sexta-feira, 18 de abril de 2008

ECONOMIA

Ixi! Os juros subiram. E agora?
POR Bruno Victor Toranzo

Apesar da alta de 0,5% na taxa básica de juros, durante reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) realizada anteontem, o mercado não se voltou tão raivosamente aos poderosos do Banco Central. Só se viu de verdade alguns estudantes, em Brasília, pedindo o não aumento. O que se observou foi uma aceitação representativa da decisão, de caráter claramente ortodoxa, pelos diretamente envolvidos, desde economistas e outros profissionais da área até a própria bancada política.

O fato é que o grupo, comandado pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, não titubeou para adicionar meio ponto percentual de uma só vez. A expectativa era de metade disso. Agora, os juros nominais estão em 11,75% ao ano ou, caso prefira, considere a inflação para chegar ao valor real de 7%. Em termos reais, o Brasil tem a maior taxa básica de juros do planeta. Caso a inflação seja desconsiderada, a Venezuela, com 17,8%, e a Turquia, com 15,3%, tomam o posto.

Como sabido, a inflação foi a grande razão para o aumento após três anos consecutivos de cortes. O temor ao risco de sua volta fez com que o próprio crescimento ficasse em segundo plano. Preocupação muito válida. Não podemos deixar o vilão inflacionário se agigantar. Se isso ocorresse, o crescimento sustentável ficaria seriamente comprometido por anos a fio. Sem dúvida que a elevação dos juros é o único remédio imediato disponível. Não há problema em aumentá-lo para afastar qualquer ameaça.

Obviamente a melhor saída está no aumento da capacidade produtiva. Porém, essa é uma solução estrutural e não emergencial como os juros. Uma alternativa que precisa de muito mais tempo. Construir uma fábrica não acontece de um dia para o outro. Aliás, nem existe garantia efetiva do aumento da capacidade de produção. As empresas automobilísticas, por exemplo, estão receosas em expandir suas instalações. Temem que seja apenas um pequeno surto de crescimento, como aconteceu em outros momentos do passado brasileiro.

A grande questão se relaciona com as mudanças que a nova taxa de juros traz para o país. Além do combate ao risco inflacionário, comentado anteriormente, ela motivará a entrada do capital estrangeiro especulador.

George Soros, Warren Buffett e outros grandes investidores direcionarão seu capital para o mercado brasileiro. Uma das alternativas será comprar os famosos títulos públicos e lucrar com os altos juros praticados por aqui. O capital deles também poderá tirar período de férias na pulsante bolsa brasileira, apostando (por que não?) nos papéis dos bancos, com excelente previsão de crescimento da concessão de créditos.

Os dólares, ao entrar no país, serão convertidos em reais, fortalecendo ainda mais nossa moeda. Verdadeiro pesadelo para os exportadores. Dessa maneira, a balança comercial continuará em movimento de desequilíbrio, com maior destaque para o crescimento das importações e a queda dos valores referentes às exportações.

Essa é uma visão do que provavelmente acontecerá com o cenário macroeconômico. Quanto aos investidores comuns, como eu e você, poucas alterações devem acontecer. Além dos empréstimos ficarem mais caros, devemos evitar as ações relacionadas ao varejo, queda relacionada à redução, mesmo que tímida, do crédito, bem como algumas empresas exportadoras, a exemplo da Embraer. Não vale a pena também direcionar a maior parte dos investimentos para os famosos fundos DI de renda fixa, aqueles cuja rentabilidade acompanha a taxa de juros. A razão para não apostar neles está na provável valorização, ao longo desse ano, de mais de 30% do Ibovespa, principal índice da bolsa de valores brasileira.