Em pouco mais de três décadas, o mundo presenciou alterações radicais. A democracia se consolidou, e o real controlou o monstro inflacionário.
POR Bruno Toranzo
Não esperava encontrar nada de muito interessante na biblioteca dos meus antepassados. Pelo gosto literário do meu avô, sabia que viriam pela frente livros de religião e autoajuda. Eles estão lá. Muitos deles. Ocupam uma prateleira inteira.
No canto da parede, completamente esquecidos, estão os registros de uma história recente. Publicados pela “Encyclopedia Britannica do Brasil”, os livros do ano retratavam os fatos mais importantes do ano anterior. Com um olhar curioso, puxei o fascículo de 1978.
Sabia da existência desses curiosos pequenos relatos da história. Mas os ignorei ao longo de tantas visitas. Cometi um erro. Folheá-los abriu a possibilidade de transporte para uma realidade completamente diferente da que estou acostumado. Para começar, abri em uma foto, no alto da página, de uma Polaroid, as pesadas máquinas fotográficas antigas que revolucionaram a época.
Que mudança radical. Em apenas trinta e dois anos, já que considera o ano de 1977 para análise, o mundo passou por transformações tremendas. No Chile, o general Pinochet comandava seu regime de barbárie. Ao contrário dos chilenos, que viviam um período sangrento, os espanhóis viam florescer o ambiente democrático, ausente do país há 41 longos anos.
Já os brasileiros testemunharam a divisão do estado do Mato Grosso. O regime democrático começava a aparecer no horizonte. Sem o controle da inflação, que batia recordes sucessivos, o governo mudava a estratégia de combate constantemente. A política antiinflacionária anunciada pelos militares, como se sabe, não surtiu resultados. Apenas o real, lançado em 1994, foi capaz de sossegar o dragão da inflação. Como no filme de Hollywood, em relação ao livro, sabemos dos meandros do passado.
Os autores, divididos em editorias, a mesma divisão de um jornal, escreveram para os leitores daqueles anos. O texto tem uma característica jornalística. Dá para perceber que eles não tinham pretensão de deixar um relato da história às gerações posteriores. Eles desempenhavam o trabalho de juntar os acontecimentos relevantes, em qualquer área do conhecimento humano, em uma coletânea. Algo muito próximo de uma retrospectiva, tradicionalmente feita na última edição do ano pelos veículos de comunicação, para retratar os fatos marcantes dos doze meses.
Estou com o livro aberto ao meu lado. Os ácaros fizeram a festa por muito tempo. A sucessão dos dias deixou as páginas bem amareladas. Tenho certeza de que a rinite alérgica vai atacar. Na verdade, meu nariz já está coçando. Não ficarei bem durante o restante do dia. Faz parte do ofício de jornalista.
Para começar, destaco o Prólogo do “Livro do Ano de 1978“:
“No Brasil e no mundo, 1977 caracterizou-se por ser um ano em que grandes transformações, em todos os aspectos, suscitaram mudanças de rumo na história dos países e dos homens. Nos EUA, na China, na Índia, no México, em Sri Lanka, na Etiópia, na Irlanda e vários outros países, novos governos e novas forças políticas emergiram e assumiram o poder. Na Espanha, a volta da democracia, depois de 41 anos. No Oriente Médio, uma esperança de paz, com a visita do presidente Sedat a Jerusalém, e a visita do primeiro-ministro Begin ao Egito. Na África, a encruzilhada no destino político das maiorias negras no sul, e o conflito no ‘chifre africano’. No Brasil, a consolidação da política econômica antiinflacionária e de modelo exportador; as grandes reformas; o judiciário, o divórcio, a divisão de Mato Grosso; as incertezas e movimentações políticas; as grandes obras. No Brasil e no mundo, as grandes realizações científicas, culturais e esportivas”.
*Continuarei com esse assunto nas próximas publicações.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
HISTÓRIA
As histórias são do ano de 1977