segunda-feira, 17 de março de 2008

CAMINHANDO PARA A RECESSÃO?

Guerra do Iraque já torrou US$ 1,2 trilhão
POR Bruno Victor Toranzo

O número impressiona. Já passou pela casa do bilhão. Alguns dias antes do começo da invasão, o cálculo apontava para um gasto de US$ 50 bilhões. Muito menos do que o valor atual. E pensar que o país continua sem perspectiva, afundado nos confrontos étnicos. Apenas os curdos, esses sim, parecem ter aproveitado a era pós-Hussein para se desenvolver. O norte do país, local de maior concentração deles, mostra uma situação bem diferente. A economia está se estruturando, ancorada nos dólares norte-americanos. Os curdos são extremamente agradecidos aos Estados Unidos. Hoje, não precisam viver em pânico, estão livres do carrasco ditador que os amedrontava. Saddam perseguia os curdos, matava aos montes, característica de Holocausto.

Os assuntos relacionados à retirada das tropas e ao futuro do Iraque não têm mais tanta importância entre os candidatos à presidência do país. Com a possibilidade de recessão, aumentou o temor de tempos econômicos sombrios pela frente.

O centro da crise é o mercado hipotecário estadunidense. As pessoas compravam e compravam casas. Outras reformavam e reformavam seus imóveis. Outras ainda adquiriam e adquiriam casas como investimento. E contraíam e contraíam empréstimos para tudo isso. Os bancos não viam problema em fazer a festa deles e liberavam dinheiro, um verdadeiro “paizão”. Além de conceder crédito abundante, as instituições financeiras não avaliavam a renda do cliente. Não havia necessidade de comprovação de renda. Uma grande irresponsabilidade! O que aconteceu? O mais óbvio. Muitas e muitas pessoas deixaram de pagar. Os bancos desesperados não sabiam e continuam não sabendo o que fazer. E pior do que isso. Motivados pelo bom desempenho do setor, as construtoras não hesitavam em construir. Enquanto havia esse consumo doentio, estava tudo bem. Mas quando os números de compra e reforma caíram desgraçadamente, o problema maior aconteceu.

Paralelamente, a maior economia do planeta já não vinha bem das pernas. Os dois confrontos seguidos, Afeganistão e Iraque, contribuíram para aumentar as já combalidas contas. A ameaça chinesa com seus produtos muito mais baratos, fruto, em grande parte, de mão-de-obra quase escrava, também preocupa. A globalização transferiu parte da cadeia produtiva das empresas para países com mão-de-obra mais barata, como Índia, China e Tailândia. É o famoso offshore. Os americanos, principalmente os menos instruídos, ficaram sem emprego. O operador de telemarketing, profissão que não requer muita instrução, é o grande exemplo desse processo. Hoje, muitas das ligações para empresas americanas, de atendimento ao consumidor, vão parar na Índia.

No entanto, o alento dessa crise é a forte presença macroeconômica chinesa. Uma verdadeira muralha da China contra a crise que se apresenta. Temos que torcer para que a muralha não ceda. Pelo menos, ninguém espera que isso aconteça. A economia chinesa pode passar por um pequeno resfriamento, mas deve continuar crescendo a médias espetaculares. Se a indústria cresce, o consumo de matérias-primas segue o mesmo caminho. As commodities africanas e até mesmo latino-americanas continuarão, em franca expansão, para o gigante asiático. Aliás, os preços delas estão em alta devido à voracidade chinesa.

Não só a China, mas todos os BRIC, sigla que envolve os países com maior potencial de crescimento econômico – Brasil (Viva!), Rússia, Índia e China – poderão salvar a economia mundial ou, pelo menos, aliviar a doença hipotecária. Qual política terão que seguir para a salvação? Nenhuma. Basta que continuem como estão e, se possível, mesmo em meio à crise, diminuem mais ainda a distância para as nações tidas como desenvolvidas.

A situação, como você percebeu, está feia. Alguns economistas e jornalistas já consideram começo de recessão. Exemplo é Paul Krugman, economista e colunista do “The New York Times”. Apesar dos índices horripilantes, incluindo os de geração de empregos, confiança empresarial no mercado e desempenho do mercado imobiliário, acredito que ainda não chegamos ao período de retração.

Boa palavra. “Retração”. O significado de recessão é retração do PIB e, por conseqüência, dos demais índices econômicos. Isso não aconteceu. Portanto, vivemos sob período de incerteza e não de recessão. A preocupação do FED e de todo mercado é evitar essa situação. Nesse momento, podemos destacar, com certeza, um aspecto do novo ambiente macroeconômico: a era de abundância acabou.

Artigo interessante do jornalista David Leonhardt, do "The New York Times":

Mais sobre o assunto na "Folha de S. Paulo":