segunda-feira, 5 de maio de 2008

ECONOMIA

Unidade política conquista grau de investimento
POR Bruno Victor Toranzo

O título de grau de investimento me pegou de surpresa. Não só a mim. Ninguém esperava. Em plena véspera de feriado, com os ponteiros apontando para a metade da tarde, o anúncio venceu a distância. Um alvoroço geral. A imprensa correu atrás de maiores informações. Os profissionais do mercado financeiro começaram a emitir relatórios de análise do acontecido.

É claro que cogitávamos essa possibilidade. Contudo, pensávamos que viria somente no ano que vem. A crise dos mercados, estipulávamos nós erradamente, causaria o atraso. Aquela forte expectativa, em torno da nova classificação, estava perdendo força.

A informação inicial, desprovida completamente de detalhes, foi que a Standard&Poor`s, uma das maiores agências de risco do planeta, havia elevado o Brasil para a condição de investimento BBB-. O que isso significa? Basicamente, como afirmei na publicação anterior, somos considerados excelentes pagadores, cumpridores de nossas obrigações financeiras. Mesmo assim, há uma importante ressalva: continuamos sujeitos aos choques externos.

O grande benefício da nova conjuntura fica por conta do aumento do capital voltado para investimentos. A expectativa fica por conta da enxurrada de dólares que deve entrar no país. Esses dólares serão voltados, inclusive, para o aperfeiçoamento da nossa combalida infra-estrutura. Com mais investimento e melhoria do ambiente de negócios, o crescimento do PIB deve ser ainda maior neste e nos próximos anos.

Por outro lado, os exportadores estão realmente preocupados. A moeda brasileira só se valoriza frente ao dólar. Essa realidade vai continuar e até mesmo se aprofundar. Dessa maneira, o déficit em conta corrente se expandirá ainda mais. Algo normal na vida dos países desenvolvidos. Os exportadores precisam criar condições para vencer a adversidade do real valorizado.

São todos efeitos do novo momento econômico brasileiro. Está certo que nada disso é passageiro. Diferentemente do passado, com surtos rápidos e concentrados de progresso, a nova configuração desenvolvimentista veio para ficar. As bases do crescimento sustentável estão rígidas. O responsável por tudo isso é, sem dúvida, o conhecimento. Hoje, conhecemos as regras do mercado intimamente. Sabemos como proceder para evitar casos de emergência. Caso eles venham a acontecer, algo que parece muito difícil, controlaríamos rapidamente seus efeitos.

O câmbio flutuante, o controle eficaz da inflação e a evolução, mesmo que lenta, da responsabilidade dos gastos públicos indicam essa maior maturidade brasileira. Precisamos agora nos voltar para as reformas básicas para a continuação do bom andamento econômico. A trabalhista e a tributária são as principais. Isso porque não lembrei da mais complicada das três: a previdenciária.

Digo “complicada” por uma razão. Essas três reformas invadem o campo político. São todas perigosas do ponto de vista do continuísmo no poder. Cada uma delas envolve briga, confronto, disputa das classes sociais. Obviamente, cada segmento social está ávido para que suas reivindicações sejam atendidas. O risco de perder parcela do eleitorado é real para os políticos diretamente envolvidos.

Apesar do aparente pessimismo do parágrafo anterior, preciso chamar sua atenção para uma real evolução da política brasileira. Trata-se da continuação da diretriz econômica, mesmo com a troca dos presidenciáveis. A abertura econômica para as multinacionais, o capital externo, protagonizada pelo ex-presidente Collor, o maior dos marajás, representa um dos momentos iniciais. O governo de Itamar Franco veio logo depois. Com grande contribuição de Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda de Itamar, o real surgiu para se tornar o grande motivo da consistência econômica de hoje.

Ancorado na popularidade adquirida com o plano econômico, FHC chegou ao poder em 1995. Seu maior mérito, como presidente, foi desenvolver uma imagem de respeito do Brasil no exterior. Por fim, Luiz Inácio Lula da Silva ou, simplesmente, Lula, assumiu após dois mandatos cardosianos seguidos. Os investidores juravam que Lula mudaria a política econômica. Algo que felizmente não aconteceu. Em seu segundo mandato, o ex-sindicalista conseguiu elevar a posição brasileira frente à confiabilidade do capital internacional. Ao longo de todos esses mandatos, não se pode esquecer também do importante papel do Banco Central.

Espero que esse mesmo processo possa ocorrer com outras áreas. A troca partidária precisa ser encarada como parte do jogo político em que a beneficiada seja sempre a própria população.