POR Bruno Victor Toranzo
Sentada em um sofá velho, todo rasgado, já sem cor, a senhora Redpast (requer tradução literal do leitor) lê um livro. Desgastada pelo tempo, apertada pelas lembranças socialistas, ela literalmente espera a hora da morte. Quando os pensamentos vêm, a tristeza os acompanha. Por que o sonho de união do socialismo não deu certo? Ela pensa em como seria se o socialismo tivesse vingado. Não haveria pobreza. Não haveria patrões. O proletariado assumiria o controle. As crianças correriam livremente para cima e para baixo. Essas ruas, tão freqüentadas pelas crianças em sua época de ouro, não guardariam a violência de hoje. Os governantes, sempre justos e sérios, dariam o exemplo na distribuição da riqueza. Ninguém passaria fome. Como o mundo seria belo.
Nada disso aconteceu. A pobre velha se culpa por ter perdido uma vida inteira nesse sonho. Um projeto de vida que nunca conseguiu vingar. Mas, mesmo assim, Fidel Castro não é culpado em seus longos devaneios. É outra vítima como ela. Muito menos culpados são os líderes soviéticos. Que mentira! Stálin jamais mataria Trotsky. Certeza que a inventora da calúnia foi a sempre maldita direita. Praga sobre os reacionários. A morte de Stálin foi um acidente de percurso, como tantos nos oitenta e poucos anos da trajetória dessa senhora.
A carcomida velhinha ainda acredita que, apesar de nenhuma nação ter desenvolvido os preceitos socialistas plenos, como prevê o grandioso Karl Marx, motivador de seus ainda semanais orgasmos, Cuba é o melhor lugar para se viver. Ela sempre relaciona as características de paraíso tropical como um suposto presente enviado por Deus pela escolha do modelo ideal de sociedade. Se Karl Marx sempre foi considerado seu marido, Fidel Castro é o amante, um homem de habilidades sexuais desconcertantes. Cada vez que relembra dos seus dois tão indispensáveis homens, a mola do sofá se manifesta. O ruído começa baixo e logo aumenta de volume.
Ao lado da senhora Redpast, personagem da publicação, o socialismo caminha para o túmulo. Na verdade, já está por lá. Desde a queda do muro de Berlim, em 1989, passando pela desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, no começo de 90, o mundo passou por alterações radicais. O capitalismo emergiu como modelo único de sociedade. A modernidade chegou a praticamente todos os cantos do planeta. E essa modernidade deixou tudo mais fácil, incluindo a relação entre as pessoas e os países. É claro que os confrontos ainda continuam, mas por outras razões. As inimizades entre Ocidente e Oriente, além do repúdio ao unilateralismo norte-americano, são razões dos desentendimentos.
O grande benefício da adoção universal do capitalismo foi a facilidade de interação entre os países e as próprias pessoas. E não só isso. Os então pequenos, na época da dualidade socialismo-capitalismo, que souberam utilizar com sapiência os fundamentos capitalistas, se deram bem. A China é um exemplo fundamental. Mesmo fechada politicamente, a economia já faz parte do contexto internacional há muito tempo. Não representava nada, vivia em intensa miséria, no contexto de controle total socialista. Algo parecido aconteceu com a Índia. A tecnologia está tirando o país da miséria para colocá-lo, quem sabe, dentro de alguns anos, no seleto grupo das nações desenvolvidas.
Porém, o maior objetivo dessa publicação é enfatizar que as senhoras do socialismo estão se reproduzindo em mentes novas. Elas se ressuscitaram. Voltaram ao cotidiano e são cada vez mais comuns por aí. A nova geração que mantém o mesmo pensamento retrógrado, completamente ultrapassado, da senhora Redpast. E pior! Algumas dessas velhas fazem parte do ambiente acadêmico (professores e afins) e disseminam o infeliz pensamento entre os estudantes. Caso esses aprendizes tivessem concepção de mundo bem desenvolvida, não haveria grandes problemas. Mas, definitivamente, não é o que acontece. Muitos não sabem nem onde fica Cuba. É na falta de informação e, conseqüente, facilidade de manipulação, que reside o problema de cor vermelha.
