segunda-feira, 12 de maio de 2008

POLÍTICA

O inadmissível autoritarismo do novo século
POR Bruno Victor Toranzo

Digamos que o auge dos governos autoritários se deu após a Revolução Socialista Soviética de 1917. Com a economia saudável, diferentemente do resto do mundo em depressão, a União Soviética conseguiu chegar ao topo no final da década de 20. E junto com ela, claro, aquela cambada de militares arrogantes e prepotentes.

Os anos passaram e o modelo, desde os primórdios comprovadamente falido, veio a desfalecer. A queda do Muro de Berlim foi o símbolo da derrota do regime autoritário vermelho. Algum tempo depois, os soviéticos virariam russos, mergulhados em uma crise econômica profunda. Só vieram a sair (que ironia!) do buraco financeiro com a eleição do capitalista Vladimir Putin.

Mesmo assim, alguns países teimosos se estagnaram no tempo. A China seria o grande exemplo deles se não tivesse aberto sua economia. Apesar de viver um regime político severo, a economia não sofre semelhante fiscalização. Aliás, o saudável crescimento econômico está contribuindo para a flexibilização desse controle sobre os cidadãos, com destaque para as maiores liberdades individual e de expressão. O livre mercado tem condições reais de trazer democracia ao gigante oriental.

A Coréia do Norte, ao contrário, está literalmente submersa em pobreza e atraso. Os norte coreanos são obrigados a viver em uma sociedade completamente ultrapassada. Ao mesmo tempo, o ditador Kim Jong-II aproveita sua fortuna. Essa desigualdade de renda é uma das marcas da sociedade autoritarista.

Outro exemplo é o Irã. Através da mistura religião e política, o mecanismo de controle da população se intensifica. A possibilidade de usar fatores religiosos para justificar a forma de governo origina o temido terrorismo. Os governantes, muito espertamente, conseguem candidatos dispostos a morrer com a utilização do argumento da vida eterna em um paraíso repleto de mulheres. O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad desafia constantemente o tão equilibrado presidente dos Estados Unidos, George Bush.

E ainda existe aquela simpática nação latino-americana. Trata-se de Cuba. A única que efetivamente venceu os interesses imperialistas americanos, na época da Guerra Fria. Fidel Castro já foi. O irmão Raul assumiu e parece interessado em democratizar pelo menos algumas áreas da simpática ilha.

Recentemente, apareceu um novo personagem embutido nessa realidade. Muita gente nunca tinha ouvido falar de Mianmar, localizado no sudeste asiático. Poucos sabiam que, por muito tempo, liderou globalmente a produção de arroz. Outros menos tinham consciência que a população vive fundamentalmente de atividades agrícolas mergulhada em condições subumanas. Mas dois lamentáveis acontecimentos fizeram sua fama. Ambos se relacionam ao regime militar homicida instalado, fortemente enraizado, no país.

Depois da forte repreensão governista aos monges budistas protestantes, a imprensa direcionou os olhares para o pobre vizinho dos muito comentados chineses e indianos. Um grande ciclone, passado pouco tempo do crime estatal, castigou a população, com número de mortes superior a 22 mil pessoas, além de um milhão e meio de desabrigados.

Tamanha tragédia não abalou os ditatoriais governantes. Eles se negaram a aceitar ajuda internacional. Simplesmente deram as costas ao resto do mundo. Apenas nove dias após o triste ocorrido, as autoridades militares aceitaram, finalmente, a ajuda internacional. Pense na quantidade de vidas que poderiam ter sido salvas, caso a ajuda tivesse chegado horas depois do ciclone.

A inadmissibilidade da continuação de governos como esse é unânime. Mas o que fazer? Alguns defendem a não intervenção militar de outros países ou da própria força de segurança da ONU. O próprio povo teria de lutar pelos seus direitos e a evolução da sua sociedade. Outros querem, sim, a destituição rápida de governos autoritários e desgraçados. Porém, o grande problema da segunda alternativa é que tal direcionamento implica em armas, violência e morte de inocentes.