sexta-feira, 11 de abril de 2008

ECONOMIA

Breve relato da desordem econômica
POR Bruno Victor Toranzo

Como já dito milhares de vezes, o epicentro da crise foi o mercado imobiliário norte-americano. Mais precisamente, os negócios que envolvem hipotecas. A hipoteca é resumidamente pegar dinheiro emprestado e deixar um imóvel como garantia do pagamento. Prática de negociação comum, sem novidade para o leitor. Aliás, as pessoas não têm necessariamente apenas um imóvel. Algumas possuem maior número deles, por razões mil, que englobam comodidade e diversão. Outras consideram estratégia de investimento altamente rentável.

Essas transações imobiliárias tradicionalmente são responsáveis pela atividade econômica mais lucrativa dos Estados Unidos. Procedimento relativamente usual, por exemplo, é um americano comprar outra casa com dinheiro advindo da hipoteca de sua própria residência. O investimento é feito em diferentes imóveis devido ao retorno interessante que sempre proporcionou. Na época de abundância, de muito dinheiro em circulação, os financiamentos antigos chegaram a ser recalculados com taxas de juros menores.

Por falar nisso, os bancos, companhias de seguro e outras instituições financeiras, otimistas com a enxurrada de capital, deixaram de lado os financiamentos de imóveis confiáveis para apostar nos subprimes. Agora, de fato, você entenderá o que isso significa. Esses subprimes são créditos concedidos sem que o perfil do tomador do empréstimo seja levado em consideração. O perigo começa justamente nessa total ausência de fiscalização. Milhões de americanos tomaram empréstimos, através do crédito subprime, sem terem reais condições de arcar com a dívida.

E qual foi a vantagem dos bancos comerciais e outras instituições de empréstimos na liberação, com os olhos fechados, do dinheiro? Eles cobravam mais pelos juros, valor duas ou três vezes superior ao crédito convencional. Portanto, não havia erro, a ordem era emprestar à vontade.

As autoridades monetárias já sabiam dessa situação. Não foi novidade quando vieram à tona os danos dessa conduta completamente irresponsável. O mercado previa a possibilidade de aumento da inadimplência, mas não esperava que a crise resultante deflagrasse tamanha inconstância nos mercados.

O processo de contaminação, de disseminação da doença, ocorreu quando esses empréstimos foram transformados em títulos passíveis de venda aos investidores. Aliás, qualquer ativo financeiro ou não financeiro pode ser transformado em título para negociação, conversão chamada de securitização. Extremamente rentáveis, devido inicialmente às altas taxas de juros cobradas, esses títulos atraíram os grandes bancos de investimento. Os maiores compradores são conhecidos e tradicionais no mercado em uma lista que reúne Morgan Stanley, Goldman Sachs, Merril Lynch, Lehman Brothers e Bear Stearns.

Algum tempo depois, no segundo semestre do ano passado, a inadimplência explodiu, o que, obviamente, causou esfriamento, praticamente congelamento, das atividades imobiliárias. Casas recém-construídas não eram mais compradas. Novas aquisições aconteciam com bem menos freqüência. O Bear Stearns, citado no parágrafo anterior, não agüentou e sucumbiu à crise, trazendo grande pessimismo e temor aos mercados. O resultado foi sua venda, a preço de banana, para o banco JP Morgan.

Conseqüência natural da instabilidade foi o clima de precaução internacional. A hora é de estudo do mercado para evitar maiores prejuízos. As instituições financeiras perceberam o enorme erro que cometeram com a política do “crédito à revelia”. O desafio do FED, banco central norte-americano, e dos outros bancos centrais, principalmente europeus, se inverteu. Ao invés de controlar o crédito exacerbado, algo que não fizeram no momento oportuno, precisam, hoje, motivar a concessão de empréstimos, não deixando que o mecanismo simplesmente evapore. Caso ele se perca no espaço, as conseqüências serão ainda mais nefastas.

Isso porque um dos principais responsáveis para a funcionalidade da economia é justamente a possibilidade de tomar dinheiro emprestado. Seja ele para adquirir determinado produto ou aumentar o tamanho do empreendimento pessoal. Algumas economias são ainda mais dependentes desse indispensável recurso. O grande motor do crescimento da economia norte-americana sempre esteve ancorado nas possibilidades de crédito. E crédito farto e fácil.

A maior preocupação dos últimos dias é que essa crise de crédito se expanda para outras atividades econômicas. Segundo o último World Economic Outlook (relatório das publicações anteriores), do Fundo Monetário Internacional, as chamadas dívidas do consumo, contraídas pelo cartão de crédito e débito, cresceram em uma média anual de 5%, entre os anos de 2002 e 2006, enquanto as dívidas hipotecárias atingiram 12%. Tal índice continua baixo se comparado ao nível observado durante o esfriamento da economia dos mesmos Estados Unidos, ocasionado pelos atentados terroristas de 2001, mas é sempre bom ficar de olhos bem abertos.