sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

REPORTAGEM

Queda da produção preocupa setor industrial
Diminuição do spread bancário vira prioridade para governo e BC.

POR Bruno Toranzo

Desde o segundo semestre do ano passado, em meados de setembro, com a quebra do tradicional banco americano Lehman Brothers, o sistema econômico mundial respira por aparelhos. A imediata consequência desse clima de permanente incerteza, ainda não solucionada, de difícil resolução, foi uma espécie de seca na concessão de créditos. Os empréstimos se tornaram muito mais caros. As empresas têm dificuldades para financiar suas atividades.

Até pouco tempo, os brasileiros eram meros espectadores da hecatombe financeira. O próprio presidente Lula chegou a dizer que a crise passaria por aqui como se fosse tão somente uma “marolinha”. Não foi o que aconteceu. Os números ruins rechaçaram tal otimismo do governo. Já existem rumores de que o crescimento da economia neste ano possa ficar abaixo de 2%.

Na última quarta-feira (11), a Fundação Getúlio Vargas, conhecida como FGV, divulgou o SPI, que funciona como sinalizador da produção física industrial no estado de São Paulo. O recuo em janeiro de 2009, na comparação com o mesmo mês do ano passado, atingiu 14,9%. “A expectativa é de que a produção da indústria caia 20% neste ano”, afirma o economista Giancarlo Pereira, também professor da Universidade Mackenzie.

No mesmo dia, os secretários do desenvolvimento das sete cidades do Grande ABC se reuniram para discutir os efeitos da crise. Os principais setores industriais da região são o automotivo e a construção civil. Duas das atividades que são atingidas em cheio pelo encarecimento do crédito e pelo corte de gastos das famílias. Pode-se esperar o quanto for preciso para trocar o carro ou comprar uma nova residência.

De acordo com os últimos números levantados pelo Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior, as exportações de São Bernardo caíram 14,47% no último mês de 2008 em relação ao mesmo período do ano anterior. Os andreenses tiveram queda de 7,63%, ao mesmo tempo em que São Caetano diminuiu as vendas em 38,69%.

Por ter apresentado mais de US$ 4,5 bilhões em exportações, número quase sete vezes maior que Santo André, a segunda colocada nesse quesito dentre as cidades que compõem o ABC, o município de São Bernardo sente de forma acentuada qualquer alteração negativa na balança comercial. “A falta de mercado para os produtos é a grande dificuldade das indústrias. Pode-se dizer que a demanda, principalmente externa, despencou”, afirma Shotoku Yamamoto, diretor-titular do Ciesp Santo André.

Em meio à repetição dos índices vermelhos e do domínio da preocupação, o maior desafio do governo e do Banco Central chama-se spread. Essa palavra de origem inglesa significa, ao pé da letra, propagar. Ou seja, propagar o dinheiro que os bancos captam, normalmente a juros por volta de 13%, para os empresários e consumidores.

O problema está nos juros que são cobrados pelas instituições bancárias: uma média de 45,1%. “O spread baixo é fundamental para reativar a economia. Quanto maior estiver, pior para o ambiente econômico em geral”, analisa Marcos Crivelaro, consultor financeiro e professor da FIAP. A diferença entre os juros de captação e aqueles posteriormente cobrados serve para cobrir os custos das operações, depositar o compulsório na conta do BC, pagar impostos, cobrir o risco de inadimplência e, claro, gerar lucro.

As autoridades financeiras pressionam pela queda do spread. O BC passou a divulgar, em seu site, os juros cobrados pelos bancos do país. Trata-se de uma tabela, atualizada constantemente, com a intenção de incentivar a concorrência entre eles. “A transparência ficou maior, mas os efeitos para a diminuição, até agora, foram mínimos”, diz o professor Pereira.

A intenção é fazer com que os bancos de capital estatal diminuam as taxas de juros. O Banco do Brasil, mesmo tendo uma parcela de acionistas particulares, tem condições de inaugurar uma onda de quedas. “Se os bancos do governo diminuíssem primeiro, os privados seriam obrigados a seguir o mesmo caminho”, completa Crivelaro.

*Versão completa do texto originalmente produzido para o Rudge Ramos Online (www.metodista.br/rronline).