quinta-feira, 3 de abril de 2008

HISTÓRIA

De português pai para filho
POR Bruno Victor Toranzo

A vinda da família real para o Brasil é tratada brilhantemente na obra de Laurentino Gomes intitulada 1808. Dom João VI e sua corte, além da nobreza portuguesa, vieram para a então colônia explorada sem dó por séculos. Todos eles fugiam de Napoleão Bonaparte, ardoroso inimigo do absolutismo, representante maior da burguesia.

Depois de passar rapidamente por Salvador, a caravela de D. João rumou para a “cidade maravilhosa”. As diferenças com Lisboa foram notadas logo na chegada. Além de verdadeiro paraíso tropical, com montes verdejantes e águas límpidas, os cariocas tinham costumes bem diferentes dos portugueses.

Antes da transferência governamental de continente, o Rio de Janeiro representava apenas mais uma das capitanias da colônia. A comunicação entre as regiões brasileiras mal acontecia. Transações comerciais raramente eram feitas. As capitanias viviam isoladas, situação semelhante aos feudos da Idade Média. Mesmo assim, já existia uma cultura própria, verdadeiramente brasileira, fragmentada pela falta de comunicação inter-regional.

Todas as mudanças foram radicais para os portugueses fugitivos. Com medo de ser arrasado pelo impiedoso, apesar de baixinho, general Bonaparte, Dom João VI não titubeou e saiu correndo para sua mais importante colônia. O povo português, incluindo a nobreza restante, foi literalmente abandonado pela figura maior, o monarca absolutista. Os fujões saíram do continente europeu, de uma cidade considerada ultrapassada para os padrões da época, mas que oferecia melhores condições de vida quando comparada a qualquer colônia do império português.

A escravidão corria solta por aqui desde trinta anos após o descobrimento. Muitos africanos desembarcavam na costa brasileira todos os dias. O Rio de Janeiro era uma capitania que recebia grande parte deles. Os traficantes de escravos lucravam horrores com essa atividade fundamental para o funcionamento da economia colonial. Sem essa força de trabalho abundante e barata (os donos gastavam apenas na compra e sustento, na maior parte das vezes, precário do escravo), a frágil economia nada produziria.

Quando Dom João VI, sua mãe Maria Louca, sua mulher Carlota Joaquina, o restante da corte, além de uma pequena parcela da nobreza que vivia em Portugal, colocaram os pés por aqui, sabiam que adaptações seriam obrigatórias. O desafio era transformar uma colônia de exploração e, bota exploração nisso, em um lugar no estilo europeu.

E realmente houve uma transformação significativa na antiga colônia, elevada para o grau de Reino Unido de Portugal rapidamente. Em apenas catorze anos, o Brasil deixou de ser um hospedeiro do parasita Portugal para atingir um grau de modernização que permitiu, inclusive, a própria forjada independência. Durante mais de trezentos anos, vivemos em função dos interesses da metrópole portuguesa, fornecendo, principalmente, as riquezas advindas da terra, como pau-brasil, ouro e prata.

Paralelamente, os acontecimentos mais do que ferviam em Portugal. A Revolução do Porto, em 1820, fez com que os portugueses dessem um ultimato para a corte fugida ainda instalada no Brasil. A ameaça francesa há muito tinha deixado de existir. O exemplar conhecedor das táticas de guerra estava preso há cinco anos na Ilha de Santa Helena. A verdade é que Dom João VI gostou da região tropical e não queria voltar. Porém, a população portuguesa estava, inclusive, preparada para tomar o poder, caso o rei seguisse sua vontade.

Apesar de não ter ficado, D. João VI deixou seu filho por aqui. Em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro I declarou a independência brasileira. Aliás, nenhuma novidade. As pessoas sabiam que esse seria o processo natural. Na prática, o poder passou das mãos do português pai para o português filho. Uma mera transferência de poder. Uma hipocrisia com cheiro de bacalhau.

Foi assim que surgiu o Brasil como terra independente. Sem dúvida que história interessantíssima, repleta de fatores curiosos. Diferentemente de outros países, como os Estados Unidos, não ocorreu união dos brasileiros em nome da independência. Não houve confronto, guerra ou algo do tipo. Na prática, uma independência falseada de Portugal, liberdade comandada por um português, passando para as mãos da tão presente influência inglesa.