segunda-feira, 4 de setembro de 2006

FATO DA SEMANA

A IMIGRAÇÃO REALMENTE EXISTE NO SISTEMA CAPITALISTA GLOBALIZADO DO MUNDO DE HOJE?
POR Bruno Victor Dela Páscoa Toranzo

Em que medida e em que condições seria positivo ou negativo o retorno do imigrante que mora nos grandes centros urbanos à sua cultura?

O retorno a sua terra da população pós-guerra, originária de Papua Nova Guiné, país localizado na Oceania, constitui fato que chamou a atenção da opinião pública mundial. Insatisfeitos com a vida que levavam nos grandes centros urbanos, especialmente em Nova Iorque, essas pessoas resolveram voltar para o modo de vida tranqüilo, sem o controle do tempo, característica principal das grandes nações capitalistas. Pescar, plantar, caçar, enfim, aproveitar da natureza para o equilíbrio mental e físico, caracterizam o dia-a-dia de Papua.

O que leva um imigrante a retornar à sua cultura? No caso do exemplo já dado, o modo de vida completamente oposto ao que levavam influenciou na decisão. Saíram de uma terra com a quase inexistência de recursos tecnológicos, de completa interação com a natureza, para uma de ritmo frenético, de cimento para todos os lados. “Na cidade, somos escravos”. “O dinheiro é secundário para nós”. Esses são exemplos de depoimentos que justificam o retorno à Papua Nova Guiné.

Acontecimentos como esse são cada vez mais improváveis no mundo de hoje. A globalização unificou as culturas, fazendo muitas delas perderem a identidade. As fronteiras entre os países praticamente perderam a razão de existir. Podemos até discutir se realmente existe “imigrante” nos dias de hoje. Reconhecidamente, as pessoas que saem de sua cultura para residir e trabalhar em outra são imigrantes. Mas até que ponto o capitalismo não tornou todos nós imigrantes?

Tomemos como exemplo a parte econômica da história. A mão-de-obra em um país, sobretudo no desenvolvido, é cada vez mais diversificada em termos de nacionalidade. Uma multinacional em que sua matriz fica em alguma grande cidade européia. Porém, por ser uma multinacional, possui filiais em muitos países do globo. O que dizer de seu quadro de funcionários? Apresenta heterogeneidade quanto à nacionalidade. A empresa nomeará trabalhadores para atuar em cada uma dessas filiais. E não vai considerar onde esse trabalhador nasceu. Dessa forma, podemos considerar que o fato de ser imigrante ou não pouco ou nada influi no mercado econômico atual. O importante para as empresas é a contribuição que o trabalhador pode oferecer.

Outra razão que desmascara esse conceito de imigrante é a consolidação dos grandes blocos econômicos no mundo. A União Européia é o mais bem sucedido bloco de comércio entre as nações. Com mais de 30 países, de relações comerciais intensas, com uma moeda única, é impensável dizer a palavra imigrante. Pouco importa se o alemão está vendendo salsichas na França. Ou se o francês está morando e residindo na Itália. O que importa é a interação entre os países para o desenvolvimento de toda região.

Exceção a isso é o caso dos imigrantes de outros continentes do globo. O fato dos turcos procurarem oportunidades de emprego na economia alemã. Ou os argelinos na francesa. Esse tipo de imigração é condenado nas nações desenvolvidas, sob a justificativa de roubar os empregos do povo da localidade, e até existe uma palavra que define essa repulsa aos estrangeiros: xenofobia.

Portanto, imaginar a questão colocada em debate é impossível. Grandes levas de imigrantes jamais retornariam a suas terras, ao seu modo de vida, por estarem intrínsecos ao sistema capitalismo/globalização, a não ser que esses imigrantes fossem de nações menos conhecidas, menos importantes, fora do modelo internacional, praticamente tribais, como é o caso de Papua Nova Guiné.