O MARAVILHOSO MUNDO DA INDÚSTRIA DA GUERRA
POR Bruno Victor Dela Páscoa Toranzo
O filme “O Senhor das Armas” não aborda apenas o tráfico de armas, mas sugere uma ampla discussão acerca do benefício trazido pelo problema aos países poderosos, interessados na manutenção da ordem vigente. Ordem essa que enriquece os países ricos, desenvolvidos, em detrimento da miséria e do sofrimento dos tidos como pobres e em desenvolvimento. A indústria da guerra ou indústria bélica, a de produção de armamentos militares, precisa que novos conflitos surjam e que os atuais continuem. É curioso notar que os cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – Estados Unidos, França, Inglaterra, Rússia e China – possuem as mais rentáveis indústrias de guerra do globo.
O traficante de armas, ou seja, o personagem de Nicolas Cage, não produz o armamento que negocia. Ele consegue a “mercadoria”, entre outras formas, através do suborno de militares desmotivados e até trabalha para governos e governantes importantes, contribuindo com eles para o lucro imenso que as indústrias de guerra proporcionam à economia dos países envolvidos.
O crescimento econômico sempre esteve intimamente ligado à guerra. Na I e II Guerras Mundial, os Estados Unidos foram os maiores beneficiados com o embate entre as nações. Foram eles que armaram os países considerados aliados e lucraram horrores. Tanto é que os norte-americanos consolidaram sua posição de superpotência em nossa atual ordem capitalista. A guerra gera crescimento da economia dos países vencedores e, posteriormente, dos perdedores. O que verificamos nas duas últimas grandes guerras é que as nações derrotadas, após um breve período de tempo, recuperaram suas economias através do investimento, sobretudo dos Estados Unidos, por meio de planos econômicos de ajuda como o Marshall. Japão e Alemanha são exemplos de recuperação econômica, figurando hoje no seleto grupo das nações poderosas.
Houve uma mudança no contexto político-econômico mundial considerada radical para a indústria bélica. Com o fim da URSS em 1992, o sistema capitalista saiu como vencedor e passou a ditar sozinho as regras no mercado internacional. O socialismo forte, robusto, não existia mais, a não ser aquela imitação praticada em Cuba e em algumas outras regiões do mundo. Dessa forma, os conflitos antes divididos entre as duas vertentes socialismo e capitalismo (guerra ideológica conhecida como “Guerra Fria”) como a Guerra do Vietnã, agora não seriam mais sob nenhuma das duas bandeiras ideológicas, mas por outras razões, todas diferentes umas das outras. A disputa pelo poder na África, os movimentos emancipacionistas como o ETA (grupo de libertação basco) na Espanha e a política externa norte-americana de utilizar a guerra de prevenção em países que ameacem sua hegemonia (invasão do Afeganistão e Iraque) configuram-se como algumas das diferentes razões explicitadas anteriormente. Esse novo tipo de conflito provocou o aumento do tráfico de armas, já que as guerras deixaram de ser, na preponderância dos casos, apenas ideológica para adquirir caráter violento, sanguinário.
O continente africano caracteriza-se pela instabilidade política, sendo constantes as lutas entre tribos e religiões rivais pelo controle do poder. Os países usam a base de sua economia – produtos primários de exportação como o marfim, os diamantes e o cobre – para financiar os “banhos de sangue”, ocasionados pelos golpes de Estado e a já citada rivalidade étnica.
Infelizmente, as armas de fogo e as munições estão inseridas na ordem vigente mundial. Assim, as balas são indispensáveis para criar a falsa ilusão de segurança, tanto em nível nacional, por meio das Forças Armadas, quanto em pessoal, utilizando como exemplo o uso civil. O AK-47 é um rifle de fabricação russa, fazia parte do enorme arsenal de guerra da extinta União Soviética. Essa se popularizou tanto que organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo, e o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, a utilizam com a maior naturalidade.
Percebemos, portanto, uma completa deturpação dos valores humanos. Além das constantes tragédias causadas pela arma de fogo, não importa mais quem a esteja carregando, uma criança ou um adulto, o importante é matar, “destruir” o inimigo.