segunda-feira, 14 de agosto de 2006

FATO DA SEMANA

O DESIGUAL SISTEMA CAPITALISMO/GLOBALIZAÇÃO
POR Bruno Victor Dela Páscoa Toranzo

Para abordar o contexto da globalização, é fundamental que deixemos claro sua relação de intimidade com o capitalismo. Capitalismo e globalização caminham juntos e influenciam de maneira diferente os três grandes blocos de países do mundo. Classifico conforme o poderio financeiro, o tamanho da economia e a importância dela no mercado mundial. São três os blocos: o dos países ricos, desenvolvidos, o dos emergentes, em desenvolvimento, e o dos pobres.

De acordo com o dicionário Houaiss da língua portuguesa, globalização é o “processo pelo qual a vida social e cultural nos diversos países do mundo é cada vez mais afetada por influências internacionais em razão de injunções políticas e econômicas”. É importante destacar que o seleto grupo de nações desenvolvidas impõe, em razão de sua força econômica, seu modo de vida, seus valores, enfim, sua cultura, aos países pobres e emergentes como o Brasil. A globalização, portanto, parte dos países ricos, passando pelos em desenvolvimento e chegando aos pobres, determinando o grau de dependência entre os próprios governos.

O discurso consumista integra o sistema capitalismo/globalização, excluindo parcela significativa da população mundial por não ter poder de compra. A conseqüência dessa exclusão é imperceptível nos países de Primeiro Mundo como os Estados Unidos, o Japão e a Alemanha, pois a população tem condições de consumir as novidades tecnológicas, trazidas pelas importantes corporações. Fato que não ocorre nos países considerados pobres e emergentes cuja parcela considerável dos habitantes mal tem o que comer. E aqui reside o principal problema da globalização. Essa agrava a desigualdade social e contribui para o aumento da violência.

Tomemos como exemplo nosso país para representar o quanto as nações, fora daquele seleto grupo já mencionado, sofrem. Uma pequena porcentagem de brasileiros tem condições financeiras de alimentar o mercado globalizado, adquirindo os últimos lançamentos do mercado. Porém, as propagandas sobre esses novos produtos estão em toda parte. Na televisão, nos jornais, nas revistas, nos outdoors, onde quer que você esteja, será tentado para comprar. A obsessão por consumir, trocando com regularidade o carro ou comprando o maior número de calçados possíveis, passa a ser prioridade na vida em sociedade.

No documentário “Falcão – Meninos do tráfico” (retrata a vida dos jovens das favelas brasileiras que trabalham no tráfico de drogas), é facilmente perceptível, através dos depoimentos das crianças, um dos principais motivos pelos quais ingressam na vida do crime. Como a sociedade não dá boas oportunidades a eles, chances de progredir, os meninos utilizam esse argumento para entrar na criminalidade. Não entendem o porquê de não poderem ter aquele tênis, aquela moto ou aquela camisa que aparece todos os dias nas propagandas no horário nobre da televisão. Portanto, o objetivo principal da globalização, o de “educar” a pessoa desde criança a consumir o que de mais novo há, não faz parte do cotidiano de milhões de brasileiros.

Não é possível afirmar com convicção que em países socialistas essa tentação da globalização não ocorre. Considerando como exemplo o modelo socialista combalido de Cuba, ainda que Fidel Castro mantenha seu povo longe das investidas capitalistas, muitos cubanos renderam-se à vida democrática, repleta das tentações nas quais estamos acostumados. Grande parte deles reside hoje em Miami nos Estados Unidos, desfrutando de uma vida confortável, longe do controle castrista.

Como o sistema capitalismo/globalização está intrínseco à ordem mundial atual, os países pobres e emergentes precisam criar condições como a educação de qualidade e a geração de empregos, por meio do crescimento sustentado da economia, para que a população, ainda não inserida nesse contexto consumista, possa entrar rapidamente nele. O sistema capitalismo/globalização não tem planos para os que não têm poder de compra, condições de consumir, estão interessados apenas nos lucros exorbitantes que atingem em esfera global todos os dias.