ARTIGO PUBLICADO NA EDIÇÃO DO DIA 15 DE ABRIL DE 2006 DO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO, ASSINADO POR ENRIQUE KRAUZE
OS DEZ MANDAMENTOS DO POPULISMO
O historiador mexicano Enrique Krauze analisa o populismo na América Latina através de seus atuais e passados representantes. "Populista pós-moderno é Hugo Chávez, que venera Fidel Castro a ponto de tentar converter a Venezuela numa colônia experimental do novo socialismo". Para Krauze, o populismo é utilizado tanto pela direita como pela esquerda: "Esquerdas e direitas poderiam reivindicar a paternidade do populismo, todas ao conjuro da palavra mágica povo".
De forma resumida, reproduzirei os dez pontos marcantes do populismo para o historiador:
- O populismo exalta o líder carismático. Não há populismo sem a figura do homem providencial que resolverá os problemas do povo.
- O populista não só usa e abusa da palavra: ele se apropria dela. A palavra é o veículo específico de seu carisma. O populista se sente o intérprete supremo da verdade geral e também a agência de notícias do povo. Fala com o povo de modo constante, incita suas paixões, "ilumina o caminho", e faz isso sem restrições nem intermediários (...) Perón aprendeu a importância política do rádio para hipnotizar as massas.
- O populismo fabrica a verdade. Os populistas levam às últimas conseqüências o provérbio latino: "Vox populi, vox Dei". Mas como Deus não se manifesta todos os dias e o povo não tem uma única voz, o governo "popular" interpreta a voz do povo, eleva essa versão à condição de verdade oficial, e sonha com decretar a verdade única.
- Os populistas abominam a liberdade de expressão (...) Na Argentina peronista, os jornais oficiais - incluindo um órgão nazista - contavam com generosos privilégios, mas a imprensa livre esteve a um passo de desaparecer.
- O populista usa de modo discricionário os recursos públicos. Não tem paciência com as sutilezas da economia e das finanças. O erário (ou seja, o tesouro público) é seu patrimônio privado, que ele pode usar para enriquecer-se ou para embarcar em projetos que considere importantes ou gloriosos sem levar em conta os custos (...) todo gasto é investimento.
- O populista divide diretamente a riqueza. O que não é criticável em si (sobretudo em países pobres, onde há argumentos extremamente sérios para dividir, de fato, uma parte da receita, à margem das dispendiosas burocracias estatais e prevenindo efeitos inflacionários), mas o populista não divide de graça: focaliza sua ajuda e a cobra em obediência.
- O populista alimenta o ódio de classes (...) Os populistas latino-americanos (...) fustigam "os ricos" , mas atraem os "empresários patrióticos" que apóiam o seu regime. O populista não busca, necessariamente, abolir o mercado: sujeita seus agentes e os manipula a seu favor.
- O populista mobiliza permanentemente os grupos sociais. O populismo apela, organiza, inflama as massas.
- O populismo fustiga sistematicamente o "inimigo externo". Imune à crítica e alérgico à autocrítica, precisando apontar bodes expiatórios para os fracassos, o regime populista (mais nacionalista que patriótico) precisa desviar a atenção interna para o adversário de fora. O populismo despreza a ordem legal. Há na cultura política ibero-americana um apego atávico à "lei natural" e uma desconfiança das leis feitas pelo homem. Por isso, uma vez no poder (como Chávez), o caudilho tende a se apoderar do Congresso e induzir a "justiça direta" ("popular", "bolivariana"), arremedo de uma Fuenteovejuna - a obra teatral de Lope de Vega sobre abuso de poder e justiça - que, para os efeitos práticos, é a justiça que o próprio líder decreta. Hoje, o Congresso e o Judiciário são um apêndice de Chávez, como na Argentina o eram de Perón e Evita, que suprimiram a imunidade parlamentar e depuraram, segundo a sua conveniência, o Poder Judiciário.
- O populismo mina, domina e, em último recurso, domestica ou cancela as instituições da democracia liberal. Ele abomina os limites a seu poder, considera-os aristocráticos, oligárquicos, contrários à "vontade popular" (...) Quanto a Chávez, ele declarou que seu horizonte mínimo é o ano 2020.