quarta-feira, 21 de maio de 2008

PARA REFLETIR

Instinto e falta de educação no transporte público
POR Bruno Victor Toranzo

Na velocidade de uma tartaruga. Quase parando. Tão confortável como um passeio de camelo. Os trancos da viagem tiram qualquer coluna do lugar. Mais lotado do que arquibancada de estádio. Não precisa segurar em nada. Basta apoiar nos companheiros grudados em você.

Essa é a realidade do transporte público. Tenho certeza que no Brasil inteiro é assim. Entretanto, vou enfatizar São Paulo por ter conhecimento de causa. Todos os dias, a exemplo de milhões de pessoas, utilizo os diferentes tipos de locomoção oferecidos pelo governo.

O que percebo, principalmente nos agradáveis horários de pico, são emoções à flor da pele. Melhor dizendo: emoção. Uma raiva parece contagiar as pessoas dentro dos trens. Não posso dizer que elas passam a se odiar. Raiva não! É instinto. Naturalmente, cada um de nós precisa de espaço. Quando sentimos muita gente dentro do nosso espaço, o problema começa.

Na hora de entrar e sair dos vagões, o instinto se manifesta completamente. Conseqüência daqueles que deixam o instinto controlar seu próprio eu: falta de educação. Para sair do vagão, você precisa estar com os pulsos levantados. Virou lei da sobrevivência. Teoricamente, os que saem têm preferência. Os passageiros devem sair primeiro para, depois, outros entrarem. É impossível que as pessoas saiam e entrem ao mesmo tempo.

Muita gente não entende essa regra básica. E as colisões acontecem com freqüência. Em algumas ocasiões, o choque provoca apenas rosto feio de cada um dos lados. Mas, na maioria das vezes, o bicho literalmente pega. Há discussão e briga. Mães covardemente xingadas. Pontapés e socos que atingem o ar e os corpos de outros que nada tinham a ver com a situação. Baixaria nas estações de trem.

Não posso esquecer de descrever a viagem diária que faço. Começo com ônibus logo pela manhã. Pego outro diferente próximo da hora do almoço. Passo para o metrô. Volto para o ônibus. Entro no trem. E ando alguns metros. Estou em meu local de trabalho. À noite, a ordem sofre alterações. Entro no trem. Vou para o ônibus. Depois, chego ao metrô. Volto para o trem. Pego mais um ônibus. E finalmente: lar, doce lar. Às vezes, o percurso sofre algumas variações, mas, normalmente, o caminho é esse mesmo.

Sempre insisto em dizer que todos esses quilômetros feitos de carro envolvem ainda maiores doses de estresse. É notável o enorme tráfego de veículos (maior parte com um cidadão dentro) em quase todas as vias paulistas. Como você percebeu, não tenho preferência pelo carro. O transporte público faz longas distâncias a um preço bem reduzido: uma passagem ou, no máximo, duas, além de não precisar dirigir e sofrer com o já citado engarrafamento campeão de recordes.

Falta maior investimento no transporte público. Se a qualidade do serviço fosse melhor, chegar ao trabalho e voltar dele seriam feitos de forma bem menos cansativa e violenta. Ao mesmo tempo, vale ressaltar que falta de educação não se resolve com investimento em transporte. A não ser que esse investimento seja na formação cidadã com escolas realmente eficientes, realidade muito distante em nosso país.