Artigo publicado, no dia 2 de outubro de 2006, no jornal O Estado de S. Paulo.
O mercado sem sustos
Carlos Alberto Sardenberg
"Há quatro anos, os mercados despencavam com medo de Lula. (...) Na véspera das eleições de 2002, o dólar chegou a ser negociado a R$ 4, quase o dobro da cotação registrada no início da campanha eleitoral (R$2,30, em março). O risco Brasil, no mesmo período, foi de 700 para 2400 pontos. E a Bolsa de Valores despencou da faixa dos 14.400 pontos, também em março, para 8.700 na sexta-feira antes da votação. Neste ano, foi o reverso dessa história. O dólar, desde o início da campanha, está oscilando entre R$ 2,20 e R$ 2,10, no que se pode considerar estabilidade. O risco Brasil tem variado entre 210 e 240 pontos. E a Bovespa encerrou a semana em torno dos 36.500 pontos, uma queda em relação a março, mas com ganhos em relação a janeiro. (...) Em 2002, o mundo vinha de uma seqüência de desastres econômicos e financeiros. No mundo emergente, países haviam sofrido crises no balanço de pagamentos - isto é, haviam quebrado: a Coréia do Sul (1997), a Rússia (1998), o Brasil (1999) e a Argentina (2001). No mundo desenvolvido, começando pelos Estados Unidos, a seqüência também havia sido desastrosa: em Wall Street furaram as bolhas das empresas de internet e das telecomunicações; grandes fundos de investimentos registraram perdas enormes tanto no mundo emergente quanto nos países ricos; depois, houve a crise dos balanços dos Estados Unidos, quando grandes empresas foram apanhadas roubando nas costas e forjando lucros; finalmente, os mercados paralisaram com a queda das torres do World Trade Center. (...) Em resumo, a expectativa hoje é de uma desaceleração nos Estados Unidos e no mundo, moderada, gradual e pacífica. O mundo vai crescer menos, mas ainda cresce, de modo que a influência externa continua sendo positiva para o Brasil. Mais uma demonstração de sorte de Lula. FHC pegou uma seqüência de crises internacionais, Lula, o melhor momento dos últimos 40 anos. (...) Em 2002, o mercado estava com medo de Lula. Para os investidores, sobretudo do exterior, o Brasil estava em via de se tornar uma grande Venezuela - e, o que era pior, sem petróleo. Hoje, o mercado conhece um outro Lula, o do Banco Central autônomo, na prática, e o do superávit primário para pagar juros. O mercado gosta desse Lula. Não gosta de outros aspectos, como o aumento do gasto público (e, pois, de carga tributária), o ambiente pouco propício ao investimento privado, a desastrada diplomacia e, claro, a corrupção e o aparelhamento do Estado".