POR Bruno Victor Toranzo
O recém-eleito presidente do Paraguai, Fernando Lugo, concentrará sua atenção, como um dos primeiros objetivos de seu governo, na renegociação do preço da energia elétrica direcionada para o mercado brasileiro.
Em 2007, o Brasil pagou US$ 340 milhões aos paraguaios. De acordo com o tratado de Itaipu assinado pelos dois países, em 1973, paraguaios e brasileiros são donos da usina e têm direito a 50% cada um da energia produzida. Porém, nosso vizinho usa apenas 5% dessa cota, vendendo o restante para nós.
Sem dúvida que o bispo Lugo tem seu mérito ao ter tirado os colorados da presidência, uma direita retrógrada e perversa que se mantinha há impressionantes 61 anos seguidos no comando do país.
E não é surpresa alguma a intenção energética de Fernando Lugo. Tal comportamento virou moda no continente. A exemplo da Bolívia com o gás natural e da Venezuela, com o petróleo e a PDVSA, os paraguaios não deixariam de embarcar nessa. A diferença, por enquanto, é que Lugo não ameaçou suspender o fornecimento de energia elétrica para nosso país. Menos mal. Talvez, ele não trabalhe com esse tipo de possibilidade. Espero que continue assim. A discussão do contrato em vigência não é pecado algum, mas rasgá-lo e desconsiderá-lo por completo é uma agressão imperdoável.
Aliás, é incrível como a América do Sul deixou para trás a tradição direitista para embarcar definitivamente no outro lado da corrente. Isso mostra o quanto o modelo neoliberal de Estado, com enxugamento completo dos gastos e prejuízo para a população, falhou nos países da região. É possível, sem maiores questionamentos, considerar a ascensão dos líderes populistas, encabeçados por Chávez, uma resposta à ortodoxia de Washington.
Diria que não uma resposta, mas a busca por um sistema verdadeiramente justo e eficaz, algo que simplesmente não existe e nunca vai existir. Tanto é que essa escolha até agora não justificou a esperança depositada pelo povo sul-americano. Evo Morales, Hugo Chávez e Rafael Correa se mostraram ineficientes com interesses voltados exclusivamente para si mesmos. Uma pena.
E Lula? Não esqueci dele não. Classificar o comportamento de Lula é um desafio. Não se parece com nenhum dos elementos citados acima. Ao mesmo tempo, também não tem o conservadorismo de Álvaro Uribe. O presidente do Brasil não tem estilo definido. Ele se metamorfoseia, como na obra de Franz Kafka, conforme a maré. Esse é seu diferencial. Durante os comícios, retorna aos tempos de operário. Em reuniões internacionais ou festas glamurosas, adota posicionamento de empresário, apesar de suas deficiências educacionais não permitirem a completa transformação nesses casos.
Sem falar das épocas de crise do governo. Aquelas protagonizadas por mensaleiros e sanguessugas. O silêncio predomina no comportamento do presidente. O gato literalmente engole sua língua. Nos raros momentos de conversa, ele diz que não sabe de nada. Por outro lado, as pesquisas de aprovação do governo mudam radicalmente sua personalidade. Com os sempre excelentes números (gerando minha perplexidade), não há quem segure o presidente e as suas conseqüentes bobagens. Feliz e satisfeito, as pérolas saem com facilidade.