Morte aos juros nominais
POR Bruno Victor Toranzo
A revista Veja dessa semana trouxe um artigo muito interessante de autoria do experiente administrador Stephen Kanitz. Localizado mais precisamente na seção Ponto de Vista, o texto explora um erro comum do jornalismo econômico. Partindo desse tão presente equívoco, discute toda cobertura econômica da grande imprensa.
Um marco da história. Essas foram as palavras de Kanitz em relação à manchete do dia 19 de março deste ano do jornal Folha de S. Paulo. “Juro real dos EUA fica negativo com o sexto corte seguido”. Apesar de bem observado, houve um engano. Na verdade, o jornalista Carlos Alberto Sardenberg, durante o Jornal da Globo do dia anterior, destacou, em um simpático gráfico, a situação dos juros negativa. A palavra “marco” implica necessariamente “pioneirismo”. Dessa maneira, Sardenberg foi o verdadeiro autor do marco.
Aliás, publiquei esse mesmo vídeo, um trecho do referido jornal da Rede Globo de Televisão, na quinta-feira passada, como forma de explicar a crise dos Estados Unidos e destacar o agora famoso juro real negativo.
Compreendo que não deve estar entendendo quase nada, meu leitor. Explicarei melhor. A maior parte da imprensa erradamente sempre traz para você um valor correspondente à taxa de juros chamado pelos economistas de nominal. Sua principal característica é não considerar o índice de inflação.
Vou dar um exemplo. O Banco Central aumentou os juros em 0,5%, chegando aos 11,75% ao ano. Uma rentabilidade para os investidores que aparenta ser muito maior do que a realidade. Caso a inflação seja descontada, por volta de 4,75%, chegamos aos 7%, ainda assim muito interessante para a compra de títulos públicos.
Explicação adicional é mais do que necessária. A dívida pública é calculada em função da taxa básica de juros (essa daí que estamos falando). O governo transforma sua dívida em vários e vários títulos que serão negociados com a taxa de juros determinada pelo Banco Central.
Paralelamente, analisemos a situação dos Estados Unidos. Os juros estão caindo e muito por lá. Desde a explosão da crise, um dos mecanismos de tentativa de contenção da instabilidade é a redução dos juros. Hoje, o valor nominal encontra-se em 2,25%. Atente-se para o nominal, por favor. Vamos agora subtrair a inflação dos últimos 12 meses, de 2,3%, para chegarmos ao valor negativo de 0,05%. Exatamente. Um valor negativo de juros. Lanço a seguinte pergunta de dificílima resposta: vale a pena comprar títulos públicos americanos?
O que se percebe, principalmente no último caso, é a facilidade de confusão entre nominal e real. Seria mais fácil, inclusive, abortar a taxa nominal. Ela atrapalha, não serve para nada, a não ser que exista o objetivo irresponsável de tapear o leitor.
Quero outra comparação. Tenho certeza que facilita a compreensão. Considere, mais uma vez, o valor nominal da taxa de juros dos Estados Unidos. Os títulos públicos a 2,25% não constituem mau negócio, já que são conhecidos pela excelente liquidez (facilmente transacionáveis) no mercado.
Por outro lado, os juros reais, realmente verdadeiros, apontam para o pior dos negócios. Simplesmente o investidor estará financiando a dívida de um país sem cobrar juros. Pior do que isso: a cada mês, mantida a taxa atual, exato 0,05% do patrimônio investido também virará pó.
POR Bruno Victor Toranzo
A revista Veja dessa semana trouxe um artigo muito interessante de autoria do experiente administrador Stephen Kanitz. Localizado mais precisamente na seção Ponto de Vista, o texto explora um erro comum do jornalismo econômico. Partindo desse tão presente equívoco, discute toda cobertura econômica da grande imprensa.
Um marco da história. Essas foram as palavras de Kanitz em relação à manchete do dia 19 de março deste ano do jornal Folha de S. Paulo. “Juro real dos EUA fica negativo com o sexto corte seguido”. Apesar de bem observado, houve um engano. Na verdade, o jornalista Carlos Alberto Sardenberg, durante o Jornal da Globo do dia anterior, destacou, em um simpático gráfico, a situação dos juros negativa. A palavra “marco” implica necessariamente “pioneirismo”. Dessa maneira, Sardenberg foi o verdadeiro autor do marco.
Aliás, publiquei esse mesmo vídeo, um trecho do referido jornal da Rede Globo de Televisão, na quinta-feira passada, como forma de explicar a crise dos Estados Unidos e destacar o agora famoso juro real negativo.
Compreendo que não deve estar entendendo quase nada, meu leitor. Explicarei melhor. A maior parte da imprensa erradamente sempre traz para você um valor correspondente à taxa de juros chamado pelos economistas de nominal. Sua principal característica é não considerar o índice de inflação.
Vou dar um exemplo. O Banco Central aumentou os juros em 0,5%, chegando aos 11,75% ao ano. Uma rentabilidade para os investidores que aparenta ser muito maior do que a realidade. Caso a inflação seja descontada, por volta de 4,75%, chegamos aos 7%, ainda assim muito interessante para a compra de títulos públicos.
Explicação adicional é mais do que necessária. A dívida pública é calculada em função da taxa básica de juros (essa daí que estamos falando). O governo transforma sua dívida em vários e vários títulos que serão negociados com a taxa de juros determinada pelo Banco Central.
Paralelamente, analisemos a situação dos Estados Unidos. Os juros estão caindo e muito por lá. Desde a explosão da crise, um dos mecanismos de tentativa de contenção da instabilidade é a redução dos juros. Hoje, o valor nominal encontra-se em 2,25%. Atente-se para o nominal, por favor. Vamos agora subtrair a inflação dos últimos 12 meses, de 2,3%, para chegarmos ao valor negativo de 0,05%. Exatamente. Um valor negativo de juros. Lanço a seguinte pergunta de dificílima resposta: vale a pena comprar títulos públicos americanos?
O que se percebe, principalmente no último caso, é a facilidade de confusão entre nominal e real. Seria mais fácil, inclusive, abortar a taxa nominal. Ela atrapalha, não serve para nada, a não ser que exista o objetivo irresponsável de tapear o leitor.
Quero outra comparação. Tenho certeza que facilita a compreensão. Considere, mais uma vez, o valor nominal da taxa de juros dos Estados Unidos. Os títulos públicos a 2,25% não constituem mau negócio, já que são conhecidos pela excelente liquidez (facilmente transacionáveis) no mercado.
Por outro lado, os juros reais, realmente verdadeiros, apontam para o pior dos negócios. Simplesmente o investidor estará financiando a dívida de um país sem cobrar juros. Pior do que isso: a cada mês, mantida a taxa atual, exato 0,05% do patrimônio investido também virará pó.