terça-feira, 14 de julho de 2009

UM OLHAR DIFERENTE SOBRE A REALIDADE

É dia dos garis recolherem o lixo
POR Bruno Toranzo

Depois de um longo dia de trabalho, durante o retorno para o doce lar, lá está o pessoal da limpeza urbana na rua de casa. Estou certo de que o leitor não encontrará novidade alguma nisso. O fato realmente não tem nada de novo. Mas a maneira de olhar e, acima de tudo, de interagir com essa cena comum do cotidiano foge completamente do convencional.

São quatro ou cinco garis, não me lembro ao certo no momento. Quanto ao modo como estão vestidos, recordo com precisão. Todos estão devidamente uniformizados, trajados com camisa amarela, calça azul e luvas brancas especiais, que brilham no escuro, para proteger as mãos durante o manejo do lixo. O tamanho avantajado dos dedos nas luvas os deixa com uma aparência engraçada.

Os trabalhadores estão de pé na garupa do caminhão. Em letras grandes, legíveis até para os míopes acima do patamar dos oito graus por olho, lê-se “Coleta Seletiva” na lataria, mensagem importante para identificar o veículo. Afinal de contas, não é todo dia que um monstro desses passa em frente a sua casa.

Mesmo com um frio agonizante, além da enorme exigência física do ofício, os garis estão animados. O motorista do caminhão arranca e, de propósito, para caçoar, deixa para trás um dos colegas. Com certeza, deve ser o caçula da turma. Em qualquer profissão, a inexperiência joga contra você em diversos aspectos. Não pude interpretar, com absoluta precisão, a razão da provocação. Mas, a julgar pelas risadas, inclusive da vítima, arrisco o palpite do castigo para o novato.

Tento continuar anônimo. A calçada está escura. Encosto em um canto. Fico escondido atrás de pontudos galhos. Pelo menos, a posição da árvore favorece o anonimato. Eles não podem perceber minha presença. Tal flagrante destruiria a originalidade da cena. Assim como ocorre nas fotografias, o melhor retrato está na naturalidade.

O trabalho pesado dos garis continua. Que fôlego. Os lixeiros correm para todos os lados. Dois deles partem para a esquerda. O restante prefere a direita. No pequeno monte seguinte de lixo, referente ao prédio residencial mais antigo da rua, a pressa em agarrar as sacolas pretas faz com que uma delas se rompa. Posso estar sendo injusto. Talvez essa sacola não tenha sido fechada direito pelo morador. Isso mesmo. Não posso acusar sem provas.

Já se passaram das onze horas da noite. Além da presença desses verdadeiros guerreiros, não há mais ninguém por perto. Vez ou outra, depois da retirada do lixo, algum porteiro demonstra coragem para sair, devidamente agasalhado, com a gola da blusa até o queixo. A baixa temperatura, por volta dos doze graus, sem falar da assustadora sensação térmica, que está, sem dúvida, em um dígito, faz com que os guardiões das residências sejam ágeis. Eles precisam recolher o carrinho do lixo, se não quiserem congelar, com velocidade. O utensílio só terá serventia na próxima visita dos garis.

Não venta. Pelo menos, o vento não contribui com o frio na maldosa atribuição de congelar os ossos dos trabalhadores noturnos. Mesmo assim, o cheiro do chorume ou, em outras palavras, o cecê do lixo, é forte o suficiente para incomodar. O nariz, ao sentir o odor proveniente do sovaco do lixo, reclama. Reclama não, esperneia. Dá para entender por que os especialistas alertam para o perigo do chorume em contato com os lençóis freáticos.

O caminhão já está no finalzinho da rua. Pelo menos por aqui, nesta rua da cidade, o trabalho está feito. Com exceção de alguns cascos de banana, garrafas de vidro quebradas espalhadas pelo asfalto e um ou outro papelão, a coleta foi bem feita. Não sejamos tão exigentes com um trabalho de tamanha dureza.

Aceno para o porteiro do meu prédio. Os portões elétricos são imediatamente abertos. É hora de repousar. Um novo dia aguarda a retirada da Lua para entrar. Aparentemente, não resta nada para observar. O silêncio impera. O dia a dia oferece grandes histórias. Cabe a nós estarmos receptivos para enxergá-las.