtiu efeito.
“O teste de estresse mostrou que os bancos estão capitalizados, ou seja, contam com dinheiro em caixa. A exceção ficou com o Bank of America”, disse Souza. Mesmo com a boa notícia, o economista chama a atenção para a continuação da piora do mercado de hipotecas e a alta taxa de inadimplência dos americanos em suas obrigações de cartão de crédito.
*Texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).